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O interior do Wigmore Hall / Foto: Clovis Marques

| Wigmore, I love you! Três semanas no paraíso londrino da música e do canto de câmara

12/12/2017 - Por Clóvis Marques*

Crítico de música, Clóvis Marques conta a experiência de imersão na programação de uma das principais salas de concerto da terra da Rainha.

Novembro. A modesta temporada de música clássica do Rio de Janeiro chega ao fim (mas… tinha começado?). Na Europa, ela está no auge, e eu fui realizar um velho sonho. Amigos ofereceram pousada em Londres, e desde junho me programei para passar três semanas sendo feliz no Wigmore Hall, onde você nem precisa escolher a melhor música: não tem outra!

Fui atrás, especificamente, de grandes cantores de câmara. É para mim o supra-sumo da beleza musical: uma soprano ou mezzo, um tenor ou barítono, um piano (ou às vezes outro instrumento ou pequeno conjunto) e uma canção: o corpo humano como fonte de música, a coluna sonora que se expande no espaço acústico, a presença e a expressão corporal e facial, o timbre e o grão da voz, a dicção e o dizer… Uma arte ao mesmo tempo do cultivo infinitesimal e da projeção fenomenal.

Wigmore Hall. Foto: Clóvis Marques

Elina cancelou

Mas neste capítulo não dei “aquela” sorte. A grande estrela programada para o período, a mezzo letã Elina Garanča, acabou cancelando — as entradas já estavam esgotadas em junho, mas eu apostava numa desistência de última hora. Nada feito. Pude apreciar então três vozes masculinas.

O tenor alemão Julian Prégardien, 33 anos (a idade é importante para uma voz), filho do grande Christoph Prégardien (também tenor), se revelou ainda a caminho de uma maturidade, num programa todo dedicado a Schubert. Como ele, o barítono austríaco Florian Boesch (46) tem uma “questão” com o registro agudo: Prégardien precisa elevar o volume para alcançar certas notas, o que sempre incomoda, se a música não pedir realmente; artista mais completo, Boesch, ao contrário, só chega a certas alturas perdendo força: seus registros confortáveis de barítono quase baixo-barítono são os do médio para o grave.

Mas Boesch é o tipo de cantor que todo mundo quer ouvir: presença, vozeirão cheio e projeção plena mas finamente modulada, convite bem-sucedido ao transportamento para o mundo musical e poético de Schubert, Schumann ou Wolf (Prégardien provavelmente ainda “rodava” o programa apresentado e lia as partituras, Boesch já ostentava o esperado domínio, com o olhar livre).

Em Boesch, sujeito grandão de energia viril afirmada, a sensualidade/sexualidade faz parte do show, como em qualquer cantor ou cantora liberado(a) em sua arte e personalidade. Já Prégardien a encobriu com a atenção voltada para a estante. A sensualidade do outro “nomão” da minha minitemporada, atualmente o príncipe dos barítonos da escola do Lied, é de outra natureza, desvinculada da presença física. O alemão Christian Gerhaher (48) é uma espécie de antídoto de Boesch: projeção às vezes confidencial, atitude antes de cavalheiro que de cavaleiro dos palcos, interiorização expressiva e corporal, a minúcia da palavra na frente do brilho da voz — de timbre algo anasalado. Os dividendos assim pagos são mais secretos e requerem uma outra escuta. Mas no fundo a intimidade é o terreno de eleição da canção de câmara, e ele se apossou dela como raros, num programa Britten, Brahms e Schubert.

Piano, quartetos…

O francês Philippe Cassard ofereceu o recital mais feliz e revelador dentre os pianistas — também ouvi o russo-americano Kirill Gerstein e a venezuelana Gabriela Montero.

Gerstein é uma fera da precisão e do propósito no teclado, mas não se permite um pouco de necessário devaneio. Talvez ainda venha (36 anos, ele tem). Montero, famosa pelas improvisações, pranteou (literalmente, como se viu na hora dos aplausos) seu “broken country” ao improvisar, mas tendeu a um sentimentalismo meio fora de propósito nas Cenas infantis de Schumann — ela gosta, por exemplo, de retardar a entrada da mão direita em relação à esquerda. Belíssimos pianistas de qualquer maneira.

Cassard tem sido no Wigmore Hall um dos músicos que organizam programações temáticas em vários recitais: no seu caso, uma série “Perspectivas de Debussy”, que na minha noite chegava à terceira edição, com o subtema “Debussy dança”. Foram composições de vários autores em torno de peças dançantes do criador da  Mais que lenta, tocadas com fantasia, humor e uma ciência sedutora dos planos harmônicos e do arredondado das sonoridades.
A maratona de quartetos de cordas foi tudo. Comecei com o Quarteto Doric, britânico, de aproximadamente dez anos de idade. Ele participa do vasto panorama de quartetos de Haydn que está sendo apresentado nesta temporada no Wigmore. Sonoridade enxuta, arte límpida. Ouvi também o lendário Quarteto Takács, fundado na Hungria em 1975 e ainda contando com dois dos fundadores: toda a plasticidade da maturidade em Mozart, Brahms, Shostakovich e Mendelssohn (o Quinteto nº 2, com a violista Louise Williams).

Houve ainda o Quarteto Meccore, polonês, outro da afiadíssima geração mais recente. Mas o ponto alto foi a noite com o Quarteto Hagen, o conjunto alemão que desde 1981 toca com os quatro fundadores. No seu programa com um quarteto do primeiro Beethoven (Opus 18 nº 4), os Cinco movimentos Op. 5 de Anton Webern e o Quarteto Op. 41 nº 3 de Schumann, difícil entender como a perfeição pode ser tão expressiva, a aparente ausência de risco tão intensa, a unanimidade do gesto tão musical.

Os violinistas

Joshua Bell com a Academy of St Martin in the Fields

E os violinistas? Ah, os violinistas! A jovem Tasmin Waley-Cohen desponta com uma segurança admirável em músicas tão diversas como as de Beethoven, Janáček e Ravel. O grande e agora cinquentenário Joshua Bell, que se apresenta em público desde a infância, subiu ao palco com vinte instrumentistas de cordas da “sua” Academy of St. Martin in the Fields para o terceiro Concerto de Brandenburgo de Bach, a Serenata em dó para cordas de Tchaikovsky, sentimental na sua evocação mozartiana, e as Cuatro estaciones porteñas que Leonid Desyatnikov extraiu do original de Astor Piazzolla a pedido de Gidon Kremer. Strong stuff!

O som e a personalidade violinística de Bell tendem à tonicidade brilhante. Numa das poucas fugidas do Wigmore, eu tinha me maravilhado no Barbican Hall com um violinista que lidera a outra orquestra de câmara mais conhecida da Inglaterra: Julian Rachlin, craque em extrair do seu instrumento sons mais suavemente torneados, tocou à frente da English Chamber Orchestra, solando e regendo, um Concerto de Beethoven emocionante na pureza vibrante.
Outra fugida: na antiga igreja oitocentista de St John’s Smith Square, transformada em sala de concertos em 1969, o violinista canadense James Ehnes liderou um recital em torno do tema da Segunda Guerra: a energia feroz e sardônica de Shostakovich em seu Trio nº 2 antecedeu o visionarismo desesperado mas estranhamente aquietador do Quarteto para o fim do tempo de Olivier Messiaen.

A seu lado, Ehnes tinha cobras como Steven Osborn no piano, Alban Gerhardt no violoncelo e, na clarineta, Jean Johnson (Ms. Osborn). Mas foi dias depois, de volta ao Wigmore, que eu ouvi claramente por que o crítico e estudioso do violino Jean-Michel Molkhou declarou recentemente, a propósito de um CD de Ehnes (sua segunda gravação dos Caprichos de Paganini), que ele “se pôs fora do alcance do comum dos mortais” entre os demais violinistas. Com Ehnes, as Sonatas e Partitas de Bach são um exercício de concentração e entrega em que todos os recursos da polifonia (e da técnica do instrumento) se imbricam e desenlaçam como se brotassem, simplesmente.

Último e grande violinista, num dos recitais mais vibrantes: o ucraniano Vadim Gluzman, acompanhado de Yevgeny Sudbin no piano e Johannes Moser no violoncelo. De novo, os borbotões emocionais de Tchaikovsky, no monumental Trio com que ele homenageava o mestre falecido, Anton Rubinstein. Os três músicos dedicaram a récita ao barítono siberiano Dimitri Hvorostovsky, que veio de morrer prematuramente aos 55 anos. Bela surpresa do recital: o Trio composto em 1952 pelo armênio Arno Babadjanian, obra de tumultuado romantismo que Gluzman-Sudbin-Moser agora vão gravar, depois de percorrer quase uma dezena de cidades europeias com este programa.

A bolha-usina e seu público

Localizado numa zona privilegiada da capital inglesa, ao lado de Oxford Street, “o Wigmore” é o paraíso da música e do canto de câmara para milhares de apreciadores britânicos e do mundo inteiro, com sua história centenária, uma acústica privilegiada e a tradição de atrair para o seu palco os melhores dentre os melhores.

Ampla mas acolhedora, com seus 550 lugares, a sala foi construída em 1901 pelo fabricante alemão de pianos Bechstein, cuja representação no Reino Unido ficava ali na Wigmore Street, e que resolveu se dotar de um espaço ao lado para mostrar o produto nas mãos de grandes músicos. Na Primeira Guerra, o alemão teria seus bens confiscados, entre eles a sala de música, que foi rebatizada com o nome atual. Duas reformas modernizaram o espaço em 2004 (plateia e cena, restaurante, bar, espaços de circulação) e 2015 (camarins).

E grandes músicos não faltaram desde o início. Logo na inauguração, Ferruccio Busoni, Eugène Ysaÿe, Vladimir de Pachmann, entre outros. E nas décadas seguintes, grandes compositores (Ravel, Fauré, Saint-Saëns, Prokofiev, Scriabin, Poulenc, Hindemith, Britten…), gogós de ouro (Caruso, Melba), instrumentistas (Sarasate, Rubinstein), maestros (Beecham deu ali seu primeiro concerto)…

A partir daí, e até hoje, a lista dos que se apresentam no pequeno palco em forma de concha, com sua cúpula alegórica (a “divindade da música”), equivale a um who’s who da música clássica, década após década.

Uma história recente virou notícia. Uma cantora teve de anular sua apresentação e foi substituída a tempo por… uma das recepcionistas do Wigmore, estudante de canto. Celebridade instantânea. O cultivo do canto empostado para a lírica e a câmara é muito disseminado no país — de grande tradição coral, como se sabe. Num recital vespertino, assisti à apresentação de cinco cantores, dois pianistas e um ator em torno do tema das estações do ano: era o evento anual conhecido como Samling Showcase. Samling é uma organização sem fins lucrativos fundada no Noroeste da Inglaterra em 1996 para formar e lançar na carreira cantores e acompanhadores. O nível é altíssimo, alguns deles já atuam com grandes orquestras e teatros de ópera. Muitos voltam para ensinar e estimular.

Silêncio consensual

Pedido britânico: favor conter a tosse

E tem a mística do público. Em recente entrevista à BBC Music Magazine, a violinista alemã Isabelle Faust dizia, referindo-se ao Wigmore Hall: “Uma das mais prestigiosas pequenas joias para música de câmara no mundo. Naturalmente, pela importância histórica e a beleza, mas ainda mais que isso, é uma questão do público que lá se cultivou. A gente conta nos dedos de uma das mãos os lugares onde se encontra um público tão conhecedor, atento, caloroso, apaixonado e ávido. Talvez pareça normal para quem vive em Londres, mas eu toco no mundo inteiro, e posso garantir que não é.”

A primeira coisa que chama a atenção na bolha musical do Wigmore Hall é a qualidade do silêncio. A música “clássica”, essa arte refinada que vem da alma e abre para ela as portas da percepção e da sensibilidade, nasce no silêncio e a ele retorna. Não tem como ser diferente. Não se trata de confraternização, mas de introspecção. Se expansão há, é para mundos interiores — ou para o comentário e a partilha DEPOIS. Bom que seja assim.

Interessante notar, aliás, como às vezes o aplauso demora. Pode ser o caso em obras que o pedem, como as sombrias e reflexivas músicas “de guerra” tocadas pelo conjunto liderado por James Ehnes em St John’s Smith Square; mas também quando a viagem levou longe e a gente demora a “voltar” — como, de novo com Ehnes, nas Sonatas e Partitas de Bach, quando o aplauso, que hesitava em romper o encanto, foi alguma vez antecedido de um murmúrio de espanto.

Mas no Wigmore, com seu tamanho ideal entre o salão e o teatro, ninguém se sente tolhido nem constrangido. E ninguém pensa em gritar sua aprovação para ouvir a própria voz com a última nota e estragar tudo.

Na hora marcada (19h30 em geral, mas também de manhã e no início da tarde), a luminosidade diminui e, enquanto os últimos se acomodam, faz-se natural e tranquilamente silêncio quase instantâneo. Nessa aura de consenso prazeroso, os avisos necessários (desligar celulares, etc.) são feitos com projeção visual. Mas um deles gera “ruído”: “Favor conter a tosse na medida do possível.” Risos garantidos, tosse preventiva.

É também que muitos recitais são gravados para o selo Wigmore Live; os das segundas-feiras às 11h da manhã são transmitidos ao vivo pela rádio BBC3; daqui a pouco virão provavelmente as transmissões/gravações por streaming de áudio e vídeo. Dirigido por John Gilhooly (um cantor) desde 2005, o Wigmore Hall não é apenas uma bolha de paz musical para um público eminentemente encanecido: é uma usina de irradiação, com programas educativos e comunitários, encomendas numerosas de obras novas, um concurso anual de canto e um trienal de quartetos, programação de jazz e músicas do mundo…

*Clóvis Marques é jornalista, crítico de música clássica, escritor e tradutor