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Dupla de maestros: Eleazar de Carvalho e Roberto Tibiriçá. /Foto: acervo

| Vinte anos sem Eleazar de Carvalho

03/10/2016 - Por Roberto Tibiriçá, regente

"É preciso que não esqueçamos nunca a sua genialidade", escreve o maestro Tibiriçá, aluno e amigo do grande Eleazar. Dia 12 de setembro completaram-se 20 anos de morte do regente.

No último dia 12 de setembro, completaram-se 20 anos sem o grande maestro Eleazar de Carvalho. Eu considero que a música no Brasil tem marcos: antes e depois de Villa-Lobos e antes e depois de Eleazar de Carvalho.

Villa-Lobos teve como grande missão a juventude, a musicalização nas Escolas. Eleazar deu continuidade a essa missão, criando no Rio de Janeiro os Concertos para Juventude e os Concursos para Jovens Solistas, formando assim novas plateias que até hoje prestigiam nossos concertos.

Sua dedicação aos jovens foi tão grande que ele trouxe para o Brasil o Festival de Música nos moldes de Tanglewood, nos Estados Unidos, criando assim o Festival de Inverno de Campos do Jordão, que deu tantos frutos e incentivou a criação de muitos outros Festivais pelo País.

Grandes artistas passaram pelos Concursos para Jovens Solistas, como Nelson Freire, Arnaldo Cohen e Cristina Ortiz. Eu mesmo, juntamente com o maestro Fábio Mechetti, estivemos no palco com ele quando muito jovens.

No campo pessoal, convivi com Eleazar por mais de 18 anos. Ele era para mim um mestre, um amigo e um pai. Fiquei com ele durante aqueles anos todos na OSESP e sou testemunha do seu permanente comprometimento com os jovens e com a qualidade das orquestras. A OSESP sempre foi parâmetro para as demais instituições. Sua programação era rica e intensa, promovendo Ciclos Mahler, Beethoven, Mozart e Schubert, por exemplo.

Eleazar tinha um coração de ouro, estava sempre pronto a ajudar e a prestigiar seus músicos ou quem lhe pedisse ajuda. Nunca presenciei um ato seu de humilhação ou desrespeito a algum colega. Mesmo com seu temperamento particular, ele sempre tinha uma palavra de carinho e de orientação a quem o procurasse.

Muito fiel ao texto musical, suas anotações eram exemplares e didáticas. Sua idolatria por Sergei Koussevitzky fez dele uma pessoa fiel e dedicada. Essa foi mais uma lição que veio dele: a dedicação ao mestre e principalmente o cultivo da disciplina, que o conduziu por toda a vida.

Eleazar foi, sem dúvida nenhuma, o brasileiro que mais regeu no exterior, trabalhando com as mais importantes orquestras como Berlin Philharmonie, Vienna Philharmonie, London Philharmonic, Boston Symphony, Chicago Symphony e tantas outras pelo mundo.
Apesar das características pessoais muito marcantes, como bater com a mão esquerda no peito marcando as colcheias, ou por sua rigidez exemplar, na intimidade ele era, ao mesmo tempo, uma pessoa humilde e tímida.

Em minhas aulas, sempre digo que é preciso lembrar desse nome e procurar por vídeos nas redes sociais, para que não nos esqueçamos da sua genialidade. Viva Eleazar de Carvalho, viva a música brasileira, viva o artista brasileiro!.

Roberto Tibiriçá – regente, ocupante da cadeira 5 da Academia Brasileira de Música

  • Eleazar, Koussevitzky e Leonard Bernstein em Tanglewood

  • Roberto e Eleazar em New Haven

  • Em Campos do Jordão, 1980