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Imagem de acervo / Museu Villa-Lobos

| Villa-Lobos para o século XXI – por André Cardoso

05/03/2016

O presidente da Academia Brasileira de Música escreve, especialmente para o site, sobre a necessidade de reposicionamento do compositor na historiografia musical internacional.

 

 

            André Cardoso

A ideia de que Heitor Villa-Lobos é o mais importante compositor brasileiro de todos os tempos, em qualquer gênero, parece já estar consolidada. Há muito deixou de ser uma suposição para se tornar uma certeza, não só entre os músicos e no meio acadêmico, como também em boa parte do público. Tal certeza não é decorrente somente do estudo de sua obra gigantesca, mas também da repercussão que a mesma tem entre os intérpretes e os ouvintes, no Brasil e no exterior. Mas, sendo o compositor nacional de um país periférico, Villa-Lobos é, da mesma forma, perifericamente abordado na historiografia musical internacional. Precisamos reverter tal tendência e posicioná-lo no século XXI de acordo com a importância e qualidade de sua obra.

A inserção da obra de Villa-Lobos no circuito internacional da música clássica teve início já na segunda década do século XX, quando o próprio compositor apresentou suas obras em Paris. Grandes intérpretes europeus, como os pianistas Arthur Rubinstein (1887-1882) e Felicia Blumenthal (1908-1991) e o violonista Andrés Segóvia (1893-1987), difundiram sua obra através de recitais e gravações. O mesmo se deu com intérpretes brasileiros de carreira internacional, como Eleazar de Carvalho (1912-1996), Guiomar Novaes (1895-1979), Magda Tagliaferro (1893-1986), Vera Janacopulos e Bidu Sayão. Suas partituras foram editadas por algumas das maiores editores do mundo (Max Eschig, Ricordi, Schirmer e Peters) e gravadas por selos da importância da Phillips, Decca, EMI, RCA e Deutsche Grammophon. Nas últimas duas décadas de vida, Villa-Lobos conquistou o mercado americano, passando a dirigir suas obras com as grandes orquestras dos EUA e recebendo encomendas de inúmeros intérpretes, além de Hollywood (trilha do filme Green Mansions) e da Broadway (musical Magdalena). Estava consolidado, assim, o caminho para que sua obra ganhasse aceitação mundial.

Após a morte do compositor, em 1959, sua obra se manteve em evidência, especialmente através da ação de sua companheira, Arminda Villa-Lobos. Já em 1960 seria criado o Museu Villa-Lobos, que se tornaria o grande centro de referência sobre o compositor. Como diretora do museu por 24 anos, Mindinha, como era conhecida, promoveu a obra de Villa-Lobos através de concursos internacionais, da publicação de trabalhos monográficos e do Festival Villa-Lobos. Os concursos e festivais geraram muitas gravações, lançadas em LPs. Após a morte de Mindinha, em 1985, coube a Turíbio Santos, após breve período de Sônia Maria Strutt, dar continuidade ao trabalho de Mindinha. Com Turíbio o museu deixou o prédio do MEC, no centro do Rio de Janeiro, e se instalou em sede própria, na Rua Sorocaba, no bairro de Botafogo, onde foi possível desenvolver mais plenamente suas funções de preservar e difundir a obra do compositor.

Ao trabalho desenvolvido pelo Museu Villa-Lobos somou-se o da Academia Brasileira de Música (ABM), instituição fundada pelo próprio compositor em 1945. Herdeira de Villa-Lobos e detentora de seus direitos autorais, a ABM desenvolveu, a partir de 1993, uma série de projetos voltados para obra de seu patrono. Financiou gravações, promoveu a publicação de livros e de artigos em sua revista Brasiliana e organizou séries de concertos. Sob a coordenação de Manoel Correa do Lago e apoio da FUNARTE, promoveu uma nova edição crítica do Guia Prático, distribuído para escolas e educadores musicais de todo o país. Mas o mais importante projeto foi o de revisão e edição de várias partituras orquestrais do compositor, que são disponibilizadas por aluguel para orquestras de todo o mundo através do Banco de Partituras.

O que há então ainda a ser feito pela obra de Villa-Lobos? Muito, certamente.

A caudalosa produção do compositor, que abrange uma enorme variedade de gêneros e formações, faz com que muitas de suas obras não sejam executadas com a frequência que fariam por merecer. O sucesso absoluto é sua produção para violão. Poucos compositores do século XX, e não falo só dos brasileiros, deixaram uma obra tão fundamental para o instrumento quanto Villa-Lobos. Basta verificarmos o número de gravações existentes para os Estudos, os Prelúdios, a Suíte Popular Brasileira, o Choros no1 e o Concerto para violão para entendermos plenamente a importância de tais obras.

No repertório orquestral, a preferência recai sobre algumas partituras das séries de Bachianas Brasileiras e Choros. Há, no entanto, um verdadeiro manancial de obras que pode renovar o interesse pela obra de Villa-Lobos em todo o mundo.

O problema da execução menos frequente de algumas de suas partituras decorria principalmente das edições precárias. Mesmo a editora que concentra a maior quantidade de obras de Villa-Lobos, mantém em seu catálogo materiais de orquestra para aluguel ainda em cópias manuscritas, condição hoje praticamente inaceitável para a maioria das orquestras profissionais. A falta de investimento por parte da Max Eschig em novas edições, fez com que partituras como as de Madona, Alvorada na Floresta Tropical, a cantata profana Mandu-Çarará, o Concerto para Harpa ou a ópera Yerma fossem mantidas por décadas na forma de cópias manuscritas. Ao problema das edições soma-se a dificuldade do grande efetivo envolvido, às vezes com instrumentos pouco usuais e típicos brasileiros, que dificultam a programação por parte de muitas orquestras.

Projetando o futuro da obra de Villa-Lobos a Academia Brasileira de Música se propõe a trabalhar com algumas diretrizes. O catálogo de obras do compositor, por exemplo, precisa ser revisto e atualizado com urgência. A extensa bibliografia em português precisa ser traduzida para diferentes línguas, viabilizando o acesso de músicos e pesquisadores estrangeiros. Há também obras fundamentais de autores como Eero Tarasti, Gerad Béhague e Anais Fléchet que ainda não foram traduzidas para o português.

Em parceria com a editora Max Eschig, a ABM está lançando novas edições revistas pelos maestros Roberto Duarte, Henrique Morelenbaum, Lutero Rodrigues e Ricardo Tacuchian de obras como a Bachianas Brasileiras no9, o Concerto para violão e os Choros 6, 7 e 10. Aquelas anteriormente mencionadas, que eram alugadas pela editora francesa em cópias manuscritas, ganharam sua primeira edição. Finalizamos também, com revisão de Manoel Correa do Lago e Régis Duprat, a primeira edição de obras para canto e orquestra que estavam ainda em manuscritos, como os Epigramas Irônicos e Sentimentais, as Historietas e as Miniaturas. Novas edições de Uirapuru, com revisão do maestro Tobias Volkmann, e da versão orquestral da Bachianas Brasileiras no4, com minha revisão e de Manoel Corrêa do Lago, foram lançadas em 2016. Iniciamos ainda uma nova edição para a Bachianas Brasileiras no3.

As novas edições da Bachianas Brasileiras no9 e da Alvorada na Floresta Tropical ganharão em 2017 versões especiais impressas das partituras, que serão enviadas gratuitamente a orquestras latino-americanas, na Europa e Estados Unidos para incentivar a execução de obras de Villa-Lobos no exterior.

Também em 2017, a ABM se associará ao Theatro Municipal e as orquestras Petrobras Sinfônica, Sinfônica Nacional da UFF, Sinfônica da UFRJ e Sinfônica Cesgranrio, na organização da Série Villa-Lobos 130 anos, com concertos ao longo do ano que mostrarão um panorama da obra sinfônica do compositor. Serão apresentadas obras como as Bachianas Brasileiras nos2, 3, 4 e 7, os Choros 6, 9 e 10, a Introdução aos Choros, o Momoprecoce, Mandu-Çarará e a Sinfonia no10, por alguns dos mais importantes intérpretes brasileiros, como Nelson Freire, Sônia Rubinsky, Fábio Zanon, Isaac Karabtchevsky, Roberto Tibiriçá e Tobias Volkmann. Teremos Villa-Lobos também nos concertos comemorativos aos 72 anos de fundação da ABM, que ocorrerão na Sala Cecília Meireles entre 10 e 14 de julho, com repertório sinfônico e de câmara, incluindo outros compositores brasileiros, que fazem parte dos quadros da ABM. Assim como em anos anteriores, os concertos serão gravados e disponibilizados gratuitamente na web.

São iniciativas que, acreditamos, poderão internacionalizar de forma ainda mais positiva a obra de Villa-Lobos, de modo a projetá-la no século XXI como uma das mais originais criações da diversificada produção musical da primeira metade do século XX.

 

André Cardoso –  Presidente da Academia Brasileira de Música