|

Bidú Sayão nos Arquivos da Met Opera House. No centro, os quadrinhos dos anos 1940; à esquerda, em seu papel de estreia no Met, Manon, 1937. À direita, como Melisande /1944

| Precioso baú de memória da Met Opera House/NY à mão e grátis

12/11/2016 - Por Luciana Medeiros

O fantástico arquivo é gratuito e um espanto: qualquer apreciador do gênero vai se perder, maravilhado, nos dados, fotos, críticas e muito mais, remontando a 1883. Uma das estrelas: nossa Bidú Sayão.

 

Digamos que você seja um chocólatra. E se vê, de repente, solto nos domínios de Willy Wonka. É mais ou menos assim que o fã de ópera se sente ao abrir o site dos Arquivos da Metropolitan Opera House: há um tesouro de informação na ponta dos dedos, de acesso gratuito, que remonta a 1883, quando a casa nova-iorquina foi inaugurada na Rua 39, em Manhattan.

– Na base de dados estão rigorosamente todas as performances desde 1883, ano em que o Met foi inaugurado – revela o diretor dos Arquivos, Peter Clark. – Ali estão os casts completos, informações sobre eventos especiais ligados a determinada montagem, assim como acontecimentos únicos, como galas e homenagens.  Também se encontram críticas e fotos de várias performances históricas, além de estatísticas.

Para os brasileiros, uma curiosidade óbvia: como está Bidu Sayão nesse baú e quantas vezes ela aparece? Resposta rápida: são 236 entradas, com direito a álbum de fotografias, onde se veem imagens de cena, de bastidores e até uma incrível história em quadrinhos [veja abaixo], além de críticas e reportagens. Tudo é de acesso livre e gratuito.

É preciso pagar, no entanto, para acessar as gravações (em áudio e em vídeo, quando é o caso) através do sistema Met On Demand – custa entre  US$ 4 e 5  cada “locação”; é possível estabelecer uma assinatura de acesso ilimitado que custa cerca de  US$ 15  por mês. No caso de Bidú, há várias gravações de suas performances, como as de Rigoletto, em 1945, e La Bohème, de 1951.

– Através do Met On Demand, pode-se assistir aos vídeos das transmissões para a TV ou em HD. Dos mais antigos, estão ali o registro das transmissões pelo rádio – lista Clark. – Atualmente, temos 99 vídeos em HD e 76 em definição standard. A primeira gravação radiofônica foi uma Traviata com Rosa Ponselle, em 1935, e a primeira de TV, La Bohème, com Luciano Pavarotti e Renata Scotto, em 1977.

As transmissões radiofônicas – que também precisam ser acessadas pelo sistema pago – são bem mais numerosas: 424 broadcasts. São preciosidades. Através do sistema de busca por palavra, é possível mergulhar no passado glorioso que parecia fora de alcance. Pelo menos, reunido num só lugar virtual.

Procure Maria Callas (49 entradas, gravação de Norma na abertura da temporada de 1957); sua arquirrival Renata Tebaldi tem 249 entradas no arquivo, com gravações disponíveis da Tosca, da Bohème, da Traviata, de Gioconda e Manon Lescaut. Vasculhe. Ezio Pinza, Elisabeth Schwarzkopf, Enrico Caruso (mais de mil itens), estão todos lá. Herbert von Karajan estreou em 1967 no Met, regendo uma produção de Valquíria que tinha no elenco Birgit Nilsson, Jon Vickers, Gundula Janowitz (estreando na casa) e Christa Ludwig. E mais, muito mais.

– Os mais lendários de todos estão aí – lista o diretor. –Temos registro de incríveis performances ao vivo, únicas. Eu adoro navegar no Arquivo e ouvir quando estou em  casa.

Peter Clark, diretor dos Arquivos da Met Opera House NY

      Peter Clark, diretor dos Arquivos 

Clark ocupa há um ano a direção dos arquivos. Ex-assessor de imprensa do Met, começou sua vida profissional no Marketing da casa em 1981, depois de estudar canto. Com o falecimento de Robert Tuggle, aos 83, depois de chefiar os arquivos por três décadas e meia, assumiu a chefia. Foi Tuggle quem iniciou o projeto de digitalização em 2002. Em 2005, a base de dados entrou no ar e, desde então, são feitas constantes adições e atualizações. O arquivo continua crescendo.

– E nós adicionamos em média duas novas gravações em áudio e uma em vídeo por mês. Também estamos constantemente redigitando programas e críticas, recebendo fotos e incluindo novos dados, atualizando estatísticas que são muito precisas. Acredito que a nossa seja a mais completa coleção de dados disponível entre as companhias de ópera do mundo.

As consultas presenciais aos arquivos, onde ficam os documentos e fotos armazenados, acontecem, mas em caráter de exceção.

– Temos uma pequena equipe, que cuida das atualizações e atende, em caráter excepcional, a pesquisadores e jornalistas que nos procuram e marcam visita.

Entre as delícias encontradas no baú da Met Opera House está a história  em quadrinhos criada nos anos 1940 em torno da trajetória da brasileira Bidú. O arquivo traz os desenhos, mas não existe ainda confirmação de autoria – pesquisas em curso.

– Esse comic book é absolutamente delicioso – encanta-se Clark, ainda em fase de descoberta dos próprios tesouros. – Espero que muitos brasileiros se animem a pesquisar nos nossos arquivos, porque são diversão, história, arte, costumes de mais de 130 anos resumidos na ópera. E, vamos confessar: você nunca pode ter boa ópera em excesso na sua vida.

≈≈

Para navegar pelos Arquivos: entre no site da Metropolitan Opera

Clique no menu à esquerda em “Discover”, siga para “Archives” e finalmente “Database”.

Um atalho direto para a busca aqui.

As imagens de Bidú Sayão aqui.

 

  • Comic book dos anos 1940 / sem autor

  • Comic book dos anos 1940 / sem autor

  • Comic book dos anos 1940 / sem autor

  • Enrico Caruso com 'Cavaradossi' da Tosca, 1903 / Foto Aimé Dupont

  • Bidú e Di Stefano, 1949/ ensaios para uma Traviata que não foi montada

  • Renata Tebaldi na 'Tosca', 1955-56 / Foto: Sedge Le Blanc

  • Joan Shuterland como Olympia dos Contos de Hoffmann, 1973

  • Placido Domingo como 'Otello", 1979 / Fotos: James Heffenan