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Elenco do Circuito Musica Brasilis 2017 / Foto: Barbara Lopes

| Um boi brasileiro no telhado francês – Musica Brasilis homenageia Darius Milhaud 

08/08/2017 - por Rosana Lanzelotte, idealizadora do Instituto Musica Brasilis

A cravista carioca, à frente do Instituto Musica Brasilis, escreve artigo sobre o compositor francês apaixonado pelo Brasil, cuja chegada ao Rio completa 100 anos e é tema dos concertos 2017

 

A história começa no Carnaval de 1918, quando um tal de José Monteiro lançou o “O boi no telhado”, sucesso que não deixaria o compositor francês Darius Milhaud indiferente.

Milhaud havia chegado ao Brasil um ano antes, em missão diplomática, como secretário de Paul Claudel. Encantados estavam com as palmeiras imperiais da Rua Paissandu, com as noites nos salões musicais da capital da jovem república, com a ginga dos ritmos populares. O jovem Darius saiu comprando partituras– havia lojas de partituras –,todos os “tangos, maxixes, sambas e cateretês”que conseguiu. Tocava, tocava, mas faltava algo … o molho, o “petit rien” (pequeno nada), que dava graça àquela música.

Foi ouvir Ernesto Nazareth tocar na sala de espera do cinema Odeon, e percebeu que se tratava de um dos melhores. Encantou-se também com “Marcelo Tupinambá”, o engenheiro Fernando Lobo, que adotou o pseudônimo para disfarçar a condição de músico popular. Milhaud achava que os compositores clássicos deveriam beber naquela fonte, da música autenticamente brasileira, diferente de tudo o que tinha ouvido.

Depois de quase dois anos, volta a Paris com as malas cheias de música de Nazareth e Tupinambá, mas também de Chiquinha Gonzaga, Alberto Nepomuceno, Alexandre Levy, Álvaro Sandim e muitos outros.

“Estava feliz por retornar … mas minha alegria estava mesclada de nostalgia: eu amava profundamente o Brasil.”

Passou por um período árido de inspiração, chegou a conjecturar que teria deixado a sua verve no Brasil. Os “tangos, maxixes, sambas e cateretês” o reacenderam para a música e ele escreve em 1919 “Le Boeuf sur le toit”. Com roteiro de Jean Cocteau e cenários de Raoul Dufy, a peça estreia com sucesso estrondoso na Comédie des Champs Elysées. As brincadeiras dos palhaços Fratelini embaladas por ritmos brasileiros vinham bem a calhar no pós-guerra europeu. A peça de Milhaud nada mais é do que uma inspirada costura de 24 peças brasileiras que levou na bagagem, entre as quais “O boi no telhado”.

Milhaud e seus colegas compositores do grupo dos seis passaram a se encontrar para tocar as peças brasileiras no Bar Gaya, cujo dono, animado com o crescente sucesso das noites de sábado, fundou o restaurante “Le Boeuf sur le toit”, que existe até hoje em Paris. O local tornou-se o point de músicos e escritores e originou a expressão “faireleboeuf”, que significa dar uma canja, tocar de improviso.

O sucesso se estendeu a Londres, sem que os brasileiros que inspiraram Milhaud fossem citados. Este passou um mal momento quando se descobriu o “plágio”, mas a época era de direitos autorais fluidos, que trocavam de mão por dez tostões. O quebra-cabeças se imiscuiu na mente dos musicólogos, desejosos de desvendar a identidade das 24 peças brasileiras. Algumas eram óbvias, como o “O boi no telhado” que, sem querer, emprestou o título à obra de Milhaud. Em sua obra dedicada ao assunto, o brilhante musicólogo Manoel Aranha Correa do Lago revela, com a colaboração de Aloysio de Alencar Pinto, a autoria de 20 das 24 peças citadas. Devem ter se divertido brincando de esconde-esconde com Milhaud, tal como os palhaços Fratelini na estreia em Paris.

 

O espetáculo ‘O boi no telhado’ abre o VIII Circuito Musica Brasilis na Sala Cecília Meireles, dia 11 de agosto, às 20h. Idealizado e dirigido pela cravista e pesquisadora Rosana Lanzelotte, o espetáculo homenageia os 100 anos da chegada ao Brasil do compositor francês Darius Milhaud (1892 – 1974), autor de “Le boeuf  sur le toit”, obra inspirada nas músicas populares que ele ouviu durante a permanência no Rio.

O programa conta com obras de Milhaud e dos compositores Ernesto Nazareth, Marcelo Tupinambá, Álvaro Sandim, Chiquinha Gonzaga – e será interpretado por músicos do grupo Caldereta Carioca com a participação Rosana Lanzelotte (pianoforte). Para reviver o compositor francês, estará em cena o ator Antonio Calloni.

A turnê nacional  contará com 20 apresentações, passando pelo Rio de Janeiro, Petrópolis (RJ), Aracaju (SE), Brasília (DF), Manaus (AM), Porto Alegre (RS) e Recife (PE).

Programação completa do Circuito aqui.