|

Cia Bachiana Brasileira no Municipal do Rio / Divulgação

| Trinta anos da Companhia Bachiana Brasileira

07/01/2016 - Por José Schiller

"O nome que o maestro Ricardo Rocha escolheu para o conjunto que fundou e dirige resgata a conexão já expressa por Villa-Lobos entre Bach e a música brasileira".

 

Uma das comemorações que marcaram o ano de 2016 na vida musical do Rio de Janeiro foi o concerto de 30 anos da Cia. Bachiana Brasileira.

É consenso para o meio musical que “Johann Sebastian Bach é a fonte (fazendo referência óbvia ao seu sobrenome) de toda a música ocidental”. O nome que o maestro Ricardo Rocha escolheu para o conjunto que fundou e dirige resgata a conexão já expressa por Villa-Lobos entre Bach e a música brasileira. Nosso maior compositor do século 20 se inspirou no mestre alemão para criar as nove Bachianas Brasileiras, uma de suas séries mais populares.

O maestro Ricardo Rocha, aprofundando esta compreensão, estabelece um paralelo entre o processo que fermentava na Alemanha no século 18, a construção de uma identidade cultural em andamento, com o que estamos vivendo no Brasil atual. Não no sentido de que sejamos iguais, mas de que estamos igualmente nos afirmando no cenário contemporâneo, um fenômeno análogo ao alemão do século 18, e temos um ambiente de criação cultural altamente produtivo e original.

Com esta convicção, a Cia. Bachiana Brasileira, ao longo dos trinta anos festejados em 2016, realizou projetos a partir da obra de Johann Sebastian Bach e do compromisso com a divulgação da Música Brasileira de Concerto, para a qual Ricardo Rocha cunhou exatamente a sigla MBC. Sua proposta se baseia essencialmente no repertório sinfônico-coral, e este binômio tem se desdobrado em projetos que mantém a referência original: Bach – Brasil, Bach – Américas, sempre aberto a novas peças e ao diálogo com compositores brasileiros.

Graças a esta persistência e qualidade surgiram também registros em CD, DVD e programas de televisão que enriquecem o acesso ao acervo musical brasileiro, bachiano, e de grandes obras universais. O Coro da Cia. Bachiana Brasileira, embrião e motivo maior de sua criação, sustenta a consistência do projeto que norteia o repertório e a própria existência da Sociedade Musical Bachiana Brasileira.

O concerto no Theatro Municipal que comemorou as três décadas de atividades reafirmou este compromisso em grande estilo. Abriu com o Concerto de Brandemburgo nº 5, BSV 1050 para flauta, violino, cravo e cordas, tendo como solistas respectivamente Marcelo Bomfim, Ricardo Amado e Elisa Wiermann. Em seguida, Sortilégios, do compositor e professor da UNIRIO Marcos Lucas, um verdadeiro concerto para violoncelo e orquestra, estreada na Bienal de Música Brasileira Contemporânea, com a participação especial da violoncelista alemã Regine Daniels-Stoll como solista convidada (que ainda ofereceu como bis o Prelúdio da Suite nº 1 BWV 1007, para violoncelo solo). A homenagem de Villa-Lobos ao mestre alemão se fez presente nas Bachianas Brasileiras nº 9, e o conjunto sinfônico-coral encerrou o concerto com a Cantata BWV 4 – Christ lag in Todesbanden.

Sabemos que não é simples manter uma companhia e um projeto independente no cenário em que vivemos. Não tenho certeza se (e quantas) alguma companhia musical de concerto se manteve viva por 30 anos no Brasil sem qualquer apoio institucional que a sustente. Com certeza a permanência da Cia. Bachiana Brasileira e o seu compromisso com a qualidade merecem todas as comemorações e os votos para que 2017 seja o início de mais uma etapa de realizações e consolidação de seu conjunto de coro e orquestra.

José Schiller, músico, produziu, roteirizou e dirigiu séries musicais por 35 anos na TVE/TVBrasil, os últimos A Grande Música e Partituras. Produtor de séries radiofônicas na MEC-FM, e atualmente do programa “Américas em Concerto” na Roquette-Pinto, 94,1MHz. Pesquisador da música de concerto latino-americana. Desenvolve projetos musicais e de vídeo independentes com conjuntos e solistas, como o ABSTRAI ensemble, Cia. Bachiana Brasileira e outros.