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Tim e Maria Teresa / Foto: Alex Krusemark

| “Homenagem antecipada” – Tim Rescala é celebrado na UNIRIO, em iniciativa de Maria Teresa Madeira, dia 18/9

12/09/2017 - Por Tim Rescala*

O multiartista ganha festa nos 50 anos do Instituto Villa-Lobos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, a UNIRIO, onde estudou.

 

 

Ser homenageado aos 55 anos, em vias de completar 56, me soa um pouco estranho. Sempre entendi uma homenagem como algo que celebre um trabalho realizado ao longo de muitos anos e que mereça algum reconhecimento. Como acho que ainda tenho muito a fazer e por merecer, vou considerar esta homenagem como um adiantamento a ser pago mais adiante.

Porém, também a recebo com naturalidade pelo fato de ser um concerto na UniRio, onde estudei de 1980 a 1983 e por ter sido um movimento que partiu de minha querida amiga Maria Teresa Madeira, para quem já escrevi, e ainda escreverei, muita música.

Estes quatro primeiros anos da década de 1980 foram particularmente importantes para mim. Foi uma avalanche de acontecimentos. Tudo se deu ao mesmo tempo e numa velocidade que não me deixava parar para pensar e escolher o caminho certo a trilhar. Eram muitas as opções. Na dúvida, optei por todas.

Ao completar 18 anos, ansioso por entrar na faculdade para estudar música, cortei um dobrado para me livrar do serviço militar. O oficial que supostamente me liberaria do(a) fardo(a), tentou de toda forma me convencer de que, mesmo tocando piano, poderia começar na banda do exército tocando caixa para depois passar para o piano! Custei, mas consegui convencê-lo do contrário, para o bem do exército brasileiro.

Como Hans-Joachim Koellreutter, com quem eu queria estudar, não estava ensinando composição em nenhuma universidade, decidi estudar com ele particularmente. Por isso, justamente no período em que cursei a UniRio, estudei composição com o mestre, embora já tivesse feito cursos livres de contra-ponto e arranjo com ele na Escola de Música Villa-Lobos.

Aliás, nesta escola tive a oportunidade de aprender com professores que ali também ensinavam: José Maria Neves, Vania Dantas Leite e Carol Gubernikoff. Mas outras coisas aconteceram nestes quatro anos concentrados. A mais marcante foi o teatro.

Aquilo que parecia inicialmente uma saída financeira para um jovem que pretendia viver de música, acabou sendo  uma nova paixão. O teatro me desafiou a fazer coisas que nunca tinha feito antes, sobretudo considerando que meu objetivo principal na época era ser um compositor ” sério”: escrever canções (letra e música), cantar,  atuar e até fazer graça.

Em meio a tantos estímulos diferentes e diante de tantos desafios profissionais, resolvi enfrentar tudo. O resultado foi uma certa esquizofrenia inicial, mas que rapidamente se dissipou. Compreensível, pois mesmo o público ficava um pouco perdido, não entendendo muito bem o que o autor de uma música apresentada numa bienal de música contemporânea na Sala Cecília Meireles estava fazendo numa casa noturna, vestido de mulher, cantando Cucurucu, Paloma.

Mas o fato é que a experiência do teatro me mostrou um novo mundo –  pois ao entrar em cena um músico está, mesmo que não queira, assumindo uma postura cênica. Essa experiência acabou por influenciar o que eu fazia como compositor ” sério”, me levando a absorver elementos do teatro em minhas obras de concerto.

Após algumas experiências iniciais, considerando, inclusive, a minha vivência com a música eletroacústica, passei a construir um certo estilo, onde o texto está sempre presente e divide o protagonismo com a música, ou melhor, une-se a ela para gerar uma terceira coisa, o teatro musical ou música cênica. Passei a considerar o músico também como ator, ou seja, como alguém que toca, mas que também pode falar e se movimentar de forma estruturada, em prol de uma mesma linguagem onde a música é o eixo principal.

Dediquei, então, ao que se convencionou chamar de teatro musical uma boa parcela do que escrevi no âmbito da música de concerto. Evidentemente, nem todos os intérprete estão disponíveis para o desafio de atuar. São intérpretes especiais, que além de serem ótimos músicos, precisam se lançar na nova aventura do teatro. Falar e tocar ao mesmo tempo, movimentar-se cenicamente, enfim, uma enorme gama de novidades que exigem dos intérpretes muito mais do que é exigido deles em seus aprendizados usuais.

Outro motivo a justificar e dar ainda mais sentido a este concerto é o fato da UniRio ter também um curso de teatro. Obviamente, a convivência com atores e diretores nestes quatro anos emblemáticos para mim, e que estavam no prédio ao lado, também foi um elemento importante na minha formação.

Enfim, se mereço esta homenagem antecipada, me antecipo também no agradecimento a estes intérpretes brilhantes, que ao longo de tantos anos me deram o privilégio de escrever para eles. E homenageio também o Instituto Villa-Lobos em seus 50 anos, que me deu e ainda me dá espaço e condições para criar.

*Tim Rescala é compositor, pianista, ator, diretor e muito mais. 

O concerto em sua homenagem será realizado na segunda-feira, dia 18 de setembro, às 20 horas, com entrada franca, no Instituto Villa Lobos, Avenida Pasteur, 436 fundos. Para este concerto foram convidados os músicos que participaram de suas estreias cênicas.

PROGRAMA

CANTOS ,  (1994) / QUANDO CHIQUINHA GONZAGA TOCOU COM JOHN COLTRANE PENSANDO QUE FOSSE PIXINGUINHAESTUDO PRA PIANO (1989) / A BASE (1989) / DOIS (1992) / NA CADÊNCIA DO SILÊNCIO (2004) / MÚSICA VOCAL COM TEXTO CONCRETISTA DE POETA BRASILEIRO (DA SUÍTE CLICHÉ MUSIC) /DODECAFUNK (2015)

 O ELENCO

Ana Leticia Barros, percussão;  Andrea Ernst Dias, flauta; Aloysio Fagerlande, fagote; Carol McDavitt, soprano / David Ganc, flauta / Doriana Mendes, soprano / Eladio Perez Gonzales, barítono / Maria Teresa Madeira, piano / Oscar Bolão, bateria / Rodolfo Cardoso, percussão / Ronaldo Diamante, contrabaixo /Tim Rescala, voz, teclados e composições

Site: www.timrescala.com.br / Loja Virtual: www.pianissimo.com.br

Cercando o compositor: Ana Letícia Barros, Doriana Mendes, David Ganc, Rodolfo Cardoso, Ronaldo Diamante, Andrea Ernest Dias, Aloysio Fagerlande, Maria Teresa Madeira e Eládio Perez-Gonzales.