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Savio Sperandio, Fernando Portari, Denise de Freitas e Eiko Senda / Fotos: Paulo Lacerda

| Temporada mineira traz ousada produção de Norma, de Bellini

20/04/2017 - Por Barbosa Chaves

Eiko Senda e Fernando Portari dividem o palco do Palácio das Artes na montagem do argentino Pablo Maritano para essa obra prima do bel canto. A regência é de Silvio Viegas. também no elenco, Denise de Freitas e Sávio Sperandio.

 

O Palácio das Artes de Belo Horizonte apresenta a partir desta quinta-feira, 21, montagem inédita da ópera Norma, obra prima do bel canto composta pelo italiano Vincenzo Bellini em 1831 para o La Scala de Milão e considerada uma das mais difíceis do repertório para soprano. A direção e a arrojada concepção cênica são do argentino Pablo Maritano e para o papel-título foi escalada a soprano japonesa radicada no Uruguai, Eiko Senda, consagrada em Madama Butterfly, papel que já cantou quase cem vezes, a maioria em palcos brasileiros.

Norma foi composta em poucos meses e sob medida para a voz Giuditta Pasta, lendária soprano italiana da primeira metade do século XIX. Apesar da estreia decepcionante, depois de mais de trinta apresentações na ópera milanesa, a obra de Bellini – já consagrado com La Sonnambula –  conquistou a Europa. Mas os desafios vocais do papel-título e a substituição do bel canto por outros estilos operísticos contribuíram para que a peça praticamente desaparecesse da programação dos principais teatros.

No século XX, cantoras como Maria Callas, Joan Sutherland e Monserrat Caballé trouxeram de volta aos palcos o drama da sacerdotisa druida dividida entre o amor pelo invasor romano e o dever de tentar impedir a aniquilação de seu povo. A ária Casta Diva, ponto alto do primeiro ato,  tornou-se uma das mais conhecidas do repertório lírico e foi imortalizada na interpretação imbatível de Callas.

Eiko Senda e Denise de Freitas

– Eu tenho todas as gravações, mas não escutei nenhuma desde que fui escalada para o papel para não sofrer interferências – diz Eiko Senda, que só fez Norma em concerto,  uma única vez,  há mais de 20 anos.

A soprano reconhece as dificuldades vocais do papel, mas se diz pronta para o desafio, apesar de poucas vezes ter sido escalada para papeis belcantistas. Como parte de sua formação foi na Alemanha,  Senda adquiriu, naturalmente, familiaridade com o repertório wagneriano, que canta regularmente desde 2005.

Isolda, por exemplo, sacrifica mais a soprano, que canta durante quase seis horas. Já em Norma, a dificuldade maior é psicológica porque Bellini exige que a voz mude com cada sentimento – acrescenta a soprano que, nos ensaios, demonstrou domínio do palco, técnica vocal apurada e forte carga dramática.

Bel canto

Sávio Esperandio e Fernando Portari

O tenor Fernando Portari, que contracena com Senda no papel do pró-cônsul romano Pollione, lembra que o bel canto, tradição vocal e técnica que exige grande virtuosismo do intérprete,  serve de matéria prima para todas as correntes operísticas posteriores, como o verismo e o wagnerianismo.

– O canto belliniano exige uma formalidade muito grande e, ao mesmo tempo, é preciso coragem para mergulhar  no personagem como se o solista estivesse recebendo um chamado – define Portari.

Coragem não falta ao elenco de Norma, uma das duas produções deste ano do Palácio das Artes – a próxima, no segundo semestre, é Porgy and Bess, de Gershwin –, além de uma versão em concerto de Pagliacci, de Leoncavallo. Com uma mise-en-scène ousada, a produção mineira explora os limites da fantasia – nos cenários, figurinos e luz – para contar a história de amor e traição que há quase dois séculos encanta plateias do mundo todo.

Druidas

Norma é alta sacerdotisa e líder política de uma comunidade druida em conflito com os romanos, o que não a impede de se apaixonar pelo general invasor, Pollione, com quem tem dois filhos. Norma não sabe, mas  Pollione está apaixonado por outra sacerdotisa, Adalgisa. Quando descobre a traição, Norma pensa em se vingar matando os filhos. Em vez disso, exige que o general retorne a Roma levando Adalgisa e as crianças. Mas os planos da sacerdotisa são atropelados pela crescente tensão entre druidas e romanos. Atormentada por ter traído seu povo, Norma se mata juntamente com Pollione.

Ainda que fiel ao libreto de Felice Romani, o premiado diretor portenho Pablo Maritano optou por transferir a história originalmente ambientada no remoto tempo dos druidas  para um distante futuro marcado pela devastação. Os cenários sombrios criados por Jô Vasconcelos e Miriam Menezes reforçam a condição extrema em que vive o povo druida.

– A premissa no mundo dos druidas é, sem dúvida, a fantasia e não importa se acontece no passado ou no futuro. Em vez de nos apegarmos a um passado fantasioso, optamos por um tempo futuro no qual Norma poderia, perfeitamente,  acontecer – explica Maritano.

Atenção ao drama

A colaboração com o jovem diretor é um dos pontos fortes da montagem do Palácio das Artes, segundo Silvio Viegas, que rege a Sinfônica de Minas Gerais. O maestro ressalta que Norma tem uma linha melódica rebuscada na qual orquestra e coro desempenham papeis importantes. E lembra que a obra exige que todos estejam sempre atentos ao drama.

– Quando se tem um diretor de cena competente que trabalha sempre ao lado de quem está regendo, fica tudo mais prazeroso.

A montagem mineira traz ainda a mezzo-soprano Denise de Freitas como Adalgisa, que encara com brilho o dueto Mira, o Norma , com Eiko Senda no segundo ato. E o baixo Sávio Sperandio no papel de Oroveso, chefe dos druidas responsável por dois solos arrebatadores. Completam o elenco Aline Lobão, como Clotilde, e Lucas Ellera, encarnando Flavio.

As récitas de Norma acontecem nos dias 21, 25, 27 e 29 de abril, às 20h, e no dia 23, às 19h, no Grande Auditório do Palácio das Artes, em Belo Horizonte.