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Violeta Parra

| Suites latino-americanas e o centenário de Violeta Parra

25/01/2017 - Por José Schiller

No programa Américas em Concerto de domingo (29) na Roquette-Pinto, o músico e apresentador fala das suites do continente e lembra também Violeta Parra, violonista e compositora que se tornou símbolo da luta pela liberdade.

 

A forma suite surgiu como um ordenamento das danças renascentistas e barrocas. Seguindo este princípio, herdamos um acervo riquíssimo de suites, sequencias de danças, criadas pelos compositores mais expressivos da história da música, com algumas variantes de acordo com cada cultura, país, região. Na Alemanha, era um encadeamento de danças. Na França se acrescentou um Prelúdio à guisa de abertura da série, procedimento que foi adotado em outros lugares, e serviu de padrão para J. S. Bach em suas Suites inglesas, Suites francesas, e Partitas para cravo solo, além das suites orquestrais.

Este modelo de encadear danças, ritmos característicos em sequência se consagrou na história da música, e compositores de todas as épocas o seguiram e adotam até hoje pelo potencial expressivo.

No Américas em Concerto deste domingo, 29 de janeiro, teremos alguns exemplos de suites latino-americanas atuais. Cada uma segue a concepção particular do compositor.

Abrindo o programa, uma homenagem a Robert de Visée, que foi um dos mestres franceses do século XVII. Grande compositor, tocava vários outros instrumentos. A compositora venezuelana Adina Izarra parte de dois movimentos de uma das suites para teorba (ou tiorba), que era um instrumento semelhante ao alaúde, mas como dois braços ou conjuntos de cravelhas e um número correspondente de cordas, e acrescenta sons eletroacústicos para homenagear um compositor que é referência da forma suite e da música do século XVII. A interpretação dos Dos movimientos de la Suite de Visée (Prelúdio / Allemande) é do tiorbista Rubén Riera em diálogo com os sons eletroacústicos de Adina Izarra.

Heitor Villa-Lobos já lança mão de formas e ritmos característicos de sua época  em sua Suite Floral, composta em 1918. É a primeira fase criativa, com forte influência francesa, traços de Debussy e Fauré, mas também insinua uma tendência de sua segunda fase, ligada à cultura e ritmos brasileiros. A peça tem três movimentos com títulos que tangenciam este movimento: Idylio na rede / Uma camponesa cantadeira / Alegria na horta. A gravação é da pianista chilena Ximena Cabello, que é responsável por um importante trabalho de pesquisa rapa nui, na Ilha de Páscoa.

A Suite Pan Comido explora a combinação de um instrumento “clássico”, o piano, com recursos de processamento eletroacústico. O compositor equatoriano Arturo Rodas fez uma suite curta, de dois movimentos não nomeados, com um tipo de humor e sentido rítmico baseado na repetição de módulos ligeiramente alterados, com algum sentido de monotonia ou peso do que já se passou e precisa ser digerido, separados por pausas que criam um clima de expectativa e valorizam cada movimento e repetição. O piano da gravação é de Francis Yang.

Américas em Concerto traz mais uma homenagem especial neste programa dedicado à suite. Este ano, 2017, marca o centenário de nascimento e cinquenta anos da morte de Violeta Parra, uma das principais vozes da expressão chilena e de identidade latino-americana do século 20. Suas canções fizeram sucesso em todo o mundo, se tornaram verdadeiros hinos populares e irmanaram a todos nós em tempos de ditadura no continente. Gracias a la vida, Volver a los 17 e tantas outras, serviram de resistência e afirmação de esperança para toda uma geração. O compositor chileno Santiago Vera-Rivera, que tem ligação pessoal com a família Parra, criou a Suite Violeta para piano solo onde cita e transcreve algumas de suas canções, com uma roupagem e tratamento concertístico. Uma homenagem mais do que oportuna e merecida a esta lenda da música chilena, gravada também pela pianista Ximena Cabello.

William Cepedda explora o sentido da suite para apresentar ritmos característicos de danças de Porto Rico. Inclui o canto, que também é uma presença marcante na música do país, e o resultado é a Suite com vozes, dividida em três movimentos. O primeiro, Del tambor al piano, traz o ritmo chamado bomba, originalmente para percussão, tocado por dois tambores típicos, e transporta esta polirritmia para o piano. A parte do canto é para quatro vozes, e a suite inteira tem orquestra sinfônica. O segundo movimento, Sentimental é inspirado na solidão e melancolia de Maria Callas, uma das mais expressivas cantoras soprano do século, e seu final trágico, abandonada por Onassis, armador grego com quem viveu. O terceiro e último movimento se chama Apà, apelido de seu avô, que influenciou toda a formação de William Cepedda, do cultivo do solo ao estudo de música. A gravação traz Adriana Kraisenburg, soprano, Carlos Aponte, tenor, Coro e Orquestra Bronx Arts Ensemble, e regência de David Gilbert.

“Américas em Concerto” no próximo domingo, dia 29, às 21 horas. Roquette-Pinto, 94,1MHz.
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