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| Diana Damrau abre temporada do Mozarteum em SP: “A ópera é essencial para todos nós”

29/04/2017 - Por Debora Ghivelder

Uma das cantoras favoritas do Metropolitan de NY, a alemã faz recital ao lado do marido dias 1 e 2 de maio, na Sala São Paulo e fala sobre sua versatilidade, o palco dividido com o marido e seus papeis favoritos

 

Ela é cult, uma darling da Metropolitan Opera House. Já foi definida, pelo crítico Tim Ashley, do The Guardian, como a Meryl Streep da música clássica: faz uma imersão total nos papeis que interpreta, mas não deixa o espectador esquecer os poderes de técnica e da inteligência. Aos 45 anos, a soprano coloratura alemã Diana Damrau é, definitivamente, uma diva. A cantora se apresenta pela primeira vez no Brasil nos dias 1 e 2 de maio na temporada do Mozarteum Brasileiro, em São Paulo.

Ao lado do baixo-barítono francês Nicolas Testé – parceiro de palco e de vida  –  ela escolheu um programa que reúne standards do repertório italiano, alemão, francês, norte-americano e brasileiro, com árias e duetos de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini; Os Huguenotes e Dinorah ou le Pardon de Plërmel de Meyerbeer; Don Carlos, de Verdi; Romeu e Julieta, de Gounod; Lo Schiavo e Salvator Rosa, de Carlos Gomes; Os Puritanos, de Bellini; La Gioconda, de Ponchielli e Porgy and Bess, de Gershwin. A dupla será acompanhada pela Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, regida por Carlos Moreno.

– Vamos nos apresentar com uma orquestra de jovens músicos e estou na expectativa de produzirmos juntos música de grande qualidade. Sei que a plateia brasileira é receptiva e quente. Espero, com ansiedade, por esse encontro  – disse uma simpaticíssima Diana Damrau, por telefone, falando do Chile. – Esta é uma gala, então nunca queremos focar em um único compositor ou repertório. Será uma jornada. E a ária de Carlos Gomes é das preferidas de Nicolas.

Damrau, hoje uma das intérpretes mais disputadas pelos principais teatros de ópera e concertos do mundo, marcou a história do Met ao interpretar pela primeira vez naquele palco os papéis de Pamina e Rainha da Noite em diferentes apresentações da mesma montagem de A Flauta Mágica de Mozart. A casa novaiorquina também montou uma produção exclusiva para ela, de Os Pescadores de Pérolas de Bizet. Naturalmente, estará no incrível elenco que celebra, agora em 7 de maio, os 50 anos da instituição no Lincoln Center – reúne Plácido Domingo, Joyce di Donato, Anna Netrebko, Javier Camarena, Sonya Yoncheva, entre muitos outros.

– É como o Oscar! Assustador, mas muito bonito. Para mim, é uma honra fazer parte disso. Todos os grandes colegas estarão lá, vai ser muito bom estarmos juntos, até porque é difícil vermos e ouvirmos uns aos outros. Vai ser uma festa. Mas olha, confesso que estou nervosa: teremos cinco minutos ali, cada um vai cantar partes difíceis e vão gravar! Daqui 50 anos, aquilo estará lá!

Versátil, a cantora já viveu Lucia, Elvira, Rosina, Gilda, Adina, Marie, Linda e Aminta, Manon, Zerbinetta. Interpretou as quatro heroínas da ópera Contos de Hoffman,de Offenbach, em uma nova produção da Ópera Estatal de Baviera, em outubro de 2011. Damrau não se aventura só pela ópera. Os musicais são outra grande paixão. Aliás, sua estréia nos palcos foi justamente no papel de Eliza Doolittle, no musical My Fair Lady, na cidade de Würzburg. E registrou este prazer no disco Forever, de 2014, que reúne canções como Wouldn’t it be Lovely?, Over the Rainbow e Summertime.

– Não fui a primeira cantora de ópera a fazer isso. Há quem se dedique, pela vida inteira, a um repertório específico, a um único compositor. É uma questão de interesse. Mas há muita gente multitalentosa por aí, que não se limita a a um único campo de atuação. Cresci ouvindo musicais. Interpretar este tipo de música é completamente diferente de cantar ópera, tem outra técnica, tem microfone. Eu aprendi a cantar Eliza, a  interpretar uma simples florista que se torna uma lady educada. E foi um prazer interpretar o papel 60 vezes.

De tudo o que já fez, Diana tem dois papéis que gostaria de incluir em seu currículo. Um é Tosca. E outro, ainda mais querido, é Carmen, papel originalmente para mezzo.

– Há uma versão de Carmen para soprano, então, quem sabe? São mulheres surpreendentes. Adoro o temperamento de Carmen, o flamenco, que danço um pouco.  E sou louca pela Andaluzia, há algo de espanhol em mim. Eu também gostaria de cantar Renato, de Um baile de Máscaras, mas isso fica para uma próxima encarnação – ela ri.

Trabalhar ao lado do marido é, segundo ela, intenso.

– Escutamos e criticamos um ao outro. Mas é maravilhoso estarmos no palco. Não temos muita chance de fazer o casal amoroso porque, na maioria das vezes, essas peças foram escritas para soprano e tenor. O único dueto amoroso que funciona para nós é Porgy and Bess, que está no programa. Mas podemos fazer os outros lados, como o do homem mau, a grande briga, a tragédia. Ele é, basicamente o padre, o pai ou o malvado, até o diabo. E é maravilhoso.

Sobre a crise que assola a ópera e o mundo clássico, Diana Damrau admite que o cenário atual é de dificuldades e se revela uma apaixonada defensora do gênero:

– Ouvimos hoje música criada há 500 anos. Ópera oferece um espelho e nos conecta com nossos sentimentos, nossas raízes, a história da humanidade. A boa música é uma das mais impressionantes experiências e vai permanecer, grandes orquestras e grandes coros contando histórias, colocando a vida em cena. É ótimo poder ouvir e ver tudo em DVD, mas quando se vai ao teatro, aquilo pode mudar trajetórias. Nossa missão é espalhar beleza, mostrar que pessoas do mundo inteiro, de todas as culturas, podem trabalhar juntas e criar algo espetacular, bonito e humano. No fundo, com todas as nossas diferenças, somos iguais, temos o mesmo sentimento. É essencial para todos nós.

1 e 2 de MAIO, 21h

Local: Sala São Paulo (São Paulo, SP)
Praça Julio Prestes, 16