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Prazeres: violino e regência/Foto: Divulgação

| Sob a batuta de Felipe Prazeres

02/10/2016 - Por Barbosa Chaves

O violinista carioca, agora também regente, chega aos 40 anos trabalhando em várias frentes - inclusive na convivência frutífera das músicas popular e clássica nos programas sinfônicos.

O violinista carioca Felipe Prazeres é a antítese do estereótipo normalmente associado ao músico erudito. Peladeiro, adora Mozart e Bach. Jovial e boa praça, é uma lufada de ar fresco no solene e, às vezes, sisudo universo da música clássica. Prestes a dobrar os quarenta anos, o talentoso spalla da Orquestra Petrobras Sinfônica se encaminha para uma nova etapa da já bem sucedida carreira – a regência. Experiência e boa formação musical não lhe faltam.

A música vem, literalmente, do berço. Filho de Armando Prazeres, um dos maiores maestros brasileiros da segunda metade do século XX, tem outros três irmãos envolvidos com música, inclusive Carlos, atual regente da OSBA. A mãe, Manuela , era cantora lírica. Felipe começou no piano aos cinco anos e aos 11 já se apresentava com o violino, enquanto os amigos da mesma idade viajavam nos agudos da guitarra elétrica.

– Violino era para nerd, coisa que eu nunca fui. Tocava o terror no colégio, jogava futebol, tudo que uma criança normal fazia. Mas não falava para ninguém que tocava violino.

Claro que o segredo não durou muito. Garoto, ia sempre com o pai aos ensaios das orquestras que acompanhavam os corais da Petrobras Brasil afora. Daí surgiu o embrião da Petrobras Sinfônica em 1972. Felipe se juntou ao grupo em 1994, com 17 anos. Formado na Unirio em 2001, completou seus estudos na Accademia di Santa Cecilia, em Roma. Aí não teve mais jeito de esconder dos amigos de pelada sua verdadeira vocação.

Há cerca de quatro anos, Felipe tornou-se maestro assistente de Isaac Karabtchevsky, ícone da música clássica no Brasil.

– Temos uma relação de muita confiança. E o vigor do Isaac é de dar inveja a qualquer um.

Inquieto e ainda cheio de gás apesar dos fios brancos já visíveis no espesso cabelo negro, Felipe achou pouco atuar em duas frentes – integra também a Orquestra da Escola de Música da UFRJ, onde atua como spalla há 10 anos e maestro, há cinco. E ainda rege a Academia Juvenil, projeto educativo da Petrobras Sinfônica.

Em 2016, fundou o ensemble Johann Sebastian Rio, com outros 15 músicos. Foi uma sacada com o sobrenome Bach, ou riacho na tradução para o português, o que, ato contínuo, resultaria no abrasileirado Johann Sebastian Ribeiro. Para acrescentar uma pitada carioca, ficou Rio mesmo. O repertório é eclético: vai de Vivaldi e Bach, passando por Jacob do Bandolim até Guns&Roses. O grupo vem se apresentando regularmente, com boa recepção até por parte dos mais ortodoxos.

– Não tenho nenhum preconceito contra o pop, mas me sinto muito seguro por ter formação clássica – esclarece ele.

Felipe desafia mesmo os rótulos. Adepto do futevôlei, é vidrado no barroco. Apesar de certa resistência às playlists tão em voga, confessa que a Grande Missa em Dó Menor e o Réquiem de Mozart estão entre seus favoritos.

– Tem também o Funeral Maçônico, que eu sempre quis fazer, mas ainda não rolou.

Como solista, não teme os clichês.

– Adoro tocar As Quatro Estações, de Vivaldi, e os cinco concertos de Mozart para violino, principalmente os três últimos.

Apesar dos numerosos compromissos como spalla, além da direção artística da Johann, o músico com pinta de garotão vem se dedicando cada vez mais à regência.

– Falta ainda a música lírica – reconhece, lembrando o conselho de Karabtchevsky: “maestro que é maestro tem que reger ópera”. Sob a regência do maestro, Felipe já fez três óperas com a Petrobras Sinfônica e continua explorando o gênero com afinco.

Otimista, acredita na sobrevivência da música clássica, apesar de todos os problemas de financiamento, principalmente no Rio. Ciente de que não é barato manter uma orquestra sinfônica, acha, no entanto, que o maior entrave à formação de novas plateias não é o aperto financeiro, mas a falta de educação musical nas escolas.

– As cabeças grisalhas que vemos nos teatros hoje são dos que tiveram música na escola e, por isso, podem apreciá-la melhor – constata, atento ao grande desafio que o mundo inteiro enfrenta para atrair jovens para as salas de concerto. Tanto a Petrobras Sinfônica como a Johann vêm desenvolvendo uma série iniciativas para conquistar esse público, como tocar em cervejarias e incluir música popular nas apresentações.

– Temos que buscar a excelência, mas sempre com leveza para angariar essa plateia, senão ela não vem.

Os planos para os 40 passam, necessariamente, por ter maior disponibilidade para a regência. E sempre que possível, se reciclar fora do Brasil, principalmente nas férias de verão daqui, que coincidem com a alta temporada das orquestras na Europa. Há mais de 10 anos se apresenta regularmente na Noruega em uma série de música de câmera com músicos do mundo inteiro e, recentemente, tocou música brasileira em Berlin, incluindo Villa-Lobos, choros e sambas.

– Hoje em dia há mais troca entre o clássico e o popular. E muitos músicos eruditos já se aventuram na improvisação, mesmo sem partitura. Acho que o caminho passa por aí.