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O Royal Albert Hall - detalhe: Stuart Skelton (foto: Canetty Clarke ) e Ricarda Merbeth

| Uma noite no Proms, o maior festival de música clássica do mundo, com ‘Fidelio’,de Beethoven

23/07/2017 - Por Barbosa Chaves

Ao longo de oito semanas, o BBC Proms apresenta um vasto repertório em 75 concertos que atrai um público variado há mais de 120 anos em Londres. O maior festival de música clássica do mundo é uma experiência para não se esquecer.

 

Para quem gosta de música clássica e mora em Londres ou está a passeio na cidade durante o verão, ir ao BBC Proms é quase uma obrigação, um ato de religiosidade musical. São oito semanas de concertos, palestras e workshops que seguem a mesma bula desde 1895 – apresentar a grandes plateias o mais amplo repertório musical, no mais alto padrão artístico. A julgar pela longevidade, a receita deu certo.

Neste ano, são 75 concertos abrangendo um vasto espectro musical que vai de clássicos paquistaneses a Philip Glass. Não é de se admirar que o Proms ostente o título de maior festival de música clássica do mundo. E um dos mais ecléticos. Em 2009, o Choros n.o 10 de Villa-Lobos, pouco tocado mesmo no Brasil,  foi o destaque da última e mais prestigiosa noite do Proms . E as Bachianas fizeram parte de várias edições. No fim do século XIX, Salvator Rosa, de Carlos Gomes, constou do programa por quatro anos seguidos. Ao longo de mais de cem anos, muitos brasileiros passaram pelo festival.

O nome Proms tem origem nos Promenade Concerts, termo originalmente usado para os concertos ao ar livre em parques e jardins do século XIX  nos quais a plateia podia circular enquanto a orquestra tocava, algo impensável em um teatro inglês. Nos anos 1920, a cadeia de rádio BBC assumiu a coordenação do festival e, na década seguinte, a então recém-criada Orquestra Sinfônica da BBC  tornou-se protagonista do evento, posição que ocupa até hoje. Os concertos são transmitidos ao vivo pela Rádio BBC 3 e pela TV BBC 2.

Isso, obviamente, não impede que outras orquestras sejam convidadas. Este ano, por exemplo, a Staatskapelle de Berlin, sob a batuta de Daniel Baremboin, trouxe ao Proms a Sinfonia Nº.2 , de Elgar, um dos destaques desta temporada, ao lado de Bernard Haitikin com a Orquestra de Câmara da Europa no Concerto para Violino Nº. 3 de Mozart. As filarmônicas de Viena e do Scala de Milão, e a Real Concertgebouw, de Amsterdã, também deram as caras em Londres este ano.

Nomes icônicos da música, aliás, são frequentes no Proms. As violinistas Nicolla Benedetti e Anne-Sophie Mutter, os maestros Simon Rattle  e John Eliot Gardiner e a soprano Renée Fleming são algumas das estrelas da edição 2017.  Nos anos 60 do século passado, o festival catapultou solistas do porte de Jaqueline Du Pré, cuja interpretação do Concerto para Violoncelo, de Elgar, entrou para a história da música clássica.

Royal Albert Hall

Quem conhece Londres sabe que o metrô é a forma mais eficiente e rápida de chegar onde se quer na capital britânica. Isso vale também se o destino for o Royal Albert hall, o imponente teatro de mais de seis mil lugares que sedia o festival. Assim, uma noite no Proms, normalmente, começa no metrô, mais especificamente na Central Line, que leva à estação de High Street Kensington, a mais próxima do teatro.

Já no vagão, nota-se  um movimento incomum de senhores em black tie – sim, os ingleses pegam metrô de smoking – e senhoras vestidas em traje de gala. Não que o traje formal seja obrigatório nos concertos do Proms. É que o londrino não perde uma oportunidade para tirar do armário as velhas fatiotas, ainda que aqui e ali se note um colarinho puído ou uma discreta mancha de bebida, marcas inequívocas do ocaso de um império.

Logo na chegada ao Albert Hall, o que chama atenção são as enormes filas para retirar os ingressos ou para esperar as inevitáveis e bem vindas desistências. Há quem diga que o inglês não resiste a uma fila. No caso do Proms, geralmente as intermináveis esperas têm um bom motivo. Há ingressos por menos de R$ 30 e os mais caros não passam de R$ 250, uma pechincha para um concerto em Londres.

Royal Albert Hall

Dentro do teatro, uma enorme arena de inspiração romana, a plateia é extremamente eclética, um microcosmo da própria Londres. Há de tudo, desde os chiques decadentes até jovens de  tênis e jeans rasgados. E, é claro, há também os realmente chiques, ainda que em menor número. Além de gigantesco, o festival é muito popular e funciona como uma antítese da estratificada sociedade inglesa. Atrai de membros da família real a motoristas de black cab, os inconfundíveis táxis de Londres. O Proms é quase uma unanimidade londrina.

A história dos andarilhos que passeavam ao som dos acordes da orquestra ficou mesmo para a história. Além de respeitoso, o público atual é extremamente silencioso. Mais de seis mil pessoas e nenhuma campainha de celular. E ninguém entra depois de iniciado o concerto. Levantar-se, só no intervalo, salvo as emergências. Do antigo Promenade, restou apenas a opção de assistir aos concertos de pé em uma área reservada no centro da arena para quem tem bom gosto musical e pouco dinheiro no bolso.

Fidelio

Filarmônica da BBC

Na minha noite no Proms, o programa foi Fidelio, a única ópera de Beethoven, com a Filarmônica da BBC – mais jovem que a Sinfônica, mas igualmente conceituada – e solistas que eu não conhecia. Não seria minha primeira escolha, mas era o que cabia na agenda. Fui – mesmo sendo em concerto, um ponto negativo para quem, como eu, curte ver toda a parafernália de uma ópera acontecendo ao vivo, ali e agora. Com a expectativa baixa, a noite  acabou sendo uma agradável surpresa.

A Filarmônica, sob a regência do espanhol Juanjo Mena, estava particularmente inspirada, talvez pelo tom libertário da ópera de Beethoven, um libelo contra a opressão politica composto sob a influência da revolução francesa. O tenor wagneriano Stuart Skelton, no papel de Florestan, entusiasmou a plateia com sua voz potente, mesmo nas regiões mais baixas da escala.

Mas a noite foi da soprano alemã Ricarda Merbeth que, desconhecida por mim, ostenta uma sólida carreira na Ópera de Viena e, recentemente, foi muito elogiada pela critica por sua gravação das Quatro Ultimas Canções de Strauss.

A outra sensação da noite foi o coro de 120 vozes que fez vibrar o centenário Royal Albert Hall, reconhecido como importante palco da musica clássica e popular, mas não por sua acústica. Nos momentos finais, o coro conferiu a Fidelio o tom apoteótico que marcou algumas sinfonias de Beethoven, garantindo um grand finale para mais uma noite no Proms.

Na saída , chovia – não um aguaceiro, mas aquele chuvisco manhoso ao qual os londrinos estão mais que acostumados. Em poucos minutos, o público se dispersou pelas ruas que levam às estações de metro mais próximas, ainda sob o impacto da música. ‘Que  coro divino’, exclamou uma senhora enquanto tentava abrir a sombrinha empenada pelo uso constante. ‘A voz da soprano é celestial’, completou o marido em tom solene. A música clássica tem um quê de religião por essas bandas.

Site: https://www.bbc.co.uk/events/rcrbj5