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Foto: Bety Niemeyer

| Proença volta à direção da Sala Cecília Meireles

29/03/2017 - Por Luciana Medeiros

O pianista, que dirigiu a casa entre 1984 e 1987, aceitou o convite para substituir Jean Louis Steuerman

 

Quando o pianista Miguel Proença assumiu a direção da Sala Cecília Meireles pela primeira vez, em 1984, a Lapa não era o sucesso de público dos dias de hoje. Mesmo assim, em dias de bilheteria mais rala, ele saía pelo calçadão convidando os passantes para entrar “e ouvir uma música maravilhosa”. E assim enchia o mezanino. Instruía ainda: “fiquem quietinhos, aplaudam só no fim do concerto e gritem ‘bravo!’, que o artista adora”.

Miguel sempre repete essa e outras histórias do palco carioca às gargalhadas. Lembra, por exemplo, a noite em que Caetano Veloso ficou de fora de um auditório superlotado para ouvir – e ver – John Cage.

– Ele pedia para entrar, e não tinha mais espaço! Esse foi um dos eventos que eu levei para a Sala, acho que abri a programação para outras vertentes.

O gaúcho de Quaraí, radicado há décadas no Rio, assume novamente, nesse mês de abril, a direção da Sala que esteve sob seu comando por três anos. Foi convidado pelo Secretário de Cultura André Lazaroni para ocupar o lugar de Jean Louis Steuerman, demitido do cargo na noite dessa terça e que recebeu moção de artistas pedindo sua permanência. É uma sucessão de pianistas na direção da casa – e de amigos chegados, conta Miguel.

– Jean Louis é meu amigo íntimo, gosto demais dele como pessoa e como pianista. Esteve comigo quando toquei pela primeira vez em Londres, estudava na minha casa em Búzios. Mas isso é como funciona a administração pública, o secretário quer escolher sua equipe. Essas mudanças são assim mesmo.

O convite veio no dia de seu aniversário, na segunda-feira, lembra ele, e ainda não tem data fechada para assumir o posto nem montou equipe. Sobre a programação, diz que ainda vai ser pensada – mas já sabe que vai “administrar a escassez”, frente à crise do Estado.

– Já sei que não tem dinheiro. E vamos ter que matar um leão por dia. Mas a gente faz isso há tanto tempo que já se  acostumou. Aceitei com o maior prazer, a maior alegria, mas ainda estou aguardando instruções. Não vi a programação que está fechada, mas vou analisar com detalhes e, claro, vou colocar a minha marca como programador da casa, sempre com grande respeito aos artistas e produtores.

Dedicado às turnês do projeto Piano Brasil, patrocinado pelo BNDES e que cumpriu a oitava edição em 2016, Miguel fala repetidamente de um tema caro a ele: a formação de plateias, que é o objetivo do projeto que já percorreu 146 cidades brasileiras.

– Faço concerto didático, toco para a cidade, dou masterclasses. É um desbravamento do Brasil, com um retorno tocante. Estive na minha cidade natal, foi muito emocionante. Toquei na Amazônia. Faço como Villa-Lobos.

No cotidiano da Sala, onde tocou em novembro de 2016 [veja reportagem aqui]– Miguel avisa que vai voltar a um lugar onde costumava se divertir.

– Eu adoro essa atmosfera, esse ambiente, os camarins, os artistas, é a minha natureza. Formar público, tocar, estar no palco e nos bastidores. Adoro!