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Jen-Frédéric Neuburger e Jean- François Heisser / Foto: T. Chapuzot

| Pianistas franceses tocam no Rio peça raramente ouvida de Stockhausen

25/10/2016 - Por Debora Ghivelder

Os pianistas Jean- François Heisser e Jen-Frédéric Neuburger apresentam a peça na Sala Cecília Meireles, neste sábado, dia 29, depois de recitais solo na quarta (26) e na quinta (27).

 

Uma olhada na programação da Sala Cecília Meireles acusa um ponto fora da curva. Neste sábado, 29, salta aos olhos a execução da peculiar Mantra, do alemão Karlheinz Stockhausen (1927-2007), pioneiro da música eletroacústica. Essa performance, ligada à Série Missão Francesa na Sala,  é coisa muito rara de se ver por aí – há quem diga que nunca foi tocada no Brasil. A obra, a primeira do compositor em que ele se vale da ideia de “fórmula”, é uma peça para dois pianos modulados e címbalos e eletrônica.Vai ser interpretada pelos pianistas franceses Jean- François Heisser e Jen-Frédéric Neuburger com o auxílio de um técnico trazido também da França, responsável pelas transmissões.

Antes do encontro, Heisser e Neuburger se apresentam na casa da Lapa, em recitais solo. Neuburger, nesta quarta, 26, vai de Bach a Boulez. Heisser, nesta quinta, interpreta de Debussy e Beethoven ao contemporâneo Philippe Manoury.

Neburger trabalhou com Pierre Boulez, particularmente na segunda sonata para piano do compositor e se dedica em grande parte de suas atividades à música contemporânea, tendo feito a première de inúmeras obras importantes. Heisser tem uma discografia com mais de 40 títulos, incluindo a integral das obras para piano de Paul Dukas, que recebeu o prêmio Diapason d’Ór. Desde 1991 leciona no Conservatório Nacional Superior de Música de Paris e atualmente é diretor musical da Poitou-Charentes Orchestra. Além do repertório regular, também se destaca como intérprete de música contemporânea.

A fórmula

A “fórmula” de Stockhausen é uma técnica de composição que consiste em uma unidade melódica – neste caso são 13 sons – passível de uma série de combinações, expansões e compressões. As combinações, profusas, resultam em um colorido bastante singular.

– A obra tem cerca de uma hora de duração e estes 13 sons são repetidos sistematicamente; não na mesma velocidade, não na mesma tonalidade e não com os mesmos intervalos – explica Jean- François Heisser, que já tocou a peça algumas vezes, a última há duas semanas, em um festival na Europa.

Stockhausen escreveu as 13 notas em um papel, durante uma viagem de carro. Mas tarde, resolveu fazer uma peça longa com esse tema e tomou por inspiração a música e os mantras indianos. Com os avanços tecnológicos, a aparelhagem analógica que era usada para captar, filtrar e transformar o som dos pianos foi substituída por equipamento digital. A acompanhar os sons, há efeitos visuais e até a voz dos pianistas que cantam em determinado momento da peça.

– É um trecho pequeno, mas cantamos, sim – conta o pianista, ressaltando: – Esta é a única composição para dois pianos de Stockhausen e a ideia dele era reproduzir, na música, a ideia do cosmos. Ou seja, se fosse música, o cosmos soaria dessa maneira.

Mantra é, portanto, produto de seu tempo, os inconfundíveis anos 1970, com toda a sua carga de misticismo, psicodelismo e experimentalismo despertado pela cultura e crenças indianas. E deve ser recebido pelo público com o espírito aberto. Ou, como define Heisser:

– O público deve assistir de uma maneira diferente. Deve, simplesmente, receber a música. É mesmo uma experiência diferente. É muito empolgante para os pianistas e também muito difícil.