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Philippe Jaroussky / Foto: Simon Fowler - Divulgação

| Philippe Jaroussky: “recital histórico” abre série O Globo/Dell’Arte 2017

22/04/2017 - Por Arthur Dapieve

"Houve quem achasse que saíra do teatro não para pisar no calçadão da Cinelândia e sim para flutuar entre as nuvens"

 

Um espetáculo de abertura de temporada tem, na maioria das vezes, uma função protocolar: “Estão abertos os trabalhos!”. Num momento de crise financeira, política e espiritual, em que todas nossas orquestras ou instituições enfrentam alguma forma de dificuldade, abrir uma temporada já é, em si, um feito notável. A Orquestra Sinfônica Brasileira, por exemplo, ainda não conseguiu apresentar a sua agenda para 2017.

Há espetáculos de abertura de temporada, porém, que também estabelecem, por sua excelência, um “antes” e um “depois”. Foi o caso do recital/concerto do contratenor Philippe Jaroussky e da orquestra Le Concert de La Loge, ambos franceses, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na quarta-feira (19). Ele não só abriu a temporada 2017 da série O Globo/Dell’Arte: foi marcante, histórico. Houve quem achasse que saíra do teatro não para pisar no calçadão da Cinelândia e sim para flutuar entre as nuvens.

Jaroussky, de 39 anos, faz parte de uma geração brilhante, de versáteis contratenores, que inclui Iestyn Davies, Max Emanuel Cencic e Franco Fagioli, entre outros. Graças ao pioneirismo de Alfred Deller e à redescoberta das óperas barrocas para palcos e gravações, a turma de Jaroussky não é mais vista como uma excentricidade, homens que graças ao domínio do falsete atingem a extensão de contraltos e meios-sopranos. São astros em pé de igualdade com tenores ou sopranos. Talvez até mais pop.

Além da tessitura e da técnica, outro de seus traços distintivos é o extremo bom gosto no garimpo e na seleção do repertório. O espetáculo proporcionado por Jaroussky e pela Concert de La Loge – que se repetirá em duas datas na temporada da Cultura Artística, na Sala São Paulo, na segunda (24) e na terça (25) – foi exemplar também nesse sentido.

Constituiu-se de recitativos e árias de óperas menos conhecidas de Georg Friedrich Händel (1685-1759), intercalados a duas composições instrumentais mais populares, do mesmo compositor: o Concerto Grosso op. 6, nº 1, e trechos da Música Aquática. Neles, os 17 músicos que vieram ao Brasil, regidos do violino por Chouchane Siranossian, deram provas de perícia, vigor e, num barroco à moderna, velocidade.

Não se tratava de tapar o sol com a peneira: Jaroussky era a principal atração da noite, é óbvio. Embora sua voz assombre desde a primeira nota (do recitativo Son pur felice, da ópera Flavio, re de’ Longobardi), pelo timbre e pela naturalidade de emissão, a acústica do Municipal tolheu parte de seu brilho na primeira metade do programa. Ainda assim, ele teve mais sorte que o cravista Takashi Watanabe, cujo instrumento, com o tampo inexplicavelmente fechado, nem era ouvido. Depois do intervalo, a orquestra soou mais contida, o contratenor refulgiu, e o cravo pôde ao menos ser percebido.

Todo de execução muito difícil, o repertório vocal ofereceu um crescendo de complexidade técnica e de exaltação emocional. O final da primeira parte, com as árias Se potessero i sospir miei (da ópera Imeneo) e Vile, se mi dai morte (de Radamisto) deixou a plateia em suspenso, atônita, ansiosa pelo começo da segunda parte. Esta seguiu um roteiro similar, intensificando-se nas árias Ombra cara (de Radamisto) e Rompo i lacci (de Flavio). Aplausos frenéticos, gritos de bravo! e pedidos de bis.

Não teria sido necessário nada mais para entender, ali, in loco, no teste definitivo do recital, as razões para a dimensão estelar de Jaroussky. Contudo, a plateia e o simpático contratenor queriam mais, muito mais. Veio, então, um encore dos sonhos para fãs de Jaroussky, composto pelas mais conhecidas Lascia ch’io pianga (de Rinaldo) e Sì, la voglio, e la otterrò e Ombra mai fu (ambas de Serse), as duas árias lentas envolvendo a mais agitada. O francês não apenas cantando em concerto, mas de fato interpretando as personagens.

Por todo o espetáculo, outra constatação. Jaroussky atinge aquelas alturas impressionantes passando do mais elaborado ornamento à perfeita articulação das palavras dos libretos, sem perder nem nota nem sílaba. O único problema com a noitada promovida com a orquestra Le Concert de La Loge é o risco de ela transformar, injustamente, tudo o mais que se seguir na temporada carioca de 2017 num anticlímax.