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Marin Alsop no pódio da Osesp/ Foto: Rodrigo Rosenthal

| Osesp abre temporada 2017 com concerto pelo Dia Internacional da Mulher

4/3/2017 - Por Debora Ghivelder

Marin Alsop, a mulher à frente da orquestra, fala sobre a presença feminina na música clássica e, em especial, no pódio

Com um concerto em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Osesp, abre a temporada 2017, batizada Mundo Maior, na quarta (8) [veja artigo em vídeo sobre a temporada]. O concerto terá transmissão digital ao vivo e ostentará duas mulheres alternando o pódio: a regente titular e diretora musical, Marin Alsop e a regente em residência, Valentina Peleggi.

O programa abre com o Coro da Osesp, regido por Peleggi, que assumiu em fevereiro a função de regente titular do Coro da Osesp para as temporadas 2017 e 2018, além de continuar como regente assistente da Osesp, passando a ser regente em residência pelos próximos dois anos. Na seleção, três obras de compositoras europeias, de diferentes épocas: Maddalena Casulana (1544-1590), a primeira mulher a ter o trabalho publicado, Roxanna Panufnik (1968), Lili Boulanger (1893 -1918), esta última  irmã mais nova da notável compositora e professora  Nadia Boulanger. Lili foi a primeira vencedora do prêmio de composição do Prix de Rome . De cada uma, a orquestra apresenta, respectivamente, Morir não può il mio núcleo (madrigal); a meditação a capella Kyrie após Byrd (2014) e Hymne au Soleil (1912), uma oração do ritual hindu ao sol.

Na segunda parte, Marin Alsop rege a Osesp na monumental Nona Sinfonia de Beethoven, com participação dos Coros da Osesp e Acadêmico da Osesp, do Coral Lírico Paulista e dos solistas convidados Camila Titinger (soprano), Paulo Mandarino (tenor), Luisa Francesconi (mezzo soprano) e Leonardo Neiva (barítono).

A última sinfonia de Beethoven faz a costura da semana de abertura da Orquestra, que traz ainda um segundo programa em concertos que vão de quinta (9) a sábado (11), também regidos por Alsop. À obra do compositor alemão junta-se Gravitações, peça encomendada pela Osesp ao compositor Jorge Villavicêncio Grossmann, peruano naturalizado brasileiro, radicado nos EUA, que teve sua estreia mundial na abertura do 47º Festival de Inverno de Campos do Jordão de 2016.

Por email, a regente titular respondeu às perguntas de Tutti Clássicos.

Tutti – A senhora rege um concerto especial em homenagem ao Dia da Mulher. Como vê a presença feminina na cena da música clássica hoje?

Marin Alsop – Vejo alguns progressos em termos de número de mulheres em orquestras, em pódios e como compositoras, mas a situação ainda requer atenção ativa. Eu lancei uma bolsa em 2002 para incentivar e proporcionar oportunidades para as regentes mulheres. Esse tipo de iniciativa é muito importante para equilibrar o cenário para as mulheres. A Osesp tem uma história rica de boas-vindas a regentes mulheres, o que me deixa extremamente orgulhosa.

A senhora está numa função predominantemente ocupada por homens. Ainda é difícil?

A profissão de regente é um desafio para mulheres e homens, mas um campo verdadeiramente gratificante. Eu não mudaria um momento de minha vida e carreira.

Em Hollywood houve uma campanha para que as mulheres fossem remuneradas de forma mais igualitária em relação aos homens. Como está a situação na música clássica?

Eu não sei as estatísticas da música clássica, mas acho que os músicos orquestrais são igualmente pagos. Dito isto, eu não tenho certeza se o mesmo número de mulheres ocupa as posições mais altas.

Valentina Peleggi/ Foto: divulgação

Parte do programa apresenta obras de compositores e também a Nona de Beethoven. Pode comentar o programa como um todo? Além disso, não acha que o trabalho das mulheres deve ser tocado mais regularmente?

Acredito que, se Beethoven estivesse vivo hoje, defenderia os direitos humanos e a igualdade. Sua filosofia abraça a bondade do espírito humano e sua crença duradoura no poder do amor, acima de tudo, nos inspira hoje! A abertura com as três obras que Valentina vai realizar representam contribuições de proeminentes mulheres compositoras ao longo de mais de seis séculos. Muitas vezes suas histórias ficam perdidas, mas felizmente sua música as carrega até nós hoje. Parece-me apropriado que Valentina Peleggi, minha pupila (Em 2015, ela venceu a Taki Concordia Conducting Fellowship, uma bolsa criada em 2002 por Marin Alsop para incentivar jovens regentes mulheres em início de carreira), conduza essas obras em seu novo papel na Osesp como regente residente da orquestra e regente principal do coro.

Pode comentar o programa dos outros concertos que inclui, além de Beethoven, uma peça de Jorge Villavicêncio Grossmann?

Estamos muito felizes por estar gravando este novo trabalho de Grossman para o nosso selo digital. Ele é um compositor talentoso e a peça é cativante.

Em suas palavras: “nesta temporada, estarei na vanguarda de um ciclo especial com o tema do Heroi, o que me parece ser muito bom nestes tempos em que estamos vivendo”. Acha que precisamos de novos herois? E qual é o papel da música clássica em tempos difíceis?

O papel da arte é falar a verdade, capturar nossa imaginação e dar-nos esperança para o melhor da humanidade. Acredito que precisamos manter contato com esses objetivos mais do que nunca.

Redução de 27% no orçamento, redução de 8% nas assinaturas, regentes com convites cancelados. Como vê a temporada de 2017 frente à crise?

Felizmente, mesmo neste momento difícil, a liderança da Osesp conseguiu preservar a instituição para o público e manter seu compromisso com a excelência artística, estando ainda mais presente para o público em geral. A arte é para TODOS e o Brasil é iluminado em sua compreensão da importância da voz livre em nosso mundo.