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A Orquestra de Ouro Preto ensaia no Teatro

| Orquestra de Ouro Preto transita entre colonial mineiro e popular

04/05/2017 - Por Barbosa Chaves

Liderada pelo jovem maestro Rodrigo Toffolo, formação de câmara aposta no acervo musical da antiga Vila Rica e também toca Beatles e Jobim. A casa de ópera da cidade, aberta em 1770, é a mais antiga das Américas em funcionamento

 

 

A música está no DNA do povo mineiro. Desde sua formação no Ciclo do Ouro, Minas produziu e consumiu música de excelente qualidade, seja nas igrejas, nos quartéis ou em teatros, obrigatórios nas principais cidades e dos quais restam poucos. A Casa de Ópera de Ouro Preto, de 1770, é a mais antiga do país ainda em funcionamento. Joia do barroco mineiro, o teatro foi reaberto há pouco mais de um ano com uma apresentação da Orquestra de Ouro Preto, formação de 25 músicos  que tomou para si a louvável tarefa de dar vida ao rico acervo da escola mineira de compositores, ao mesmo tempo em que mergulha sem pudor no popular. Experimentalismo e brasilianismo estão na certidão de batismo da orquestra.

Criada no ano 2.000 ,  a jovem orquestra de cordas já coleciona algumas  conquistas importantes. Gravou seis CDs (entre clássicos e populares), conquistou o Prêmio da Música Brasileira em 2015 com ‘Valencianas’, em parceria com o cantor e compositor Alceu Valença, e já foi ouvida por mais de um milhão de pessoas em cerca de 700 concertos, inclusive na Espanha e em Portugal. De quebra, foi o único grupo brasileiro convidado para a International Beatle Week, festival anual que celebra a música do quarteto de Liverpool em sua terra natal.

– Tocamos música popular como o mesmo esmero que executamos uma partitura clássica – explica o maestroRodrigo Toffolo,  regente e diretor artístico da Orquestra de Ouro Preto.

                     Rodrigo Toffolo

Toffolo iniciou sua formação musical como violinista no Instituto de Artes da Universidade Federal de Ouro Preto, passou pela Escola de Música da UFRJ e, atualmente, conclui uma tese de doutorado em música mineira do século XVIII na Universidade Nova de Lisboa. O sobrenome vem do avô italiano que chegou na então Vila Rica no século XIX.

– Amante de ópera, ele anotava nas bolachas (discos de 78 rotações) suas impressões sobre as gravações, tais como ‘estupendo’ e ‘magnífico’ – relembra. Desse primeiro contato veio o interesse pela música, que encontrou terreno fértil na rica tradição musical da cidade.

Entre uma bruschetta e um gole de refresco numa tarde ensolarada de outono em Ouro Preto, ainda se recompondo de uma série de apresentações do espetáculo ’90 anos de Tom Jobim’ e do susto com o recente roubo do equipamento de gravação (que foi praticamente todo recuperado), Toffolo falou ao Tutti Clássicos sobre os rumos da orquestra às vésperas da maioridade, sua visão descomplicada da música e seus planos para a temporada recém iniciada.

Lobo de Mesquita

Ardente admirador de Lobo de Mesquita, compositor mineiro que deixou importante obra sacra, e do Padre José Maurício Nunes Garcia, um dos primeiros compositores eruditos do Brasil e autor do Réquiem que a orquestra tocou nas comemorações dos 200 anos da chegada da corte ao Rio, o maestro discorre com desenvoltura sobre as origens sacras da música mineira ainda no período colonial.

Muitas dessas composições são conhecidas hoje graças ao pesquisador teuto-uruguaio, Curt Lange, que em meados do século passado, localizou e catalogou partituras escritas por várias gerações de músicos mineiros.

– Em Minas, as pessoas que achavam ouro logo se organizavam em irmandades que mandavam erguer igrejas e encomendavam música. O ofício de músico era, quase sempre, exercido por mulatos que, filhos de homens brancos com mulheres negras, nasciam alforriados – assinala Tofollo.

Escola Mineira de Música

É o caso de João de Deus, músico ouro-pretano nascido em 1794  que, além de missas, responsórios e novenas, deixou  pelo menos uma peça orquestral profana que, provavelmente, era tocada entre atos de peças líricas na Casa da Ópera de Ouro Preto, como era costume na época.

– São mais de 40 obras de altíssima qualidade, a maioria para orquestra clássica, basicamente formada por  cordas, dois oboés e duas trompas, às vezes com quatro ou oito vozes e mais um ou outro instrumento.  Com essa formação se toca oitenta por cento do repertório clássico, incluindo, obviamente, Haydn e Mozart – resume o maestro.

Com a chegada da família real em 1808, muitos músicos de Ouro Preto foram para a corte, o provocou uma série de adaptações nas orquestrações locais por absoluta falta de instrumentistas. O jeito foi improvisar na formação já que a música era essencial nos ofícios religiosos e na vida social da próspera Vila Rica.

– No  século XVIII e início do XIX, o mais importante era ter música e nem tanto a  instrumentação e formação das orquestras – explica o maestro.–  Por isso, é muito comum, por exemplo, você ter duas clarinetas em lugar de flauta e clarineta  porque simplesmente não havia flautista disponível. Isso deu lugar a formações muito características desse período.

Além de amplamente tocada em  igrejas, a música também era consumida como entretenimento na cosmopolita cidade mineira –  a Vila Rica setecentista chegou a ter 80 mil habitantes, mais do que o dobro de Nova York na mesma época. Na Casa da Ópera teriam se apresentado pela primeira vez no Brasil, mulheres cantoras. Até então, os papéis femininos eram cantados por vozes de tenor ou castrato. Consta que a soprano Anita Candiane teria sido a precursora ao protagonizar, no fim do século XVIII, uma ópera com libreto de um tal Zé da Silva, do qual pouco se sabe além de que tinha o apelido de Judeu.

– Eram óperas curtas, de 30 ou 40 minutos, com libreto em português, que se encaixavam no intervalo das apresentações de peças europeias – explica Toffolo, que pretende levar ao palco da Casa da Ópera de Ouro Preto no segundo semestre a obra ‘O grande imperador da ilha dos lagartos’, reescrita a partir de fragmentos do libreto e da partitura original. –Restou mais texto do que partitura, mas estamos recuperando a música por meio de estudos musicológicos e composições da mesma época.

Piazzola e Vivaldi

O  gosto pela história musical de Minas e o  propósito da orquestra de reviver obras que há séculos repousam em arquivos empoeirados não constitui barreira para a exploração de música essencialmente popular e contemporânea. Sob a batuta de Toffolo, a Orquestra de Ouro Preto segue buscando o diálogo entre o clássico e o popular  por meio de gravações e concertos que incluem canções conhecidíssimas de Alceu Valença, como ‘Tropicana’, tangos de Piazzola, concertos de Vivaldi, obras primas de Tom Jobim, como ‘Canta, canta mais’ e ‘Meu amigo Radamés’ e, claro, peças raríssimas, praticamente inéditas, do repertório mineiro de compositores.

Com novo patrocínio da Vale, além da Sulamérica e da Aliança, que juntas compõem o modesto orçamento de R$ 1,5 milhão por ano  – e nenhuma verba pública -, a Orquestra de Ouro Preto acaba de iniciar uma movimentada temporada que inclui concertos na Sala São Paulo, Municipal do Rio, Palácio das Artes de Belo Horizonte, além de Recife, Campinas e Curitiba. Também na agenda, apresentações em diversas cidades mineiras.

Ainda este ano, a orquestra lança um CD com músicas de cinema nacionais e internacionais (ainda sem nome) e estreia um espetáculo que homenageia a poesia de Fernando Brant. Aos 17 anos de vida, a orquestra aposta na mescla de clássicos e populares sem medo de experimentar.

– Tenho absoluta convicção de que, se Mozart fosse vivo, ele faria um concerto para guitarra e cordas – brinca Toffolo.