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| Orquestra Cesgranrio estreia obra de Mario Ferraro – e o compositor comenta

09/05/2017 - Por Mario Ferraro*

No domingo, 14, a Orquestra de jovens músicos regida por Eder Paolozzi se apresenta na Sala Cecilia Meireles e incluiu, no programa, a Abertura Sinfônica Brasilia do compositor .

 

Ser compositor de música erudita nem sempre fez parte dos meus planos enquanto artista. Pintor bissexto, músico de teatro com uma bagagem considerável e adepto do autodidatismo, foi somente aos 36 anos de idade que esse propósito em mim se estabeleceu definitivamente. E eu tenho, nítido na memória, o momento preciso em que esse evento se deu. Foi quando, durante o último ensaio antes da estreia daquela que seria minha primeira obra escrita para orquestra, escutei pela primeira vez a melodia de um trompete que, a certa altura, surgia e elevava-se em direção ao teto do auditório com um efeito que eu então não imaginava enquanto colocava aquela ideia no papel. Que sensação indescritível! No dia seguinte, ao fim da execução de estreia da minha Abertura Sinfônica Brasília, enquanto agradecia os aplausos do público que lotava a Sala São Paulo, pensei: está tudo certo. Afinal, eu era o compositor!

O Concurso Nacional de Composição Camargo Guarnieri era organizado pela Associação Camargo Guarnieri de Amigos da OSUSP, com o apoio da Orquestra Sinfônica da USP, e coordenado pela compositora Silvia de Lucca. Contava com uma banca julgadora bastante peculiar pelo seu ecletismo, formada por cinco integrantes, entre compositores e maestros de diferentes idades e vertentes estéticas. A Abertura Sinfônica Brasília ganhou o 1º Prêmio em 2005 e foi executada pela OSUSP, sob a regência do Maestro Aylton Escobar, em sua temporada de concertos do ano seguinte. A obra foi ainda editorada pela Academia Brasileira de Música.

As Aberturas (ouvertures) são formas musicais instrumentais tradicionalmente criadas para anteceder uma ópera ou uma obra coral ou instrumental. Por meio delas, o compositor introduz os principais temas dos personagens do drama musical, por exemplo, antecipando o caráter psicológico da trama que se inicia a seguir, preparando emocionalmente o público para a cena. A partir do século 19, grandes prelúdios orquestrais foram criados com essa finalidade e adquiriram, desde então, o status de forma musical autônoma.

Assim, à maneira de uma abertura sinfônica tradicional que apresenta vários temas sucessivamente, compus minha Brasília como uma rapsódia de estrutura livre. Nela, a “célula melódica” que dá origem à maioria das ideias musicais é formada por uma sequência ascendente (variável de tamanho) de intervalos de 4as. justas, seguida de um semitom descendente. Essa sequência aparece completa e pela primeira vez no tema: si-mi-lá-ré-dó#, tocado pelas cordas graves e pelos trombones e fagotes. No decorrer da peça, os demais temas derivados são formados e transformados a partir da combinação livre destes mesmos intervalos, bem como de suas inversões (4J/5J, semitom/sétima maior).

É mesmo fantástico ter esta obra apresentada pela primeira vez no Rio de Janeiro por uma orquestra da qualidade da OSC. Sinto-me imensamente grato pelo convite do Maestro Eder Paolozzi e pelo empenho dos músicos. Afinal, oportunidades como esta são muito raras no Brasil, como são raras as encomendas de obras sinfônicas em geral que, como no caso da Brasília, praticamente se restringem aos concursos de composição ou, de maneira especial, às Bienais de Música Brasileira Contemporânea. Diferentemente de países com maior tradição, onde primeiras audições de obras para orquestra são regularmente programadas em concertos, no Brasil dependemos fortemente das iniciativas dos regentes.

Veja o serviço do concerto aqui.

 

* Mario Ferraro é paulista; venceu diversos prêmios de composição, entre eles o Camargo Guarnieri (2005), três prêmios Funarte (2012 e 2014), e o Prêmio Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro (2012). Fez seu Doutorado em Composição na City University, Londres (2007-2012), com pesquisa sobre Ópera Contemporânea. Já criou três óperas de câmara: The Moonflower (Londres, 2011); Ahaiyuta e o Comedor de Nuvens, sua primeira ópera para crianças (Londres/Rio, 2013); e Medeia, com música e texto de sua autoria, estreada durante a I Primeira Bienal de Ópera Atual – BOA, no Rio de Janeiro, evento do qual foi o idealizador, curador e diretor artístico. Sua música já foi executada por integrantes da London Sinfonietta, da Royal Academy of Music, da Nieuw Ensemble de Amsterdam, do Bard College (EUA), do Quinteto Villa-Lobos, da OSUSP, da Orquestra Sinfônica do Paraná, etc. É professor de Música do Colégio de Aplicação da UFRJ desde 2003.