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Orquestra Barroca da UNIRIO / Foto: Julia Ronai

| Perícia e paixão barrocas

03/10/2016 - Por Arthur Dapieve

O crítico conferiu a apresentação da Orquestra Barroca da UNIRIO na Sala Cecília Meireles, no Rio. "Os músicos fizeram o que se deseja das orquestras barrocas: mantiveram a pureza essencial a algo tão gentil e luminoso".

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Por serem raras em relação à hegemonia romântica, todas as ocasiões para se ouvir música barroca no Rio deveriam ser saudadas simplesmente por existirem. Se, além do mais, elas trazem o conhecimento, a perícia e a paixão da Orquestra Barroca da UNIRIO na apresentação de sábado na Cecília Meireles, dentro da 2ª Semana do Centro de Música de Barroca de Versalhes, bem, nesse caso, a ocasião só pode merecer elogios.

O espetáculo se chamava Do Grande Século ao Século das Luzes. De certa forma, a exatidão histórica do título empalidecia diante do que se ouvia. Porque a razão de ser tanto da OBU quanto do CMBV é ressaltar a atualidade da música dos séculos XVII e XVIII. Assim foi feito, com a apresentação do concerto para violino opus 7, nº 5, em lá menor, de Jean-Marie Leclair (1697-1764), e de uma suíte de peças das óperas Les indes galantes, Hippolyte et Aricie e Dardanus, de Jean-Philippe Rameau (1683-1764).

Em mais de um sentido, o tempo passou voando. Quando repetiu-se Forêts paisibles, de Les indes galantes, com a soprano francesa Katia Velletaz e o tenor Thiago Debossan, violinista da OBU, a plateia teve ímpetos de se unir ao pequeno coro. Como se não tivessem passado 281 anos desde a estreia da ópera-balé com libreto de Louis Fuzelier em Paris. A melodia de Rameau gruda na cabeça como quase qualquer cançoneta do pop contemporâneo. Só que melhor. É Rameau. Ponto para a OBU e o CMBV.

Foi extraído de Les indes galantes outro ponto alto da noite. Na ária Viens, hymen, viens m’unir au vainquer que j’adore, a delicadeza característica da música barroca surgia na conversa entre a voz de Katia, cantora residente na CMBV, a flauta de Laura Rónai, diretora artística da OBU, e o violino de Stéphanie-Marie Degand, diretora musical do espetáculo. Nessas horas, quem precisa do Romantismo?

Stéphanie-Marie merece um parágrafo à parte. Um ano atrás, quase exatamente, ela dividiu o palco da mesma sala com o cravista Bruno Procópio e o violista de gamba François Joubert-Caillet para tocar a integral das deliciosas Pièces de clavecin en concerts, de Rameau. Foi um dos mais belos momentos da temporada 2015. Agora, regendo do instrumento, como era praxe no período barroco, Stéphanie-Marie brilhou ainda mais intensamente, graças não apenas à sua destreza no violino, mas também ao fascinante elenco de expressões faciais e corporais. Um olhar para o alto, e subiam os outros violinos. Um jogar de ombros, e lá vinham os violoncelos.

Menos conhecido que Rameau, Leclair é tratado ora como o “Vivaldi francês” ora como “o inventor da escola francesa de violino”, embora os epítetos me pareçam um tanto conflitantes. Até no movimento lento do concerto em lá menor há um ímpeto rítmico que nos faz saber que Leclair, além de música, estudou dança na Itália. Na obra, assim como nas passagens instrumentais de Rameau, a orquestra carioca fez o que se deseja de uma orquestra barroca: manteve a pureza essencial a algo tão gentil e luminoso.

P.S.: E tem mais, terça, 4 de outubro, às 20h, na Cecília Meireles, ainda na 2ª Semana do Centro de Música Barroca de Versalhes, que por sua vez é parte das comemorações pelos 200 anos da chegada da Missão Artística Francesa ao Brasil. Em Do Iluminismo ao Romantismo, Katia, Stéphanie-Marie, Procópio e Natalia Valentin (pianoforte) apresentam obras de Rameau, Jadin, Rigel, Dauvergne, Grétry e, por que não?, Mozart.