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À esquerda, Martin Graham; à direita, Hanna-Liisa Kirchin é Orfeo; Nazan Fikret é Euridice / Fotos:Matthew Williams-Ellis

| Ópera vai ao campo no verão inglês

04/08/2017 - Por Barbosa Chaves

Festivais como o de Longborough, no sudoeste da Inglaterra, conquistam cada vez mais seguidores e lançam novos talentos da cena lírica. E são uma deliciosa extravagância.

 

Quando as principais casas de ópera da Inglaterra fecham as portas para as férias de verão, a atividade operística se desloca das grandes cidades para o campo. Todos os anos, festivais dedicados ao canto lírico ocupam mansões, parques e teatros construídos em paisagens idílicas em algumas das áreas rurais mais bonitas do país. A reportagem do Tutti Clássicos foi conferir um dos mais disputados, o Festival de Longborough, em Cotswolds, um sítio histórico de grande beleza natural, onde fica a nascente do Rio Tâmisa. Neste ano, o festival apresenta quatro óperas: Tristão e Isolda, Fidelio, Orfeu e Eurídice e A Flauta Mágica.

O Festival de Longborough acontece desde 1991 , mas foi a partir de 2013, no bicentenário de Richard Wagner, que a companhia criada por um simpático casal de milionários ingleses entrou definitivamente no calendário dos amantes do gênero. Naquele ano, Martin e Lizzie Graham produziram o Anel, tetralogia de Wagner que poucas casas de ópera do mundo ousam encenar. Tudo feito sem apoio oficial e zero de patrocínio.

A ousadia do casal Graham chamou a atenção dos jornais ingleses, que consideram a montagem do Anel em Longborough o cúmulo  da excentricidade inglesa. O Times disse que foi  um espetáculo arrebatador e a Spectator considerou a produção um sucesso retumbante. Em entrevista ao Guardian, Martin esnobou: “tem gente que coleciona Rolls-Royces, digamos que esse projeto seja a minha Ferrari”, resumiu o ex-empresário da construção civil, hoje aposentado.

Ao Tutti Clássicos, Martin explicou que a companhia de ópera fundada por ele, que conta com uma orquestra de 70 músicos, recebe hoje generosas doações e tem o apoio de assinantes das temporadas. Mas no início, foi mesmo o idealismo que o levou a levar o projeto adiante. “Quem, senão um maluco como eu, iria inventar de construir um teatro de ópera de 500 lugares, sem patrocínio, sem apoio, mas cheio de confiança no projeto?”, provoca ele.

Sede do Festival de Longborough / Foto: Matthew Williams-Ellis

Maluco, mas pragmático como todo bom inglês, Martin dá a receita do sucesso: “um empreendimento como esse precisa estar a menos de 150 km de Londres, deve estar em uma vasta área com linda vista, tem que ter um bom assessor de imprensa e infinita autoconfiança”. Longborough, obviamente, preenche todos os requisitos.

Nos intervalos das quase 20 récitas deste ano, alguns dos ‘generosos doadores’ que Martin mencionou se misturam ao público que passeia nos jardins da propriedade, alguns em black tie, outros em summer jacket acompanhados de senhoras com vestidos vaporosos e joias extravagantes. Algumas ostentam trajes que parecem comprados em um brechó de Londres.

O programa pode incluir um jantar acompanhado de vinho ou champanhe em tendas armadas em volta do teatro. Os que preferem, trazem o piquenique de casa. Tudo rigorosamente inglês, inclusive o preço. O ingresso mais barato custa cerca de R$ 150. O mais caro chega a quase R$ 600. Sem o jantar, of course.

Orfeu e Eurídice

Hanna-Liisa Kirchin – Foto: Matthew Williams-Ellis

Além da qualidade e ousadia das produções, outro aspecto que contribuiu para a notoriedade do Festival de Longborough foi a revelação de jovens cantores, uma marca da companhia. É o caso de Hanna-Liisa  Kirchin, mezzo soprano que, na edição deste ano, encarna Orfeu na obra prima de Gluck (1714-1787), Orfeu e Eurídice.

“Esses festivais são importantíssimos para a carreira de jovens cantores porque abrem novas oportunidades para que  eles possam cantar para mais gente e ser conhecidos por um público maior”, opina Hanna-Liisa. E acrescenta que teatros pequenos e intimistas,  construídos com todo cuidado acústico, são perfeitos para que a plateia possa ouvir os solistas em condições ideais. “As salas pequenas permitem muito mais comunicação com a plateia”.

Depois de dois meses de intensa preparação vocal e muitos ensaios, Hanna-Liisa levou ao palco no festival deste ano um Orfeu técnico, com uma emoção dosada à inglesa. Ela observa que o papel transita em regiões baixas da voz e exige muita técnica e concentração. “Eu me sinto totalmente confortável e espero que meu Orfeu esteja à altura da música, do texto e da dramaticidade da obra.”

Ainda neste verão, Hanna-Liisa participa da montagem de Jenufa, no Grange Park Opera, outro bem sucedido festival inglês, este no condado de Surrey, no Sudeste da Inglaterra. A jovem mezzo, que já fez seu début na cenário internacional no ano passado, na Ópera Nacional Holandesa, conhece pouco da cena lírica no Brasil, mas diz que adoraria cantar no país. “Se aparecer uma oportunidade, tomo o avião sem pensar duas vezes.”

Glyndebourne

A história dos festivais de ópera na Inglaterra tem em Glyndebourne um marco fundamental. A ópera foi construída 1934 , em East Sussex, no sudeste da Inglaterra, fruto de uma história de amor entre um rico proprietário de terras inglês e uma cantora lírica canadense. Hoje é a casa de um dos mais famosos festivais de ópera do mundo. Na esteira de Glyndebourne surgiram empreitadas parecidas espalhadas por várias regiões do país, atraindo um público cada vez maior e muito fiel. Hoje, os festivais são mais numerosos do que as casas de ópera tradicionais da Inglaterra.

“A plateia fica encantada quando entra em um teatro no qual o palco é maior do que o auditório, de onde é possível ver o branco dos olhos dos cantores”, arrisca Martin Graham ao explicar o sucesso dos festivais de ópera no campo. Ele conta que quando teve a ideia de montar sua própria companhia, contatou dois Georges – Solti e Christie. O lendário maestro disse que ele estava ficando louco. Já o George então à frente de Ópera de Glyndebourne foi mais cooperativo. “Ele disse que eu precisava de ajuda e, de fato, ele ajudou de montão”, relembra Graham.

Além do festival, a companhia de Martin Graham promove workshops em escolas da região para introduzir a ópera a estudantes que têm pouco contato com o canto lírico. Algumas turmas são convidadas a assistir os ensaios para entender a complexa engrenagem por trás de um espetáculo.  “Nós tornamos a ópera mais inclusiva e acessível e, assim, esperamos garantir que essa forma de arte continuará sendo relevante para as futuras gerações”,  explica  Graham.

Para um brasileiro, pode parecer um pouco extravagante encenar uma ópera no meio do nada, numa paisagem bucólica de colinas suaves e vaquinhas pastando. “É uma charmosa extravagância”, concorda uma fiel frequentadora do festival enquanto ajeita sobre os ombros uma ampla capa de veludo preto. “Ir a um desses festivais é uma experiência diferente e uma ótima forma de apresentar a ópera a quem não conhece o gênero”opina a mezzo Hanna-Liisa. Orgulhoso com o sucesso da empreitada que muitos julgavam rematada loucura, o visionário Martin é mais operático: “espalhar esse evangelho em forma de arte é parte da nossa aventura em Longborough.”

 

Orfeu e Eurídice no palco de Longborough / Fotos de Matthew Williams-Ellis