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O Ouro do Reno - La Fura Dels Baus no Palau de les Arts 'Reina Sofía' / Foto:Tato Baeza

| Festival Ópera na Tela 2017 fecha sua maratona de 12 produções europeias no Parque Lage e confirma quarta edição ano que vem

08/11/2017 - Por Barbosa Chaves

Tetralogia de Wagner ‘O anel do Nibelungo’ foi o destaque do evento, que deve chegar a São Paulo no ano que vem

 

Em um ano com poucas produções no Municipal do Rio, o Festival Ópera na Tela, em sua terceira edição, foi uma rara oportunidade para os cariocas conhecerem algumas das melhores montagens das últimas temporadas na Europa. Com um público fiel e carente de bons espetáculos, o festival se firma na agenda cultural da cidade e os organizadores confirmam uma quarta edição no ano que vem, provavelmente também em São Paulo.

Durante 12 dias, o Parque Lage recebeu gravações tecnicamente impecáveis de produções das grandes casas de ópera europeias, com alguns dos maiores cantores da atualidade, como Jonas Kauffmann e Elina Garanca, além de revelações como a mexicana  Karen Gardeazbal, descoberta por Plácido Domingo.

Mas o destaque desta edição do Ópera na Tela foi O Anel do Nibelungo, tetralogia de Wagner que ganhou uma surpreendente montagem do grupo catalão La Fura dels Baus, apresentada na tela do festival em uma maratona de quatro noites e 16 horas de ópera, sob a regência de Zubin Mehta.

Dois momentos da Tetralogia na versão da Fura dels Baus

Seguindo a risca o conceito de ‘arte total’ que caracteriza a ópera segundo o próprio Wagner, o Fura dels Baus mistura tecnologia, circo e teatro de rua em um espetáculo criativo e, por vezes, estonteante.

O Anel, apresentado entre 2007 e 2009 no Palácio das Artes Reina Sofia, de Valência, na Espanha, foi aclamado internacionalmente e recebeu sete prêmios, entre eles o International Classics Music Awards, com um júri composto por críticos de 10 países.

O grupo teatral La Fura dels Baus começou fazendo teatro de rua no fim dos anos 70 e ganhou projeção internacional com a participação na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona. Para a tetralogia de Wagner, o grupo usou (e, às vezes, abusou) de projeções em 3D, aliadas às aparições d uma trupe de acrobatas que se revezam em impressionantes formações, entre elas a teia humana que encerra a primeira das quatro óperas, O Ouro do Reno.

– Acho que a produção do Fura dels Baus combinou com o ambiente de floresta do Parque Lage e, principalmente, ficou muito bem na tela – observou o diretor do Festival, Christian Boudier. Segundo ele, só existem outras duas versões da tetralogia disponíveis em vídeo: uma do Metropolitan, de Nova York,  e outra do Scala, de Milão.

Kauffmann de volta aos palcos

              D. Carlos, foto de cena

Em cartaz na Ópera de Paris até o dia 11 de novembro, Don Carlos, de Verdi, foi exibida no Rio menos de um mês depois de ter sido gravada na Opéra Bastille. O elenco estelar inclui o tenor Jonas Kaufmann, que esteve ausente dos palcos nos últimos meses por problemas de saúde. No auge de sua maturidade vocal, Kaufmann é hoje um dos cantores mais requisitados da cena lírica.

Jonas Kaufmann

–  Tenho a impressão de que os personagens ficaram menos dramáticos devido à língua francesa, que torna as coisas mais sutis e delicadas – observou o tenor pouco antes da estreia, referindo-se ao libreto escrito originalmente em francês para o clássico de Verdi, apresentado pela primeira vez há 150 anos.

A soprano Sonia Yoncheva, que lançou este ano um álbum com árias de Handel, e a mezzo Elina Garanca, outra estrela do momento, contracenam com Kauffmann nesse que já está sendo considerado um dos grandes eventos líricos de 2017.

Raridades

Além de montagens arrojadas e inovadoras e de algumas vozes excepcionais, o festival também apresentou óperas raramente montadas no Brasil. É o caso de Os Contos de Hoffmann, de Jacques Offenbach, em produção da Opéra de Paris. O tenor mexicano Ramón Vargas, com timbre agradável e fôlego inesgotável, contracenou com grande elenco em um espetáculo preciso e sem exageros.

Outra raridade foi A donzela da neve, de Rimski-Korsakov, também da Opéra de Paris. Cantada em russo e baseada em uma conhecida obra da literatura popular eslava, a produção francesa trouxe no papel principal a jovem soprano Aida Garifullina, muito elogiada por sua voz límpida e delicada.

Cena de La Bohème

Já em La Bohème, de Puccini, encenada no espetacular Teatro Antico de Taormina, na Sicília, a mexicana Karen Gardeazal foi ovacionada várias vezes por sua Mimi, que aliou clareza vocal a uma comovente interpretação. Não fosse pela soprano, as imagens captadas no teatro grego – inclusive aéreas – já valeriam o ingresso. Rodolfo ficou a cargo do tenor Massimo Giordano.

São Paulo

O Ópera na Tela atraiu cerca de 2 mil espectadores, que assistiram às produções em um telão de cinema, sob uma tenda armada especialmente para o evento  no meio da Mata Atlântica, no Parque Lage, Zona Sul do Rio. Com o fim da programação no Parque, o festival segue para os cinemas de 20 cidades brasileiras. Na edição de 2016, cerca de 10 mil pessoas assistiram às produções em salas de todo o Brasil.

– Contamos com um público fiel e que cresce a cada ano – comemora Christian Boudier.  O diretor destaca ainda que, além dos habituais amantes da ópera, neste ano algumas sessões atraíram jovens e até crianças, como em  A Flauta Mágica, de Mozart,  produção do Scala.

– A missão foi cumprida e certamente teremos a quarta edição no ano que vem,  aqui no Rio; e talvez cheguemos a São Paulo com o Ópera na Tela, provavelmente nos jardins do Museu da Casa Brasileira – adianta Boudier.