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Orquestra Barroca da Unirio / Foto: Julia Rónai

| Orquestra Barroca da Unirio na Sé: “alma leve, gosto de quero mais”

08/07/2017 - por Jean-Marc Schwartzenberg*

O centro do Rio de Janeiro, na hora do almoço oferece presentes, como a série musical Saraus na Sé, realizada na igreja da rua Primeiro de Março.

 

Meio-dia de uma terça-feira de julho no Centro do Rio. Alheios ao burburinho da cidade, um grupo de músicos se prepara, numa sala nos fundos de uma igreja, para oferecer ao público uma viagem pela música dos séculos 17 e 18. Ecoam na cripta vocalizações e afinações.

É a Orquestra Barroca da UniRio, convidada da vez do programa Sarau na Sé, que vem realizando concertos mensais na antiga Sé do Rio de Janeiro, na rua Primeiro de Março, sempre no horário do almoço.

A plateia – composta de frequentadores da igreja, amigos e familiares dos músicos e um ou outro amante da música – ouviu um programa bem acessível, cuidadosamente escolhido pela orquestra. Dois concertos de Brandemburgo, de Bach, um breve concerto de Telemann, o popular – e não menos lindo – concerto para fagote em mi menor de Vivaldi e, única obra vocal do dia, o Stabat Mater de Lobo de Mesquita. Tudo interpretado com visível envolvimento dos músicos da orquestra, de idades bem variadas.

Cada obra recebe uma breve apresentação oral por parte de algum membro da orquestra.

Elione

É contagiante o envolvimento do solista do concerto para fagote, Elione Medeiros. Ele apresenta não só a obra, mas também seu instrumento – uma delicada réplica de um fagote do século 18 -, explicando a diferença na quantidade de válvulas em relação aos fagotes modernos. E termina afirmando que, agora que toca fagote de época, seria incapaz de interpretar uma obra barroca com um fagote moderno, tão diferente em sua sonoridade.

O concerto de Brandemburgo no. 5, de Bach, tem um longo solo de flauta, violino e cravo, durante o qual o resto da orquestra permanece parado. Pois este momento me proporcionou uma experiência constrangedora: já estamos mais do que acostumados a ver membros da plateia olhando o celular, filmando ou “se distraindo” durante um concerto. Mas confesso que ver um músico da própria orquestra, no palco,  tirando o celular do bolso e olhando suas mensagens enquanto seus colegas tocam o solo do concerto, deixou-me um tanto… desconcertado.

Fechando o programa, o Stabat Mater do brasileiro Lobo de Mesquita, compositor homenageado do dia. Uma obra tão bela quanto curta – que lembra um outro Stabat Mater muito popular, o de Pergolesi – belamente interpretada por um grupo de cerca de oito vozes e pela orquestra, regidos por Patrícia Michelini e deixando um gostinho de quero mais.

Terminado o concerto, caímos de volta no burburinho da rua Primeiro de Março com a alma mais leve, com um sorriso no rosto. Que venham muitos outros concertos da Orquestra Barroca da UniRio – no almoço ou à noite, em igrejas ou não.

*Jean-Marc é executivo e melômano desde criancinha