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Neukomm e a partitura de 'O Amor Brazileiro', arquivo / Rosana Lanzelotte, divulgação

| O músico da Missão Francesa

30/10/2016 - Por Rosana Lanzelotte

A Sala Cecília Meireles apresentou dia 3/11, na sua série Missão Francesa, o concerto 'O Amor Brazileiro', homenagem a Neukomm, músico austríaco agregado ao grupo convocado por D.João VI. A cravista carioca escreve sobre ele.

 

O Rio de Janeiro acabara de se tornar a primeira e única capital de um reino nas Américas, diante da criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em dezembro de 1815. Seguindo a Inspiração de seu colaborador iluminista, o Conde da Barca, D. João VI havia solicitado ao Marquês de Marialva, Embaixador em Paris, a contratação de artistas para dar lustro ao novo Reino. O prestigioso grupo liderado por Philippe Lebreton estava em desgraça na França pós era de Napoleão, que haviam apoiado, e se aproveitou da oportunidade para respirar ares mais amenos no Novo Mundo.

missaoNinguém sabe explicar a razão, mas o navio que os transporta – Calpe – traz ao mastro a bandeira americana. Notícia da Gazeta do Rio de Janeiro de 6 de abril de 1816 nomeava todos os que efetivamente desembarcaram e mais um, o compositor Sigismund Neukomm (Salzburgo,1778 – Paris,1858), que viria dois meses depois, na companhia ilustre do Duque de Luxemburgo, o primeiro Embaixador da França junto ao novo reino.

Austríaco de nascimento, aluno dileto e colaborador de Haydn, Neukomm foi, como ele, um globetrotter. Havia adotado a França como pátria em 1809 e obteve licença de seu mecenas, o Príncipe de Talleyrand, para partir rumo ao Brasil. Já havia colaborado com Lebreton por ocasião do elogio póstumo a Haydn, proferido no Institut de France, que posteriormente, traduzido para o português, seria o primeiro livro dedicado à música publicado em terras brasileiras.

Como Lebreton, Neukomm era Cavaleiro da Legião de Honra, condecoração recebida no Congresso de Viena, dez dias após ter dirigido seu Réquiem  em homenagem a Luís XVI, com participação de dois coros somando 300 cantores.

O compositor chega ao Brasil no auge da disputa entre José Maurício Nunes Garcia (1767 – 1830) e Marcos Portugal (1762 – 1830) pela preferência de D. João VI. Ao contrário da profusão de obras escritas para a Real Capela, frequentada pela corte com assiduidade, não havia música de câmara, música para piano, música para bandas, música sinfônica. Nascido no berço do classicismo, Neukomm inaugura esses repertórios no país.

Inicia ainda a prática que se tornou a marca registrada da produção musical brasileira: a mistura de gêneros clássicos e populares. Inspirou-se na modinha – A Melancolia – de Joaquim Manoel da Câmara para escrever a fantasia L’Amoureux, dedicada ao Barão Langsdorff, cientista alemão, cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro. A residência dos Langsdorff era ponto de encontro dos amantes da música, que se reuniam para tocar as novidades chegadas da Europa. Os saraus aconteciam também na casa do Marquês de Santo Amaro, onde Neukomm passou a residir após a morte do Conde da Barca. Nessas ocasiões solidificou-se a amizade com José Maurício.

Neukomm compôs um Libera me Domine  para concluir a primeira apresentação no continente americano do Requiem de Mozart, ocasião sobre a qual escreve para um dos mais importantes periódicos da época, o Allgemeine Musikalische Zeitung:

A dedicação, com a qual Padre Garcia resolveu todas as dificuldades, para finalmente realizar aqui uma obra prima do nosso imortal Mozart, recebeu o mais caloroso agradecimento dos amantes da arte locais. De minha parte, considero uma obrigação utilizar esta oportunidade para tornar esse homem conhecido em nosso meio cultural europeu, ele que é notado por sua grande modéstia e, provavelmente, graças a esta oportunidade, é a primeira vez que seu nome é citado. Ele tem o mais merecido direito desta honrosa distinção, visto que sua formação é a sua própria obra. […]  A execução do Requiem de Mozart não deixou nada a desejar, todos os talentos colaboraram para tornar o genial Mozart apreciado neste novo Mundo. Esta primeira experiência teve tão bom resultado, que esperamos que não seja a última.

O compositor escreveu no total 70 obras no Brasil, entre as quais 14 peças para pianoforte, 11 para pequeno conjunto de câmara e 18 para bandas, além das duas primeiras sinfonias. Em 1819, compõe O Amor Brazileiro, capricho sobre um lundu dedicado à sua aluna Mademoiselle Donna Maria Joanna d’Almeida.

Encantado pelo talento do violeiro Joaquim Manoel da Câmara, Neukomm registra vinte de suas modinhas, publicadas quando de seu retorno a Paris em 1821. Trata-se de um dos únicos registros da música tipicamente brasileira do início do séc. XIX, e o único testemunho da arte do modinheiro.

Além do Príncipe D. Pedro, Neukomm foi professor de Francisco Manoel da Silva, autor da melodia consagrada como hino nacional brasileiro. Coincidência ou não, a Fantasia para flauta escrita por Neukomm em Paris em 1823, pouco após deixar o Brasil, inclui a melodia mais marcante do referido hino, composto por Manoel da Silva em 1831.

Neukomm decide retirar-se do país três semanas antes de D. João VI, em abril de 1821. Em sua autobiografia afirma o quanto havia sido feliz em terras brasileiras. A tristeza da partida é ilustrada pelo texto da canção Addio, que escreve a bordo da fragata Matilde, pouco antes de partir:

Peço-vos perdão amigos, se não me despedi / com minha dor e com meu pranto não vos queria perturbar /Desejo, então, que os acordes do céu tragam dias serenos e honrados / que o zelo, com o coração agradecido não cessará de implorar./ Adeus, adeus.

NOVEMBRO 3 – QUINTA-FEIRA – SCM – 20H

SÉRIE MISSÃO FRANCESAUM AUSTRÍACO NO LUNDU: SÉRIE MISSÃO FRANCESA TRAZ A MÚSICA DE SIGISMUND NEUKKOM

Recital O Amor Brazileiro, com obras de Sigismund Neukomm, compositor austríaco que esteve no Brasil entre 1818 e 1821.

Olivier Baumont, Rosana Lanzelotte, pianoforte
Julien Chauvin, violino
Alberto Kanji, violoncelo
Participação especial: Jean-Paul Lefèvre (como Sigismund Neukomm)

Programa

Obras de Sigismund Neukomm

Marcha Triunfal – Allegro brillante – Trio

Sonata para pianoforte a 4 mãos – Allegro / Andante / Allegro Vivace

O Amor Brasileiro, capricho para pianoforte sobre um lundu brasileiro

Sonata para pianoforte e violino – Allegro ma non troppo / Andante con moto / Allegro alla turca

Noturno para piano, violino e violoncelo – Andante, quasi Adagio /- Andantino e Variações /- Presto

L’Allegresse Publique

Duração: 80 minutos

Serviço:
Largo da Lapa, 47 – Centro
Ingressos na bilheteria da Sala: R$ 40,00 (R$ 20,00 para estudantes e idosos, R$ 2,00 para estudantes de música que apresentem a carteirinha)
(+55) 21 2332-9223