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Gabriela Geluda em "Na boca do cão"/ Foto: Dalton Valério

| O medo nosso de cada dia: “Na Boca do Cão” – por Ricardo Tacuchian

24/06/2017

O compositor Ricardo Tacuchian escreve sobre a primeira ópera de Sergio Roberto de Oliveira, em cartaz até 30/7 no CCBB do Rio: "o cão é o fantasma que nos segue".

 

R. Tacuchian

O espetáculo de Sergio Roberto de Oliveira (música), Geraldo Carneiro (libreto) e Bruce Gomlevsky (mise en scène) representa o medo nosso de cada dia. Um medo que acompanha o homem desde os tempos imemoriais e o seguirá pela eternidade. É a paráfrase do medo universal. O cão é o fantasma que nos segue, fora de qualquer dimensão de tempo ou espaço: um segundo pode representar uma eternidade (“o cão abocanhou a cabeça da menina/por alguns segundos minutos séculos/por toda a eternidade. A menina nunca se esqueceu/daquela escuridão/na boca do caos/na boca do cão”).

Mas se o espetáculo é uma paráfrase deste medo primevo, para o soprano Gabriela Geluda deixa de ser uma metáfora para ser a própria realidade. A mulher e a atriz se confundem porque esta é a própria história da diva Geluda. Através de seu canto, ela exorciza seu medo do cão que a abocanhou quando tinha dois anos. E este medo é transmitido para toda a plateia que é dominada pela redenção dos males do mundo através da arte. A arte redime? É Geluda quem responde: “Sim, a arte cura, a arte sublima, a arte liberta, a arte transforma…”

Fazer um espetáculo com estes ingredientes psicológicos, com apenas uma cantora no palco, três instrumentistas num intrincado novelo sonoro (Ricardo Santoro, violoncelo, Cristiano Alves, clarinetas, e Leo Sousa, percussão) e com a duração de uma hora, é um desafio quase intransponível. Oliveira, Carneiro e Gomlevsky conseguiram esta proeza, mantendo o espetáculo sempre tenso e hipnótico. Sem dúvida, Gabriela Geluda foi a grande estrela da noite. Ela canta, ela representa, ela dança, ela treme, ela se contorce, sempre de modo convincente. Só falta ela voar, mas a plateia levita o tempo todo. Não é apenas uma cantora com recursos vocais especiais; é uma atriz que se entrega de corpo e alma ao texto. E neste caso, é mais que uma atriz: é ela mesma, pois trata-se de sua própria história. Gomlevsky explorou todos os recursos corporais da cantora/atriz, mas no palco só usou um pão, bíblico e ancestral, como única alegoria: o pão nosso de cada dia.

Faço uma referência especial à direção de iluminação (Elisa Tandeta) que sublinhou de forma elegante todos os momentos dramáticos da trama. O cenário minimalista (Fernando Mello da Costa) não poderia ser mais essencial pois não possuía nada a não ser umas cortinas onde Geluda se enrolava e quase sumia. A própria essencialidade da linguagem visual.

Uma última palavra sobre a música de Sérgio Roberto de Oliveira. Ela é de uma riqueza desconcertante, com um mínimo de recursos sonoros. A música ora é do tipo through-composed, isto é, em contínuo prosseguimento, sem nenhum suspiro cadencial mas apenas sublinhando o drama exposto pelo soprano, ora é uma música com estruturação frasal, construída através do desenvolvimento de motivos temáticos, com pontos de repouso. O violoncelo dialoga com a clarineta ou o clarone, num contraponto sempre elegante, com expressivas linhas melódicas, sobre um background fornecido pelo vibrafone ou pela caixa grave. A forma musical é o que poderíamos chamar de um Grande-Lied ou uma Ópera-Lied, pois não existem diálogos entre os personagens, como na ópera convencional mas, sim, uma narrativa.

Oliveira é um compositor maduro, senhor de sua linguagem e que, de forma econômica, soube tirar o melhor proveito do texto do poeta Geraldo Carneiro e dos poucos, mas ricos recursos sonoros que tinha à sua disposição. Enfim, um trabalho de mestre. Música contemporânea e extremamente comunicativa com qualquer tipo de público. Sérgio Roberto de Oliveira, a partir do medo de Geluda, exorciza seu próprio medo e nos dá a redenção para nossos pânicos.

Saí do teatro mais leve, mas mesmo assim com medo do caos da noite, com medo do cão, não aquele melhor amigo do homem, mas das sombras que rodeiam a humanidade nos dias em que vivemos. Entretanto, ainda resta uma esperança, como canta a Geluda, através das palavras de Geraldo Carneiro “quando eu canto saio da boca do cachorro/o canto é um grito de socorro que deixa de ser só meu/é como se eu cantasse/ todas as dores do mundo (…) como se o cão fosse somente/ o guardião da alegria da cidade”.

E assim a noite me fica mais clara.

*Ricardo Tacuchian é compositor e professor