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A montagem de 'O Quebra-Nozes' do Bolshoi, transmitida para os cinemas / Divulgação

| O inquebrantável Quebra-Nozes

14/12/2016 - Por Barbosa Chaves

Razões que tornam o balé criado há 124 anos um grande sucesso de bilheteria nos dias atuais

 

    Ilustração do livro de Dumas – 1845

Mais um fim de ano e, como já é tradição, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro dedica metade do mês de dezembro ao balé O Quebra-Nozes, com música de Tchaikovsky, baseado numa adaptação de Alexandre Dumas para a história O Quebra-Nozes e o Rei dos Ratos, do escritor russo E.A.T. Hoffman. E não é só aqui. Em Nova York, Paris, Londres ou Moscou, a peça é obrigatória na programação de fim de ano.

A história não é das mais criativas. Uma garotinha ingênua e meiga ganha de presente de Natal um quebra-nozes em formato de boneco que, mesmo quebrado, ganha vida, derrota um exército de ratos e acaba em um reino mágico cheio de guloseimas. Ao fim do sonho, o desengonçado apetrecho, devidamente endireitado, se materializa, é claro, num belo príncipe. Com um enredo tão singelo, por que esse balé tornou-se um dos mais famosos de todos os tempos e ainda é destaque nos principais teatros?

Algumas razões explicam a popularidade d’O Quebra-Nozes. A primeira é óbvia – trata-se de uma história natalina que reforça o espírito dominante nesta época do ano. O segundo trunfo da obra é, certamente, a música de Tchaikovsky. Apesar de uma estreia pífia em São Petersburgo, em dezembro de 1892, a suíte sinfônica de 20 minutos extraída da composição original foi um tremendo sucesso.

A Valsa da Flores é uma das peças mais executadas do compositor russo. E tornou-se ainda mais popular ao ser usada, em 1940, na trilha sonora de Fantasia, clássico da animação de Walt Disney. O Grand Pas de Deux também é bastante conhecido e faz parte do repertório de quase todos os bailarinos clássicos.

Jogadas de marketing

Mas há também boas jogadas de marketing por trás das centenas de apresentações em todo o mundo – só o New York City Ballet chega a ter mais de 40 por temporada. Uma dessas estratégias para atingir um público mais amplo é creditada ao lendário coreógrafo George Balanchine, que apesar de russo, é considerado o pai do balé americano.

NYC Ballet – 1954

Acostumado a dançar os principais papéis da peça ,  Balanchine decidiu criar, nos anos de 1950, sua própria coreografia. Da verba inicial de que dispunha para a montagem, gastou mais da metade numa gigantesca árvore de Natal. Para ele, a árvore despertava lembranças ternas dos natais de sua infância, sentimentos agradáveis que, seguramente, conquistariam o público. “O Quebra-nozes é a árvore”, teria dito para justificar a extravagância. Deu tão certo que o tradicional enfeite natalino continua dominando o cenário nas repetidas versões do NYCB.

Além da árvore, Balanchine achou que destacar a participação de bailarinos infantis também ajudaria a engordar o borderô. Afinal, crianças no palco agradam às crianças da plateia. E cada uma dessas vem, normalmente, acompanhada de pai, mãe, irmãos, tias etc. Bom para bilheteria e ótimo para a perpetuação da peça como mais um símbolo da maior festa cristã celebrada em família.

Mesmo dèjá-vu, O Quebra-Nozes é sempre um bom programa para quem, espontânea ou forçosamente, embarca no espírito do Natal. E com uma breve explicação prévia do enredo, as crianças costumam adorar. A montagem do Municipal tem coreografia de Dalal Achcar, de 1981, com orquestra e corpo de dança do teatro.

Apresentações no Municipal do Rio:
– 16, 17, 20, 21, 22, 23, 27, 28, 29 e 30 de dezembro, às 20h
– Domingo, 18, às 17h

‘O Quebra-Nozes’ de Dalal Achcar no Rio / Divulgação