|

Marina Considera e Richard Bauer em " O Guarani" / Fotos: Netun-Lima

| ‘O Guarani’, de Carlos Gomes, ganha montagem em Minas Gerais

9/11/2016 - Por Debora Ghivelder

Após 14 anos, obra retorna ao Palácio das Artes nesta quinta, para homenagear compositor brasileiro nas datas redondas de nascimento e morte.

 

Antônio Carlos Gomes (1836-1896) passou para a história como o mais famoso compositor de óperas brasileiro. Foi também o primeiro compositor nascido no Novo Mundo a ter seu trabalho reconhecido na velha Europa, em especial na Itália, berço do gênero. Não foi pouca coisa. Assim, é mais do que natural, praticamente uma obrigação, que as principais casas líricas do país programem obras do repertório do artista – que figuram de maneira muito bissexta na programação em tempos mais recentes – neste 2016, ano em que se lembram seus 180 de nascimento e 120 de morte.

A Fundação Clóvis Salgado, de Belo Horizonte, integra-se às celebrações com a montagem, no Palácio das Artes, da mais famosa ópera do repertório de Carlos Gomes. O Guarani, baseada no romance homônimo de José de Alencar, estreia nesta quinta (10), para cumprir uma temporada de seis récitas, até 20 de novembro, após um intervalo de 14 anos distante daquele palco.

A montagem tem direção musical e regência de Silvio Viegas e concepção, direção cênica e cenografia de Walter Neiva. Conta com a Orquestra Sinfônica e o Coral Lírico de Minas Gerais. O elenco é liderado pelos brasileiros Marina Considera e Richard Bauer, que emprestam voz ao par Ceci e Peri. Reúne ainda os solistas José Gallisa e Mauro Chantal (Dom Antônio), Michel de Souza e Eduardo Sant’Anna (Gonzales), Lucas Ellera (Rui Bento), Matheus Pompeu (Dom Álvaro), Savio Sperandio (Cacique) e Pedro Vianna (Alonso).

Versão compacta

O espetáculo, seguindo uma tendência adotada pela casa mineira, será apresentado em uma versão mais compacta, com pouco menos de duas horas de duração (sem contar os 15 minutos do único intervalo). Coube ao maestro Silvio Viegas o desafio de reduzir a partitura sem causar prejuízo à narrativa dramática:

– O objetivo era reduzir ao máximo O Guarani. Ouvi mais de dez gravações diferentes Fiz uma pesquisa histórica. Adotei todos os cortes tradicionais para deixar o espetáculo bem palatável. Quem não conhece a obra vai jurar que a ópera é daquele jeito, porque tudo está lá e nada mutila a música.– garante Viegas. – A versão completa tem algo em torno de 2h45min. A de Roberto Duarte, que fez todo aquele trabalho de resgate da obra, chega a 3h20min.

Walter Neiva, que regressa após 20 anos ao Palácio das Artes – montou Pedro Malazarte, de Camargo Guarnieri, em 1996 – para assinar a direção cênica deste O Guarani, adianta que a sua concepção não segue por uma linha tradicional.

– Visualmente, optei por um caminho mais poético. A cenografia tenta fugir dos castelos, calabouços, florestas exóticas, tão comuns nas encenações tradicionais. O cenário [também de sua autoria] é um grande livro em torno do qual a ação se desenvolve. Procuro valorizar a música através da disposição cênica. O coro está agrupado no palco em dois andares. Isto possibilita ao público perceber a divisão de naipes e a arquitetura musical. Faço uso de projeções de luzes mas não de imagens.

Não é a primeira vez que o diretor encena o título. Em 2000, assinou produção do Municipal paulistano.

– Sou um diretor que não tem um estilo único e definido. Trabalho sempre com o objetivo de tornar a história mais clara para o público. Muitas vezes a concepção subjetiva do diretor é o que dá ibope. Mas, não é o que busco. Quanto mais eu conseguir envolver o público, mais satisfeito vou ficar.

Carlos Gomes travou conhecimento com a obra de José de Alencar ainda na Itália, comprando a versão traduzida da história – originalmente escrita como folhetim – nas ruas de Milão. Após a memorável estreia no Alla Scala, de Milão, em 1870, o sucesso da trama romântica que envolve o índio Peri e a filha de portugueses Cecília, ambientada no século XVI, cercada por conflitos indígenas, disputas, traições e heroísmo, foi imenso. A ópera viria a ser encenada ali mesmo diversas vezes, transformou-se no título mais conhecido de Carlos Gomes e legou a Peri/Ceci o icônico pedestal de par romântico no nosso ideário nacional. Marca indiscutível também se estabeleceu pela famosa protofonia, conhecida de todos e alçada à trilha sonora de abertura do programa de notícias do governo A Hora do Brasil.

– Carlos Gomes foi um músico excepcional. É nosso dever dar mais espaço à sua obra em nossa programação. Temos resgatar esta cultura, que é nossa, deixada de lado por gestores culturais – finaliza Silvio Viegas.

Imagens da montagem (fotos de Netun Lima/Divulgação):