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OSBM e Daniel Guedes / Foto: Fabrício Resende

| Vitória de Barra Mansa em formar músicos e público

14/10/2016 - Por Luciana Medeiros

No domingo, 16/10,eles tocaram na Sala Cecilia Meireles. São sete grupos fixos, 100% dos alunos da rede fundamental com aulas de música, agenda forte de apresentações e o apoio de estrelas ao projeto iniciado por Vantoil de Souza

 

No domingo, 16/10, quando a Orquestra Sinfônica de Barra Mansa subiu ao palco da Sala Cecília Meireles, no Rio, o público viu e ouviu uma parte dos resultados do Projeto Música nas Escolas – a “face mais visível de um vigoroso empreendimento cultural e social” , nas palavras de seus diretores, que há doze anos leva a música a toda uma cidade.

O concerto foi uma parte delicada – estavam em cena 45 músicos, metade da orquestra de 92 figuras, encarando ali um compositor que exige alta precisão e refinamento: Bach. Esse foio terceiro concerto da OSBM na Sala em 2016, uma série construída a partir do convite do diretor da casa carioca, Jean-Louis Steuerman. Daniel Guedes, regente associado, conduziu o concerto.

– É importante para a formação da Orquestra tocar peças de estilo e estrutura estética bem definidas, além das mais grandiosas – explica

André Oliveira / Foto Gustavo Otero

André Oliveira / Foto Gustavo Otero

André Oliveira, produtor executivo do grupo desde 2007 – E esse convite veio a calhar para o desafio, já que dispúnhamos dos 45 lugares de um único ônibus. Fizemos um programa Beethoven em junho, outro com peças de Ravel e Schubert em julho. Com a noite Bach, trouxemos pela primeira vez o cravo para a OSBM. Muitos dos alunos não conheciam o instrumento e o público de Barra Mansa ouve pela primeira vez, na repetição local deste concerto no dia 18.

O programa trouxe o Concerto de Brandenburgo nº 5, o Concerto em Lá Maior para Cravo, o Concerto de Brandenburgo nº 3 e se encerra com a Suíte nº 3, a “da famosa ária, dos casamentos”, lembra André.

– A nobreza e a alegria de Bach estão sendo um desafio para o pessoal de Barra Mansa – atesta. – Temos que oferecer uma paleta sonora variada para a experiência dos músicos ser vasta.

A gestação da ideia de transformar a cidade num polo de ensino e produção da música começou em 2002, quando Vantoil de Souza promovia concertos na Assembleia de Deus local e conseguiu a atenção do então prefeito, Roosevelt Brasil, também frequentador. Foram iniciadas negociações e criadas estratégias através da Fundação de Cultura, sob a responsabilidade do professor de história Luiz Augusto Mury, para aprovar um projeto de ampliação da música no município, ligando a iniciativa à área da Educação, inclusive com verbas federais destinadas ao treinamento de professores e a equipar escolas de 1ª à 9ª série.

– O Vale do Paraíba tem um DNA da música em conjuntos, tradição de bandas e fanfarras – avalia André Oliveira. – Os primeiros passos foram criar as bases para atingir todas as escolas do ensino fundamental e recrutar músicos da região, comprar instrumentos e organizar polos de ensino de naipes. E seguiu-se desenvolvendo em várias direções, coordenado por Vantoil de Souza, diretor artístico e regente titular, foi o idealizador e fundador do projeto e seus grupos instrumentais.

Mais de 20 mil crianças

Contabilizam-se em 2016 todas as 72 escolas na região e mais de 20 mil crianças e adolescentes tendo contato com a música através de instrutores e monitores. Isso significa uma taxa de 100% de atendimento.

– Embarquei no projeto depois de convocação do pianista barra-mansense Luis Gustavo Torres – relembra. – Cheguei num fevereiro escaldante para ouvir o grupo de umas 80 figuras, que ensaiava num galpão totalmente inadequado, debaixo de um calor insuportável. Tocavam a Sinfonia Inacabada de Schubert. Eu via 70% de mulatos na composição da orquestra. Chorei.

Era 2007. André, experiente produtor, se engajou num projeto de progresso piramidal, atraindo mais músicos de renome para ensinar a instrutores que repassavam os conhecimentos aos alunos. Entre esses músicos da primeira leva estavam Ana de Oliveira, Ubiratã Rodrigues, David Chew, Fernando Bru, Elione Medeiros, João Luiz Areias, Philip Doyle, Rodrigo Foti e Paulo Mendonça. Guilherme Bernstein entrou como regente associado.

Nesse ano, a OSBM se apresentou pela primeira vez no Municipal do Rio e a esse concerto se seguiram muitos outros: MIMO Festival, Festival do Vale do Café, Campos do Jordão, acompanhamento de companhias internacionais de balé como o Bolshoi e o Mariinski (ex-Kirov).

Hoje, realizam uma temporada de dez concertos anuais na Igreja Matriz, além das apresentações dos outros sete conjuntos estáveis: Banda Sinfônica, Orquestra e Banda Infanto-Juvenil, o grupo de percussão Drum Lata, uma Big Band jazzística, Banda Marcial e conjuntos de câmera. Entre os nomes que apoiaram, estão Isaac Karabtchevsky – que fez dois concorridos concertos ao ar livre na cidade -, o pianista irlandês Barry Douglas, cantores como Eliane Coelho, Edna d’Oliveira, Edineia de Oliveira, Fernando Portari, Rosana Lamosa, regentes internacionais como Günther Neuhold, Alastair Willis e Mikhail Agrest, entre muitos outros.

– O público de Barra Mansa conta com essa programação e atende aos chamados dos carros de som, a principal forma de divulgação local. Fizemos dois concertos com muita resposta do público, pelo natural cruzamento do pop com o clássico – o de Rock Sinfônico e outro de trilhas de cinema. Mas nossos maiores desafios em termos de repertório foram a Sinfonia nº 1, de Mahler e a Sagração da Primavera, de Stravinsky. Fizemos, como celebração do 10º ano da Orquestra, a Sinfonia nº 5, de Shostakovitch.

O patrocínio direto da Prefeitura de Barra Mansa – “tivemos 12 anos de continuidade e interesse, depois disso tem sido uma negociação a cada eleição” – se soma aos patrocínios da Light, da CCR Nov Dutra, White Martins, Votorantin e Saint Gobin, através da Lei Rouanet.