|

| O ano de 2016 na música clássica e na ópera no Rio de Janeiro

28/12/2016 - Por Thiago Regotto

O gerente da Rádio MEC FM, que vive o dia a dia da notícia na única emissora de música clássica carioca, faz um apanhado do ano, destacando os eventos mais importantes, a crise e vitórias no setor.

 

Em 2016, celebramos nosso maior operista, Carlos Gomes, pelos 180 anos de nascimento e 120 de morte. Pela primeira vez, a ópera Lo Schiavo em sua versão integral foi montada no Municipal do Rio. Pelo volume da produção e pela importância do compositor, ouso dizer que seria quase obrigatório montar uma ópera de Carlos Gomes toda temporada.

Esta temporada de 2016, aliás, começou prometendo muita coisa boa, especialmente na diversidade de repertório assegurada nos anúncios do início do ano. Mas teatros, salas, orquestras e projetos tiveram que se ajustar à realidade da crise financeira – e, em alguns casos, crise institucional. Houve um remanejamento, ou melhor, um corte. No caso da OSB, corte drástico, ceifando quase metade da temporada. No final das contas, tivemos cumprido algo como 50 por cento do que havia sido anunciado. Isso pontuou o ano, em especial o segundo semestre.

Lo Schiavo no TMRJ / Foto Julia Ronai

Além da montagem de Lo Schiavo pelo TMRJ, com direito ao balé suprimido em outras versões, aconteceu em setembro a Bienal de Ópera Atual, uma iniciativa da Funarte e do compositor Mario Ferraro, discutindo cenicamente novos formatos do gênero. O próprio Municipal teve uma boa produção: nove títulos, incluindo as grandes montagens como D. Quixote, o próprio Schiavo, Orfeu e Eurídice, uma Bohème em concerto e as montagens da Academia Bidu Sayão (da qual vamos falar ainda). A Jenufa, de Janacek, teria sido mais uma novidade estrutural, já que seria coproduzida pelo Municipal, em parceria firmada com o Theatro São Pedro (para o Quixote).

Jenufa é a deixa para falar da crise do estado, responsável pela manutenção do Municipal e da Sala Cecília Meireles. No primeiro, a falta de pagamento de salários empurrou Jenufa para março de 2017 e adiou também, sine die, a ópera infantil de Tim Rescala que seria apresentada em dezembro, O Boi e o Burro a Caminho de Belém. A paralisação dos Corpos Artísticos foi suspensa para que se apresentasse o tradicional Quebra-Nozes, balé que cumpriu a tradição de casas lotadas. Os funcionários fizeram o dever de casa e também mantiveram a transparência, deixando o público a par do esforço para realizar aquela temporada. Aplausos para eles.

A instabilidade também marcou o ano da Sala Cecilia Meireles, que não pôde apresentar toda a programação anunciada. Mas trouxe recitais espetaculares, como a estreia no Brasil da difícil Mantra de Stockhausen, para dois pianos, e a série de Música da Missão Francesa, com a colaboração de Rosana Lanzelotte.

                OSB / foto: Cicero Rodrigues

A Orquestra Sinfônica Brasileira representou uma montanha russa de emoções ao longo do ano. A crise dramática que se instaurou de vez no segundo semestre não apagou o brilho dos concertos que conseguiram ser apresentados. A Sheherezade, de Rimsky-Korsakov, em maio, no Municipal, em programa conjunto com Jogos Sinfônicos, de João Guilherme Ripper – mostrou momento de grande confiança da orquestra. A OSB vive a necessidade de reconstruir a sua história. É preciso vencer os desafios de carregar uma tradição muito grande e buscar novos rumos. Desejamos sorte!

Com tudo isso, fica uma lição – é necessário pensar no financiamento da música clássica e da ópera. Deixar tudo nas mãos do estado, do poder público, produz essas distorções que estamos vendo e o planejamento artístico não se cumpre.

Alguns pontos altos do ano: um deles, a atuação da Academia de Ópera Bidu Sayão, no Municipal; o teatro criou uma escola para novos talentos líricos, uma iniciativa em falta, sob a batuta de Eduardo Alvares e Priscila Bomfim, apresentando dois espetáculos profissionais. Outro ponto alto foi o Concurso Internacional BNDES de Piano, emocionante, super bem organizado, concedendo bolsas de estudo e criando estrutura, e que provou como é importante investir em continuidade para dar chance à aparição de talentos.

Termino falando da Petrobras Sinfônica porque o ano de 2016 consolidou, na programação deles, a proposta de “orquestra fora da caixa”. Artística e administrativamente, a Opes se fez notar tanto no quesito tradicional, com suas séries de concertos, quanto nas mudanças de abordagem, levando os músicos para as ruas, cervejarias, shoppings. Eles são muito cariocas no melhor sentido, abraçaram a cidade com projetos como o Concerto Secreto, que surpreende as pessoas ao fazer acontecer a música em locais inusitados. E estão buscando e conseguindo uma sustentabilidade financeira que vá além do patrono máster, naturalmente a Petrobras.

Penso que o exemplo pode servir para outras instituições. Por que não colocar um telão na nova Avenida Rio Branco, com seu boulevard, e transmitir os eventos para o público? Abraçar a cidade com a música, levá-la ao colo de quem passa no VLT? Arte tem que dialogar com a cultura e com o espaço urbano.

E que 2017 nos traga mais alegrias musicais.