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| O ano de 2016 na música clássica e na ópera em São Paulo

28/12/2016 - Por Irineu Franco Perpétuo

O crítico, jornalista e tradutor faz um balanço do ano musical em São Paulo, destacando grandes presenças, efemérides e as ameaças de cortes que assombram a mudança de mandato na Prefeitura.

 

O meio musical paulista começou 2016 chorando a perda de Gilberto Mendes – e terminou o ano temendo a extinção da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo e da Orquestra Jazz Sinfônica, além  de cortes que podem comprometer a temporada do Theatro São Pedro e prejudicar mesmo a joia da coroa, a Osesp. Entre as tragédias inevitáveis que fazem parte da vida e os desastres indefensáveis proporcionados pela política, aconteceu, porém, muita coisa digna de elogio, em um meio musical cujo vigor parece desafiar as vicissitudes.

A faceta mais visível e glamurosa foram as séries de concertos internacionais. A Sociedade de Cultura Artística abriu o ano no mais alto estilo, com a superlativa Filarmônica de Viena, regida por ninguém menos que Valery Gergiev, e não deixou a peteca cair, em apresentações memoráveis do Quarteto Ebène, Leif Ove Andsnes e de orquestras europeias sólidas como Tonhalle (com Nelson Freire), Filarmônica de Hamburgo e Gulbenkian (com Antonio Meneses). O Mozarteum Brasileiro não deixou por menos, trazendo o arrebatador tenor Jonas Kaufmann e uma constelação que incluiu o violino de Gidon Kremer, o violoncelo de Mischa Maisky e o piano abençoado de Nelson Freire.

Paul Lewis / Youtube

Na Osesp, fizeram-se sentir os cancelamentos de algumas das estrelas da temporada, como Xavier de Maistre e Sol Gabetta, mas, em compensação, Paul Lewis brilhou na integral dos concertos para piano de Beethoven. O noticiário sobre o Teatro Municipal, lamentavelmente, migrou para as páginas policiais, porém, mesmo em um ano com o estigma do escândalo, ainda viu sua Orquestra Sinfônica Municipal tocar em alto nível em uma sólida produção russa da ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de Chostakóvitch. Ainda na cena operística, o Teatro São Pedro começou o ano em altíssimo astral, com uma montagem da ópera Don Quichotte, de Massenet, que empolgou público e crítica especializada; infelizmente, porém, vieram os cortes, e a temporada perdeu o fôlego.

       Sinfônica de Heliópolis / Foto: MarcosBizzotto

Se os cortes provocam justa preocupação quanto a nosso futuro musical, ele por outro lado parece brilhante e promissor quando olhamos para as iniciativas de formação. O Instituto Baccarelli festejou 20 anos com pleno vigor e exuberância, e o privilégio de ter um nome do quilate de Isaac Karabtchevsky para compartilhar sua experiência com os jovens músicos. A Orquestra Jovem do Estado de São Paulo continua atraindo instrumentistas de talento e realizando uma temporada de peso – nesse ano, tocou com nomes como Nelson Goerner e Nicolas Koeckert -, sob o comando firme de Claudio Cruz. Cruz, aliás, empenhou a batuta mas não se esqueceu do violino, como demonstra o excelente disco de estreia do Quarteto Carlos Gomes, dedicado a Alberto Nepomuceno. As notas de programa do CD, por sinal, são assinadas por Flo Menezes, que celebrou uma efeméride digna de nota: os 20 anos de sua Bienal Internacional de Música Eletroacústica.

Fazendo as contas, apesar de todos os pesares, tivemos em São Paulo um ano musical intenso, rico e diverso. Seria realmente uma pena se nossos gestores, em 2017, ignorassem toda essa vitalidade e, com a tesoura sempre afiada, optassem pela substituição da música pelo silêncio.