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| Novo CD traz gravações históricas de Callas ao vivo

27/10/2017 - Por Barbosa Chaves

Lançamento da Warner Classics inclui grandes momentos da soprano que morreu há 40 anos, mas ainda tem uma legião de fãs e segue na lista dos mais vendidos

 

Maria Callas, considerada por muitos a maior cantora lírica de todos os tempos, morreu há mais de quatro décadas, em setembro de 1977. Suas gravações, no entanto, continuam na lista das mais vendidas entre os discos de ópera. Morta, Callas vende mais do que muitos cantores líricos contemporâneos. E com tecnologias de remasterização  mais sofisticadas,  cada  lançamento revela novas facetas dessa extraordinária artista.

O mais recente é ‘Maria Callas live and alive’, da Warner Classics, um CD  duplo que acaba de ser lançado no Brasil trazendo gravações ao vivo de apresentações da soprano entre 1949 e 1964 em algumas das maiores casas de ópera do mundo.

Curiosamente, a primeira faixa registra uma das últimas grandes apresentações de Callas interpretando Vissi d’arte, da ópera Tosca, de Puccini, em uma gravação de 1964, na Royal Opera House, de Londres.

Esse teria sido um dos últimos triunfos de Callas nos palcos. Nos anos seguintes, a cantora trocou os teatros pelo jet set internacional, frequentemente acompanhada do armador grego Aristóteles Onassis, por quem nutriu uma paixão fulminante. Nas poucas vezes que voltou à cena lírica, Callas parecia uma sombra do que fora no auge da carreira.

Scalla de Milão

Callas cantou pela primeira vez no lendário Scalla, de Milão, no início da dácada de 1950 e lá passou mais de uma década, estrelando produções que entraram para a história da ópera, sob a direção de mestres como Luchino Visconti e Franco Zeffirelli.

A caixa da Warner Classics traz alguns desses momentos memoráveis, como a aria Ah! No credea mirarti, da ópera La Sonnambula, de Bellini, regida por Leonard Bernstein.

Ainda com a orquestra do Scala, sob a regência de Tulio Serafin, Callas interpretou Turandot, de Puccini, em 1957. A capa do CD “Callas live and alive” traz uma foto da soprano em uma produção de Turandot nos anos 50.

Em Milão, Callas exibiu um repertório extraordinariamente amplo, abrangendo desde de clássicos de Gluck, Mozart e Cherubini, passando por obras primas do bel canto de Bellini, Rossini e Donizetti, até as peças dramáticas, de Verdi, e veristas, de Giordano. A ela se atribui o mérito de ter revitalizado várias obras que tinham caído no esquecimento, principalmente as do bel canto.

De Gluck, o CD traz uma magistral interpretação de O Sventurata Ifigenia, da ópera Ifigenia in Tauride, gravada em mono em 1957. Também em mono, uma excepcional Lucia de Lamermoor  gravada em 1955, em Berlin, com regência de Karajan. Nas quatro arias incluídas no CD, entre elas Regnava nel silenzio, Callas exibe uma técnica vocal poucas vezes alcançada por outras cantoras que também interpretaram Lucia.

Aida

Uma das gravações mais antigas do CD  é a de Aida, de Verdi, no Palácio de Bellas Artes do México, em 1951, em que Callas canta Ritorna vincitor e O Re, pei sacri numi…Gloria all’Egit. São dessa temporada algumas apresentações memoráveis, em que o alcance de sua voz deixou os críticos extasiados.

No ano seguinte, a soprano faria seu debut em Covent Garden, em Londres, com uma lendária interpretação de Norma, na ópera de Bellini. Sua Casta diva – registrada na primeira faixa do CD 2 – tornou-se referência para as futuras cantoras que se aventuram no papel. “Ninguém pode igonorá-la”, vaticinou um crítico do Times na época.

Quase todas as gravações foram feitas em mono e, por isso, os ouvidos mais sensíveis podem estranhar o resultado final. Apesar da boa remasterização, que melhorou muito a qualidade e clareza da voz, às vezes, os ruídos da plateia incomodam e, em outras faixas, alguns naipes da orquestra soam abafados.

Ainda assim, a caixa com os dois CDs da Warner Music vale como registro de alguns dos melhores momentos na carreira de Maria Callas, com as perdas e ganhos inerentes a uma gravação ao vivo. E contribui para imortalizar o mito da cantora lírica mais influente do século XX, que ainda mantém um séquito de fiéis seguidores em todo o mundo.