|

Lionel Bringuier e Nelson Freire à frente da Tonhalle / Foto: Renato Mangolin

| Freire, irretocável mas sem fagulha; Tonhalle brilha em Mahler

17/10/2016 - Por Arthur Dapieve

O conjunto suíço traz ao Municipal do Rio sua interpretação da 'Titã'; o pianista mostra uma leitura mais distanciada da peça de Schumann

dapieve-3x4Deixou-me uma sensação estranha a apresentação de Nelson Freire na noite de sábado (15) do Theatro Municipal, com a orquestra Tonhalle, de Zurique, sob a regência do francês Lionel Bringuier. O Concerto para piano em lá menor, opus 54, de Schumann, está no centro do repertório romântico, repertório no qual o brasileiro se sente em casa e é um dos maiores ases contemporâneos. Freire, inclusive, já o gravou, em 1968, junto à Filarmônica de Munique, com Rudolf Kempe na batuta. Algo, porém, sugeria que parte do intérprete não estava presente ao Municipal. Não a cabeça, pois sua técnica esteve irretocável, como sempre. O coração, talvez. Houve certo distanciamento emocional.

A limpidez das linhas fornecidas pela Tonhalle na obra de Schumann também favoreceu uma exposição metódica, mais clássica, em contraste com uma interpretação arrebatada, mais romântica (que se pode ouvir na supracitada versão de 1968, incluída na caixinha The complete Columbia album collection, de sete CDs). O tema nostálgico que marca toda a obra, do início ao fim. A alternância de estados de espírito no Allegro affettuoso, a delicadeza camerística do Andantino grazioso, emendado no final feliz do Allegro vivace. Orquestra e maestro forneceram apoio ainda noutro sentido: os músicos saudaram Freire com entusiasmo na entrada e o aplaudiram com fervor na saída. Bonito.

E, no entanto, faltou algo. Uma fagulha, uma distensão. A concessão de um único bis – a já tradicional Dança dos espíritos abençoados, de Gluck, que Freire “herdou” de sua incentivadora Guiomar Novaes – ao público que o ama apontou na mesma direção do distanciamento. Ali, Freire optou por continuar na sua zona de conforto.

No final de setembro, a casa de Freire no bairro do Joá, Rio de Janeiro, foi assaltada. O pianista excursionava fora do país, em turnê pela Austrália, mas quem lá estava sofreu com a brutalidade dos criminosos. Um amigo e assistente foi esfaqueado. É impossível estabelecer taxativamente uma ligação entre o trauma e a apresentação no Municipal, inclusive porque Freire é um artista profissional. Mas artistas profissionais também são humanos, ou não seriam artistas, mas tão somente máquinas de ler partituras. Qualquer um ficaria abalado, ainda mais alguém da sensibilidade de Freire… Seja como for, a interpretação menos romântica pode simplesmente ter sido uma opção estética.

Antes de o pianista subir ao palco, a Tonhalle incluira de última hora na apresentação da Série O Globo/Dell’Arte a abertura da ópera L’italiana in Algeri, de Rossini, meridional até a medula. Depois do Schumann e do intervalo, viria a pós-romântica Sinfonia nº 1, em Ré maior, a chamada Titã, de Mahler. Foi então que a orquestra de fato brilhou, façanha ainda mais notável porque esta é a obra do austríaco mais ouvida nos palcos cariocas. Faz parte do trabalho de uma boa orquestra e de um bom maestro tornar o familiar diferente, e vice-versa, chamar atenção para passagens que já estavam ali, claro, mas que não tinham sido ressaltadas por outros conjuntos.

A Titã surge das brumas, três trompetes tocando dos bastidores, ao longe, antes de um sol metafórico nascer, afirmativo. O segundo movimento é um sarcástico ländler, dança aparentada à valsa. O terceiro, uma irrupção de gênio, Mahler dizendo duas coisas ao mesmo tempo: uma marcha fúnebre criada a partir da melodia da canção infantil francesa Frère Jacques se enrosca numa festiva melodia judaica, morte e vida. A Tonhalle não respeitou a recomendação do compositor para que os músicos tocassem com “toda crueza, frivolidade e banalidade do mundo”. Foi um terceiro movimento mais ordenado que o costumeiramente ouvido. Por isso, revelador de sua carpintaria.

No quarto movimento, o mais longo, sob a indicação Stürmisch bewegt (algo como tempestuosamente agitado), Mahler flexiona os músculos que trabalharia pelo resto da vida sinfônica: cria drama de tensão e beleza quase insuportáveis. No Municipal, a Tonhalle respondeu muito bem às demandas da partitura, valendo-se de excelentes naipes de percussão, madeiras e, sobretudo, metais.

Embora seja a orquestra mais antiga da Suíça, formada em 1868, a Tonhalle só passou a se destacar no cenário mundial quando o americano David Zinman se tornou seu regente principal, em 1995. Seu ciclo completo das sinfonias de Beethoven está entre os melhores gravados nos últimos vinte anos, junto com o registrado por Riccardo Chailly à frente da orquestra do Gewandhaus, de Leipzig. O francês Bringuier, de apenas 30 anos, sucedeu Zinman em 2014. Tem se mostrado um talento a ser acompanhado.

P.S: ainda estou no encalço da animada peça de um compositor suíço (?) que a Tonhalle Zürich tocou no bis.

P.S. do P.S: no bis, foi tocado um arranjo de Florian Walser para Evivva i soci, música folclórica suíça. Há uma apresentação dela em Londres, a última de Zinman no pódio da Tonhalle, aqui: