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O violinista Daniel Guedes com a OSB: tudo pelo bem da orquestra/Fotos:Divulgação

| Música em tempos de crise – Daniel Guedes toca com a OSB

03/10/2016 - Por Debora Ghivelder

O violinista abre mão de cachê para se apresentar com a Orquestra Sinfônica Brasileira em 15 de outubro

Com um déficit orçamentário de R$ 15,5 milhões – R$ 5 milhões oriundos do ano passado e R$ 10,5 restantes para fechar o ano de 2016.- a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) chegou a anunciar o cancelamento dos concertos do final da  atual temporada. Mas, em um esforço conjunto, músicos e direção resolveram manter algumas das apresentações programadas. Entre estas, está a de 15 de outubro, na Cidade das Artes, que trará o violinista Daniel Guedes à frente do Concerto para Violino em Ré Maior, Op. 35, de Tchaikovsky. O músico faria o programa também no Theatro Municipal, mas as récitas no palco do Centro do Rio foram suspensas. Daniel não está cobrando cachê para se apresentar com a orquestra, que será regida pelo maestro residente, Lee Mills.

— Tenho uma história longa com a OSB. A primeira vez que fiz um solo com a orquestra, eu tinha 13 anos. Conheço muita gente que passou ou que ainda está por lá, e eu mesmo integrei a orquestra por um ano. Por isso, fiquei muito sensibilizado ao saber da situação da OSB, do que vem passando e do quanto está ameaçada. Disse que podiam contar comigo. De todas as orquestras, a OSB foi a que mais me deu oportunidades, a que mais me acolheu – conta Guedes, 39 anos, nome forte do violino brasileiro.

Além da apresentação com Daniel Guedes – o programa traz também Finlândia, de Sibelius e a Quinta Sinfonia de Tchaikovsky – a OSB tem mais dois concertos planejados até o final de 2016. Um em 23 de outubro e um no final de novembro. A seleção musical vai ser fechada ainda, mas o primeiro deve trazer uma obra do compositor carioca Rodrigo Cicchelli e a Quarta Sinfonia de Brahms.

– Mantivemos os concertos na Cidade das Artes porque, ao contrário do que acontece no Municipal, lá não temos de pagar aluguel a cada apresentação. Temos um contrato anual. Os eventos, portanto, não representam  custo extra – explicou o diretor artístico da OSB, Pablo Castellar. – Além disso, montamos para estes concertos, uma programação alternativa, com obras que estão em domínio público e que não demandam contratação de músicos extra quadro.

Futuro incerto

Com 76 anos de existência e mais de 5 mil concertos realizados, o futuro da mais tradicional orquestra brasileira segue incerto. O orçamento para 2016 era de R$ 26 milhões, mas de 2015 para 2016, com a crise financeira que assola o país, a orquestra perdeu metade dos patrocínios. Segundo a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira (Fosb), a Prefeitura do Rio contribuía regularmente com um valor médio de R$ 6 milhões/ano, que era utilizado para custear diversas despesas. Contudo, de 2013 até 2015, o valor total aportado foi de R$ 9 milhões. Para 2016, a instituição afirma ter um termo de convênio assinado com a Prefeitura no valor de R$ 2,5 milhões, mas o repasse ainda não foi concretizado. Segundo a diretoria da Fundação, apesar de ainda não ter recebido o aporte da prefeitura, a Fosb está otimista e confia que a Prefeitura compreende a situação da orquestra e certamente está buscando formas de contribuir.

Para sobreviver, ainda segundo a diretoria, é preciso captar os R$ 15,5 milhões necessários para fechar o ano. No médio e longo prazo, será necessária a captação de novos recursos e manutenção dos já existentes. Segundo a diretoria da Fundação, “caso esse cenário não se concretize, se realmente chegarmos a esse ponto, corremos o risco de perder um grande patrimônio brasileiro, um dos maiores ícones da cultura nacional e carioca que há mais de sete décadas representa a diversidade cultural brasileira, promove nossos artistas, preserva a memória de nossa música, e que possui uma longa tradição de contribuição à sociedade na área educacional “.

Daniel Guedes junta seu violino e sua voz à causa:

– Faço isso movido pelo carinho e pela perplexidade de ver a OSB em uma situação dessas. Esta é a mais tradicional orquestra do Brasil. E seria uma tragédia para o Rio e para o país ela acabar.