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Foto: Pedro Ladeira

| “Música de câmara do mais alto nível”: Ana Cecilia Tavares e Marcelo Fagerlande

29/05/2017 - Por Irineu Franco Perpétuo

O crítico analisa o CD 'Originais e Transcrições', da dupla de cravistas, com obras de Bach, Couperin e Boismortier, que "constroem um discurso sonoro encantador na fluência e texturas".

 

Johann Sebastian Bach (1685-1750) é uma espécie de tônico miraculoso, que cura males de todos os tipos – inclusive um que acomete com frequência os melômanos, o purismo excessivo. Como se sabe, Bach  se esbaldava em fazer novos arranjos de obras suas e de outros compositores, pelo mero prazer de abrir novas possibilidades de execução de partituras que o encantavam. Com ele, o fetiche da obediência cega a uma inescrutável “intenção original” do compositor cedia ao puro deleite do prazer musical.

Nesse sentido, os cravistas Ana Cecília Tavares e Marcelo Fagerlande demonstram a mais elevada fidelidade ao espírito do autor da Paixão Segundo São Mateus em Transcrições, novo álbum da dupla, que traz, como o nome indica, versões “alternativas” (mas sem nenhum elemento de “pós-verdade”) de obras consagradas. “Bachianos brasileiros” por excelência, Tavares e Fagerlande haviam registrado, para o Selo Clássicos, A Arte da Fuga, para dois cravos – uma versão tão legítima quanto qualquer outra, já que Bach não deixou instrumentação especificada para sua obra-prima (confira a dupla tocando a obra aqui). Dessa vez, a finalidade do disco é puramente hedonista: adotam-se transcrições “pelo prazer de ouvir e tocar determinada obra em um instrumento específico”, como assume Fagerlande no agradável e informativo texto do encarte do disco. Uma lufada de ar fresco em meio ao pedantismo preciosista que por vezes assola o meio da música “historicamente informada”.

O repertório traz três compositores da primeira metade do século XVIII, e Bach leva, previsivelmente, a parte do leão. O disco começa com uma transcrição de Kenneth Gilbert do célebre Concerto de Brandembugo No 6, originalmente apenas para cordas graves, e glória do repertório Barroco de violas. Já a outra criação do compositor alemão é, curiosamente, a versão que se considera “original”, porém menos difundida: o Concerto a dois cravos BWV 1061a, que os bachianos de carteirinha conhecem com acompanhamento de cordas e, por vezes, até tocado ao piano.

O Bach de Tavares e Fagerlande é sólido e idiomático, mas devo confessar que o que me conquistou mesmo o coração foi sua leitura de Le Parnasse ou L’Apothéose de Corelli, de François Couperin (1668-1733). Trata-se de uma peça sem instrumentação especificada pelo compositor: navegando pela internet, é possível encontrar diversas versões, quase sempre incluindo cordas (como esta , ou esta). No texto do encarte, Fagerlande afirma que, no prefácio da partitura, o compositor sugere que ela pode ser executada a dois cravos – e, ao ouvi-la com o duo, é difícil imaginar que outra versão seja possível ou desejável. Os cravistas realizam música de câmara do mais alto nível, ouvindo-se e complementando-se o tempo todo, e construindo um discurso sonoro encantador na fluência e texturas.

Ao final do disco, a Chaconne do balé Don Quichotte chez la Duchesse, de outro francês,  Joseph Bodin de Boismortier (1689-1755), soa como o bis ligeiro que coroa um recital bem pensado e bem executado.