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Montagem com imagens de Silvestre Revueltas, Leo Brouwer, Piazzolla e Ginastera

| Muito além de Piazzolla – música de concerto das Américas está no rádio

13/12/2016 - Por José Schiller

"A produção da música de concerto latino-americana é de uma riqueza e uma diversidade assombrosas, e merece ser conhecida, cultivada, adotada por nossos intérpretes, gravada e divulgada".

 

O boom da cultura latino-americana nos anos 1960 revelou aos brasileiros – e ao mundo – a riqueza de nossa literatura continental, com García Márquez, Júlio Cortázar, Miguel Puig, Vargas Llosa, Miguel Ángel Astúrias, Alejo Carpentier e tantos outros na linha de frente, assim como a diversidade da música popular, e lá vêm Mercedes Sosa, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Vitor Jara etc. Esse continente afirmou na arte sua capacidade de manter a individualidade na resistência a situações adversas, agravadas pelas ditaduras militares em vários países do continente.

Considerando a influência dos ritmos americanos e latinos na música popular de todo o mundo, porque não buscar a presença desta força criativa na música de concerto das Américas, tentar entender sua participação no processo de construção de nossa identidade cultural? É disso que eu trato aqui, apresentando a série de programas de rádio Américas em Concerto. Mas primeiro vamos ao túnel do tempo.

A humanidade viveu centenas de milhares de anos transmitindo oralmente seu conhecimento e valores. O surgimento da escrita, não mais do que cinco mil anos atrás, revolucionou todo este processo. Mais do que permitir o registro de suas histórias, engendrou novas formas de construção, organização gráfica, visual. Ou seja, trouxe recursos diferentes dos necessários para a memorização apenas.

Séculos depois, a invenção da imprensa marca nova revolução com a popularização: a produção em tiragens democratizavam o acesso aos textos. A música europeia é marcada pela conquista da escrita, pela notação gráfica em partituras que perpetuam o acervo, assim, como a palavra escrita, mas principalmente permite a criação de técnicas de composição – como as fundamentais de retrógrado (escrever um trecho de trás para a frente), inverso (escrever “de cabeça para baixo”, inverter a direção das notas da sequência original), inverso do retrógrado.

Enfim, a notação e a visualização escrita propiciaram determinados processos só possíveis nesse contexto.

Agora é o caso de pensar: as Américas foram incorporadas ao mapa-múndi depois de Gutenberg ter criado a imprensa. Nós aqui não vivemos essas revoluções, nem a da escrita nem a da impressão em escala. Os colonizadores europeus, ainda que tenham trazido esta bagagem, estavam distantes de suas metrópoles, dos processos e transformações que continuavam em curso lá. Tiveram que se adaptar a novas condições de vida, ao meio ambiente tropical, criar uma estrutura de sobrevivência em regiões totalmente por construir.

A convivência e confronto com os nativos locais, os índios, e com a população escrava vinda da África eram fatores determinantes na vida do “novo continente”. Em maior ou menor escala, a miscigenação, a adoção de valores e hábitos culturais, influenciaram decisivamente o imaginário dos povos americanos. Tanto os indígenas quanto os africanos têm sua cultura marcada pela tradição oral. Somada a um processo de fixação do colonizador distanciado da metrópole de origem, desenvolve-se aqui uma cultura sincrética, original.

Na música, adotamos padrões rítmicos, melódicos, harmônicos que mesclam a base europeia aos elementos dos povos que convivem na formação do continente. Inclusive, e especialmente, a criação espontânea, a tradição oral e intuitiva, que impregna o processo de criação dos mais “eruditos” dos compositores de música de concerto.

Enquanto a música popular européia se esgotava e minguava, refém da preponderância da cultura escrita, explorando à exaustão recursos derivados da organização gráfica, a tradição oral garantiu a diversidade e a força criativa da música em nosso continente. Com a invenção do disco, foi possível registrar e massificar esta música não escrita, popular, intuitiva. Não é por acaso que ritmos como o maxixe, o tango, o bolero, a rumba, o ragtime, o foxtrote, o mambo, o jazz, a salsa, o reggae, ditaram moda e influenciaram a música popular de todo o mundo ocidental em ondas sucessivas ao longo de todo o século XX. Os ritmos e formas desta música popular começam a influenciar os próprios compositores europeus. Stravinsky, Ravel, Milhaud são apenas alguns exemplos da presença de nossa música na mais alta literatura musical a partir de então.

O programa Américas em Concerto foi criado na Rádio MEC e veiculado semanalmente por mais de nove anos. Em seu décimo ano, integra a programação da Roquette-Pinto, 94,1MHz. A proposta é divulgar a produção musical de concerto das Américas, com abertura para aquelas que transitam entre o popular e o clássico.

É bom lembrar: ainda temos pouco acesso aos grandes compositores do nosso continente. Conhecemos alguns nomes significativos dos Estados Unidos. No máximo um ou outro da América hispânica: Astor Piazzolla (cada vez mais presente no repertório das orquestras e conjuntos, nas temporadas de concerto em todo o mundo) e Alberto Ginastera (Argentina), Carlos Chávez e Silvestre Revueltas (México), Agustín Barrios (Paraguai), Leo Brouwer (Cuba). Não muitos mais.

Pensei num programa dedicado à música de concerto das Américas para oferecer uma abordagem original e um repertório rico e variado para os ouvintes – sejam pesquisadores, músicos, estudantes, seja o público mais leigo e interessado. O programa se enriquece com entrevistas periódicas e a presença de músicos brasileiros – muitos deles, lançando no programa e no Brasil peças de compositores dos três continentes. Mais do que divulgar, cabe estimular os músicos e o público a adotarem esta música em suas agendas e concertos.

Esta produção musical está fortemente ligada ao processo de construção de nossa identidade cultural, falando em termos de Américas. É o que temos em comum, o que temos de específico e peculiar em cada local, povo, país. É de uma riqueza e uma diversidade assombrosas, e merece ser conhecida, cultivada, adotada por nossos intérpretes, gravada e divulgada. É o que de mais original se tem a oferecer ao cenário da música de concerto internacional.

Américas em Concerto – Rádio Roquette-Pinto, 94,1MHz – domingo, 21h –

Contato: americasemconcerto@gmail.com

Link para ouvir em tempo real.

Link para o acervo (programas anteriores)

 

José Schiller, músico, produziu, roteirizou e dirigiu séries musicais por 35 anos na TVE/TVBrasil, os últimos A Grande Música e Partituras. Produtor de séries radiofônicas na MEC-FM, e atualmente do programa “Américas em Concerto” na Roquette-Pinto, 94,1MHz. Pesquisador da música de concerto latino-americana. Desenvolve projetos musicais e de vídeo independentes com conjuntos e solistas, como o ABSTRAI ensemble, Cia. Bachiana Brasileira e outros.