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| Morre no Rio o musicólogo Vasco Mariz, aos 96

16/06/2017

Maris é uma das maiores personalidades da música de concerto no Brasil, dono de trajetória singular na vida musical nacional. Abaixo, artigo do presidente da Academia Brasileira de Música escrito esse ano para o Tutti Clássicos

 

Vasco Mariz percorreu uma trajetória singular na vida musical brasileira. Após formação no Conservatório Brasileiro de Música, iniciou promissora atividade como cantor lírico, que o levou a recitais no Brasil, Estados Unidos e Itália. Paralelamente percorreu o caminho da diplomacia, carreira iniciada ainda na década de 1940. Uma terceira vertente de sua trajetória foi a musicologia, cujo início se deu como articulista do Jornal do Commercio e do Correio da Manhã, com o incentivo de Andrade Muricy e Eurico Nogueira França. Convencido da incompatibilidade da carreira diplomática com a vida itinerante de cantor lírico, decidiu encerrar prematuramente sua vida de intérprete, hoje conhecida apenas através de discos antigos, onde deixou registradas canções de diversos compositores brasileiros.

A carreira diplomática, no entanto, abriu para Vasco Mariz novas perspectivas. Exerceu diferentes funções no Itamaraty, dentre elas o de chefe do Departamento Cultural. Ocupou postos nas embaixadas e consulados do Brasil em países como Argentina, Peru, Equador, Chipre, Israel, Portugal, Itália e Alemanha. Foi delegado brasileiro em instituições como a ONU, a OEA e a Unesco, onde foi presidente do Conselho Interamericano de Música. Tornou-se, assim, um verdadeiro embaixador da música brasileira, conciliando suas obrigações institucionais com o apoio e incentivo aos criadores nacionais, promovendo a execução de obras, a organização de eventos e a publicação de livros.

Seu trabalho como musicólogo seguiu a trilha aberta por nomes como Renato Almeida e Luiz Heitor Correa de Azevedo. O primeiro prefaciou seu livro de estreia, o Dicionário Bio-Bibliográfico Musical, publicado em 1948. No mesmo ano lançou, em Portugal, Figuras da Música Brasileira Contemporânea e A Canção de Câmara no Brasil. Já Luiz Heitor assinou o prefácio do pioneiro Heitor Villa-Lobos, Compositor Brasileiro, publicado em 1949 pelo Ministério das Relações Exteriores. Nas décadas seguintes, suas obras foram constantemente reeditadas, sempre ampliadas e atualizadas.

Em 1981, surgiu seu livro mais importante, História da Música no Brasil, mais uma vez prefaciada por Luiz Heitor. É, sem dúvida, uma obra referencial, na qual desenvolveu uma visão de conjunto de nossas atividades musicais, desde o período colonial, sempre se valendo das muitas relações pessoais que estabeleceu com diferentes gerações de compositores brasileiros.

Manteve-se ativíssimo após deixar a carreira diplomática, não só continuando a escrever e publicar novas obras, como também preparando novas edições de seus principais trabalhos, que hoje se encontram traduzidos para o inglês, francês, espanhol, italiano e russo. Na Academia Brasileira de Música, onde ingressou em 1981, teve importante atuação na reformulação da instituição ao ser eleito presidente. Ao longo de sua carreira recebeu inúmeros prêmios, condecorações e homenagens de instituições como a Academia Brasileira de Letras, a Academia Paulista de História e a Associação Paulista dos Críticos de Arte. É membro do Pen Clube do Brasil, da Academia Carioca de Letras, da Academia Brasileira de Artes e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Continua a produzir novas obras, dedicando-se também aos assuntos históricos e diplomáticos, em publicações como Ensaios Históricos (2004), A música no Rio de Janeiro no tempo de D.João VI (2008), Temas da Política Internacional (2008), Nos Bastidores da Diplomacia (2013), Os franceses na Guanabara (2015) e Pelos caminhos da História (2015).

Em 2016 Vasco Mariz completou 95 anos. Em dezembro daquele ano mereceu as homenagens de seus confrades acadêmicos e do meio musical brasileiro através de um concerto protagonizado pelo barítono Inácio De Nonno e o pianista Flávio Augusto no Espaço Guiomar Novaes da Sala Cecília Meireles, ocasião na qual foram apresentadas algumas das canções a ele dedicadas por compositores brasileiros de diferentes gerações como Francisco Mignone, Fructuoso Viana, Camargo Guarnieri, Guerra-Peixe, Osvaldo Lacerda e Almeida Prado. Foi um momento muito especial, no qual os dois fabulosos intérpretes resgataram o jovem artista que, ao renunciar ao canto, abriu espaço para o diplomata e musicólogo que se tornou uma grande personalidade da cultura brasileira.

André Cardoso é Presidente da Academia Brasileira de Música, Diretor Artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e Docente da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro