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Lo Schiavo: No Municipal após 17 anos Foto: Divulgação

| ‘Lo Schiavo’ em versão mais próxima da original do autor

19/10/2016 - Por Debora Ghivelder

Montagem do Municipal do Rio adota partitura revisada por Roberto Duarte, que rege o espetáculo, com direção cênica de Pier Francesco Maestrini

 

Ao contrário de outras óperas de Carlos Gomes – compositor que é lembrado em 2016 pelos seus 180 anos de nascimento e 120 de falecimento – , sempre encenadas primeiramente na Itália, Lo Schiavo estreou no Rio de Janeiro, no então Imperial Theatro D. Pedro II, em 27 de setembro de 1889, às vésperas da Proclamação da República. E nunca foi vista em palcos italianos. Mesmo sendo o segundo título mais montado do repertório do compositor brasileiro, somam-se longos 17 anos de ausência dos palcos do Theatro Municipal, mais tradicional casa lírica do Rio.

O jejum está prestes a terminar: Lo Schiavo sobe à cena no Municipal nesta sexta (21), para cinco récitas (até 29/10). Essa montagem traz uma diferença importante: a versão apresentada se vale da nova edição da partitura preparada pelo maestro Roberto Duarte para a Funarte. O próprio Duarte assina a direção musical e estará à frente da Orquestra Sinfônica e do Coro do Theatro. A direção cênica está a cargo de Pier Francesco Maestrini.

Fernando Portaria e Adriane Queiroz./ Foto: Julia Rónai.

  Portari e Queiroz – Foto: Julia        Ronai.

O elenco de solistas é formado integralmente por cantores brasileiros: as sopranos Adriane Queiroz (Ilara) – a paraense radicada na Alemanha há mais de uma década e estrela da Staatsoper Berlim – e Cláudia Azevedo (Condessa de Boissy); o baixo-barítono Rodolfo Giuliani (Iberê), o tenor Fernando Portari (Américo), o baixo Saulo Javan (Conde Rodrigo) e o barítono Leonardo Páscoa (Gianfera). A montagem conta ainda com a participação da primeira bailarina Karen Mesquita à frente do Corpo de Baile do Theatro Municipal e de alunos da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa.

Encenada pela primeira vez no Municipal em 1917, Lo Schiavo tornou-se título presente na casa: até hoje foram 21 temporadas com 49 representações, que atingirão o número de 53 nesta sua 22ª temporada. Com libreto assinado pelo italiano Rodolfo Paravicini, escrito com base no argumento de Alfredo d’Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay, a história segue o amor entre a escrava índia Ilara e Américo, filho do Conde Rodrigo. Ilara é forçada a casar-se com o também índio e escravo Iberê. O espetáculo vai ser montado de maneira completa, com a inclusão de danças que foram abandonadas nas encenações ao longo do tempo.

– Achamos que montar a ópera na sua inteireza era fundamental. E Lo Schiavo não é obra que tem sido muito vista. Ainda mais desta forma. Não gosto de fazer coisas já vistas, mas nesse caso há estas questões a serem consideradas. Também busco um requinte visual impactante. Uso uma mistura de cenários e projeções – diz Pier Francesco Maestrini, que conta para a missão, com o cenógrafo espanhol Juan Guillermo Nova, o figurinista italiano Alberto Spiazzi, e o iluminador paulista Fábio Retti.

Vinte e quatro compassos a mais

Roberto Duarte levou trabalhou de 2001 a 2002 para revisar a partitura de Carlos Gomes para a Funarte. A tarefa, segundo ele, foi de 95 por cento de revisão, e 5 por cento de recuperação. Agora, por conta desta temporada, ele voltou a se debruçar sobre a partitura.

– Para estas apresentações resolvi refazer todo o trabalho, melhorando-o e acrescentando 24 compassos existentes somente na primeira versão da redução para canto e piano, editada na Itália com Carlos Gomes ainda vivo. Reformulei totalmente a parte de piano na redução para canto e piano, tornando-a ainda mais próxima da ideia orquestral – explica o maestro, que acredita ser esta versão mais próxima da originalmente criada por Carlos Gomes. – Os chamados “cortes tradicionais” foram reincorporados à partitura. As danças do segundo ato serão todas apresentadas e à última cena foram acrescentados os 24 compassos já citados.

O fato de trechos da ópera terem sido suprimidos ao longo do tempo se deve a alguns fatores, como enumera o maestro:

– O manuscrito original foi extraviado. Existem duas cópias manuscritas que não são de Carlos Gomes e duas versões da redução para canto e piano feitas pelo compositor. Os chamados “corte tradicionais”, como as danças e vários trechos repetidos, foram feitos por economia no orçamento e também para reduzir a duração do espetáculo.

Muito já se falou sobre o fato de a história trazer como personagens escravos índios e não negros. Afinal, a obra foi escrita após a Abolição da Escravatura no Brasil, em 1888, e dedicada à Princesa Isabel. Certas versões sustentam que a sugestão de ter um personagem índio teria sido de empresários italianos. Outras afirmam que Carlos Gomes não quis se indispor com gente importante. Seja como for, é clara a veia abolicionista e Lo Schiavo fez de Carlos Gomes representante musical do fim da era escravocrata no Brasil.

Polêmicas à parte, a sétima ópera do compositor é considerada das melhores produções de Carlos Gomes, cujo famoso e inspirado interlúdio musical Alvorada é bom exemplo. Trata-se de partitura de difícil execução e ostenta cerca de duas horas e trinta e cinco minutos de música, reafirma o maestro Roberto Duarte:

– Para o personagem principal, Iberê, trata-se literalmente de uma obra de fôlego, pois sua participação é longa e intensa, com trechos que exigem um grande preparo vocal e interpretativo.

O Municipal oferece ainda, na tarde da estreia da ópera, junto com a Academia Brasileira de Música, o Colóquio Carlos Gomes 180 Anos, na Sala Mário Tavares, no prédio anexo ao teatro. Além da apresentação do Projeto Carlos Gomes, que tem por objetivo maior a elaboração de um catálogo eletrônico de obras do compositor, pesquisadores apresentarão conferências sobre aspectos da vida e da obra do músico. A entrada é gratuita.

(Serviço das récitas do Schiavo no calendário do Tutti – dias 21, 23, 25, 27 e 29)