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Miguel Proença / Divulgação - nos detalhes, Eliane Coelho, Atalla Ayan, Sonia Goulart, Paulo Szot e Koh Kameda

| Um esfuziante Miguel Proença anuncia os projetos para a Sala Cecilia Meireles

13/06/2017 - Por Luciana Medeiros

Séries lírica e orquestral, montagem de pocket-óperas, criação de uma comenda da Sala e até um concurso: "orçamento? eu me viro!"

 

No domingo, 4 de junho, o pianista e atual diretor da Sala Cecília Meireles estava agitadíssimo, andando de um lado para o outro. Era o anfitrião do concerto que recolhia fundos para os músicos da OSB.

– É uma situação inglória! Ofereci a casa para eles, claro. E sugeri a Sinfonia do Novo Mundo [de Dvórak] para o programa, simbolicamente um novo começo.

Chamado ao palco pela Comissão de Músicos, Miguel ressaltou que a Sala estava de portas abertas e queria que a OSB fosse uma espécie de “orquestra residente” da Sala.

A energia esfuziante desse gaúcho de Quaraí, de 78 anos completados em 27 de março, é bem conhecida. Dono de uma risada fácil e de uma conversa rápida, Proença assumiu a direção da Sala em meio à maior crise financeira que o Estado do Rio já viveu e aos desconfortos de uma troca de equipe tida pelo meio musical como arbitrária na mudança de Secretario de Cultura. A Sala, subordinada à Funarj e à Secretaria de Cultura, não escapa das incertezas.

Penderecki

Mesmo assim, ele anuncia uma programação que tem até um concurso. Entre as novidades, a vinda do compositor e regente Krzysztof Penderecki ao Rio para um encontro com músicos e para receber uma comenda recém criada pelo pianista, com a autorização do secretário André Lazaroni: a Medalha Sala Cecília Meireles.

– Não recebi ainda quase nada da manutenção do prédio, mas vamos em frente. Eu me viro. Eu confio nas minhas ideias. Não me desafia! – diz Miguel, sentado num botequim próximo da Sala, em frente ao tradicional copo de café.

– Miguel está entusiasmado sim e dou total apoio para que ele continue pautando ótimos programas, pois é isso que a população quer e merece – aplaude o secretário de Estado de Cultura, André Lazaroni. – Os concertos estão tendo ótima receptividade por parte do público. Sobre a programação a longo prazo é uma iniciativa válida, pois apesar da crise do Estado do Rio de Janeiro há previsão que a ajuda do Governo Federal se concretize e vamos conseguir regularizar todas as questões pendentes e oferecer uma programação com ainda mais qualidade.

Ele desfia os projetos que está querendo implantar. O primeiro já estreou: é a Série Lírica, de recitais de voz e piano com grandes nomes brasileiros do bel canto, que foi aberta com o jovem tenor paraense Atalla Ayan e Priscila Bomfim  dia 28 de maio. Os próximos convidados estão definidos.

– Teremos a soprano  Eliane Coelho dia 23 de julho, o barítono Paulo Szot dia 18 de agosto e o tenor Fernando Portari em 24 de setembro – desfia ele. –  O público carioca ama ópera, ama o bel canto!  E há poucos títulos no Municipal. Na Alemanha, a cada dia tem uma montagem diferente.

Szot, que esteve no Rio em 2015 pela última vez, manda um recado carinhoso: “Estou muito feliz com o convite da Sala Cecilia Meireles para fazer meu primeiro recital  no Rio de Janeiro. Juntamente com o brilhante pianista Nahim Marun, faremos um programa diversificado do clássico ao contemporâneo”. Já Atalla Ayan volta ao Brasil como convidado de outra série – a Pocket Opera. Três eventos estão selecionados. O primeiro é uma montagem de A Voz Humana, de Poulenc, dia 2 de setembro, montagem apresentada em São Paulo com a soprano Tati Helène, com direção de Roberto Alvim e direção musical de Emiliano Patarra.

– Serão sempre títulos que podem ser feitos com piano ou, no máximo, orquestra de câmara – descreve. – Teremos poucos elementos cênicos.  Não temos dinheiro nem espaço, não temos nem coxia. Vamos jogar com a imaginação do diretor. O segundo título dessa série não posso revelar ainda, de jeito nenhum  E o terceiro, marcado para abril do ano que vem, vai ser La Bohème, de Puccini, com Atalla Ayan e uma cantora que vai ser escolhida em um concurso.

Para descobrir um novo talento que será a Mimi desta pocket Bohème, haverá audições a partir do segundo semestre.

Outra série anunciada é uma parceria com a Orquestra Petrobras Sinfônica. São dois concertos. O primeiro, dias 28 e 29 de julho, terá o violinista nipo-germânico Koh Gabriel Kameda tocando Tchaikovsky. A Opes terá regência de Roberto Tibiriçá. Nos dias 29 e 30 de setembro, Sonia Goulart toca o Segundo Concerto de Chopin com a Opes regida por Carlos Moreno.

– E ainda quero fazer a Missa em Si Menor de Bach, com a Associação de Canto Coral, para terminar a temporada. Decidi que quero e vou fazer.

Outra série, a Recordando, esse ano em homenagem a Pixinguinha, está nos planos, mas ainda sem data ou artista confirmados – será, “provavelmente, nos três últimos meses do ano”, avisa a assessoria artística. Miguel também está negociando gravação e transmissão dos eventos da Sala com tvs públicas.

O budget da temporada? A esse respeito, Miguel não mostra desânimo.

– Estou realocando valores da programação e assim consigo viabilizar outros projetos. E vou me virar com o resto. Eu acho o ouro!

Uma campanha que já começou nas redes sociais da Sala é a da atração de novos sócios para a Associação de Amigos (“Mas tem pouquíssimos! Queremos mais!”, diz o diretor). O ano de 2018 também vai trazer, segundo ele, uma chance de grandes eventos, com muito apelo popular.

– Veja só, é o centenário de Leonard Bernstein. Quero fazer, durante o ano todo, um festival Bernstein! Incluindo West Side Story, claro. Vai todo mundo morrer de inveja! – encerra ele, às gargalhadas.