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Foto: Renato Mangolin

| “Meneses tira do cello a ‘voz’ que poucos no mundo conseguem obter”

11/11/2016 - Por Arthur Dapieve

Arthur Dapieve faz a crítica do concerto que reuniu a Orquestra Gulbenkian, regida pelo norte-americano Lawrence Foster, ao violoncelista Antonio Meneses, no Municipal do Rio.

dapieve-3x4Bela oportunidade: no período de menos de um mês, assistir no Theatro Municipal a concertos de dois dos maiores intérpretes contemporâneos na música clássica brasileira – alguns diriam, dos dois maiores – acompanhados por boas orquestras europeias. Primeiro, Nelson Freire e a Tonhalle, de Zurique, sob a regência da revelação francesa Lionel Bringuier. Agora, na quarta (9), Antonio Meneses e a Gulbenkian, de Lisboa, sob a regência do veterano americano Lawrence Foster.

Meneses optou por um autor não muito ouvido no Brasil, ponto para ele. O concerto para violoncelo e orquestra, em Ré menor, de Édouard Lalo (1823-1892), soa francês até a medula, apesar das conexões espanholas do compositor, famoso pela Symphonie Espagnole, para violino e orquestra. Apresentado dentro da série O Globo/Dell’Arte, assim como o de Freire, o concerto foi composto por Lalo em 1876 e dedicado ao violoncelista belga Adolphe Fischer, seu primeiro intérprete.

Depois da entrada dramática da orquestra e da troca de frases com o solista, a força romântica do prelúdio marcado lento permitiu a Meneses tirar do instrumento aquela “voz” que poucos colegas no mundo conseguem obter. Movimento adentro, pelo allegro maestoso, Meneses tocou até quando o arco estava longe das cordas, marcando passagens da Gulbenkian com movimentos vigorosos de cabeça. No Intermezzo, enfatizou o caráter dançante da seção central. E, no movimento final, meio andante, meio allegro vivace, uniu perfeitamente as pontas da estrutura de Lalo.

Como Freire, dias antes, Meneses concedeu um único bis ao reverente público. Mas que bis… A sarabanda da Suíte nº 1, em Sol maior, de J.S. Bach (1685-1750). Onde quer que soe um J.S. Bach, ergue-se um templo. Se houver um Deus, e se um músico algum dia conseguiu sintonizar a frequência Dele, acho que foi o bom e velho João Sebastião. No Municipal, Meneses foi seu celebrante.

Foto: Renato Mangolin

Foto: Renato Mangolin

Entre o concerto e a sarabanda, um gesto de delicadeza: Meneses entregou o buquê que recebeu da produção a Raquel Reis, única mulher violoncelista da Gulbenkian.

A orquestra lisboeta não está no patamar da Tonhalle, mas compensa com brio e alegria de tocar. Na verdade, o ímpeto imprimido por Foster fez com que frases às vezes se sobrepusessem, sem respirar. Isto aconteceu sobretudo na obra que antecedeu o concerto para violoncelo: a Sinfonia nº 8, em Si menor, a “Inacabada”, de Franz Schubert (1797-1828). Em compensação, o maestro extraiu valsas insuspeitadas dos dois movimentos, movimentos que “filiam” o compositor vienense ao ídolo Beethoven e, nas sublimes partes confiadas aos sopros, a Mozart. A destacar, a primeira clarinetista, a americana Esther Georgie.

Ao final da noite, à guisa de bis, Foster e a Gulbenkian tocaram o entreato nº 1 da música incidental para a peça Rosamunde. Especula-se que originalmente ele teria constituído o movimento final da Sinfonia nº 8, caso Schubert tivesse ficado satisfeito com o resultado. O terno entreato tem a mesma tonalidade da sinfonia, Si menor, mas destoa tanto dos movimentos conhecidos que entende-se a suposta recusa de Schubert.

Depois do intervalo, logo, antes do entreato de Rosamunde, houve outra Sinfonia nº 8, a em Sol maior de Antonín Dvorák (1841-1904). Ela foi composta no lugarejo de Vysoká, na Boêmia, seu refúgio bucólico. Confesso ter um pé – ou, talvez seja mais exato dizer, um ouvido – atrás em relação a esta obra. Em seus quatro movimentos, Dvorák evita qualquer conflito, quer apenas cantar o seu amor pela natureza de sua terra natal. De certa forma, o resultado é “bonito demais”, certinho demais para despertar minha empatia. Dito isto, a orquestra lisboeta tocou como se nativa da Boêmia também fosse. No bom sentido. Com graça e paixão.