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Voz e violão: poesia e afinidade ditam repertório de Arthur e Livia Nestrovski / Foto:Claudia Cavalcanti

| Mais do que pai e filha – Arthur e Livia Nestrovski pela primeira vez juntos no Rio

18/1/2017- Por Debora Ghivelder

A dupla sobe ao palco da Sala Cecília Meireles, nesta sexta, dia 20, para apresentar o repertório do CD 'Pós Você e Eu'

 

Há duas versões para o início da pareceria musical firmada entre Arthur Nestrovski, músico, violonista e também diretor da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e a cantora Livia Nestrosvki. Para ela, a filha, foi em um show no Sesc de Curitiba, em 2014. Para ele, o pai,  começou em Portugal há três anos, quando ele foi se apresentar com José Miguel Wisnik e, Livia que estava a passeio, foi convidada a se juntar à dupla no palco. Não importa. Segundo cálculo de ambos, faz três anos que iniciaram a parceria artística que resultou no CD Pós Você e Eu, lançado em 2016. É o repertório do CD que sustenta a apresentação que fazem nesta sexta (20), às 20h, na Sala Cecília Meireles. Eles, que já se apresentaram em diversas cidades do Brasil e de Portugal, estreiam dividindo o mesmo palco, no Rio.

Pós Você e Eu é título que define bem o lugar onde os dois se encontram. Transformaram-se em algo além de pai e filha. São dois artistas que descobriram suas afinidades e gostos no processo e que conseguem estabelecer, sem constrangimentos, uma relação de equivalência, quando trabalham.

Arthur N. / Foto: Claudia Cavalcanti

– Eu sempre fui muito cuidadoso com a Livia, para deixar ela ser quem era. Acho que fiquei de fora mais tempo do que precisava. Mas ficou muito claro, desde o primeiro momento, que ela já se mostrava uma artista com autoridade e sabedoria – diz Arthur. – Então não teve constrangimento familiar.

Livia diz que, como artista, não é da turma do eu sozinha. Sua carreira solo se desdobra em projetos com outras pessoas. Com o marido, Fred Ferreira, com Arrigo Barnabé, com Luiz Tatit. E também com Arthur, com quem faz, há um ano e meio, shows pelo Brasil.

– Meu pai tem um jeito bem específico. Toca violão duas vezes por dia. Antes de ir e quando volta da Osesp. Eu já não sou assim, não tenho esses horários. Aí ele vai e faz os arranjos que quer. Não me pergunta nem o tom. Às vezes, fica em um tom que eu não escolheria, que está fora da minha zona de conforto. Mas não acho ruim, não: isso me obriga a sair do que é confortável. Enfim, somos dois artistas, dois músicos, que procuramos nos adequar. Como em qualquer relação dessa natureza.

Escolhas pontuadas por  afeto

O repertório alinha, lado a lado, Pixinguinha e Luiz Tatit, Ary Barroso e Arrigo Barnabé, Tom Jobim e Dolores Duran, além de composições do próprio Nestrovski e algumas de suas versões para canções americanas e Lieder de Schubert e Schumann. E privilegia a poesia.

–  Tenho prazer em costurar as sequências das canções. E também tenho prazer de fazer arranjos em que o violão dialoga com o que está sendo dito nas canções. O espectador atento vai perceber a relação no arranjo da primeira música ao bis – revela Arthur.

E há escolhas em que pesou mais a história.

– Conheci Arrigo Barnabé em 1979, no Festival da TV Tupi, em que eu tocava com Kleiton e Kledir.  E ouvi uma fita demo da canção Londrina, que é uma valsa. Depois, ele gravou  com a minha filha. Há uma história de vida, histórias familiares. Mas queremos também novidades. No Rio, a introdução de Londrina vai ser diferente. Descobri uma partitura antiga de uma canção dos anos 1930, do Hekel Tavares, chamada Guacyra. E que cai como uma luva com Londrina –  conta o violonista. [ouça a canção no fim da reportagem]

Livia N. / Foto: Claudia Cavalcanti

Nem tudo é história na escolha do que vão cantar os Nestrovskis. Mas tudo diz respeito à afinidade, diz Livia que mora no Rio há sete anos, distante do pai, que vive em São Paulo.

– A gente tinha muita coisa em comum. É claro, sou filha, meu gosto recebeu influências do gosto dele. Mas, neste processo, descobrimos que muitos dos gostos que temos em comum não eram coisas que eu ouvia em casa, com ele. Então, houve esse encontro de interesses por outras vias. O jazz é um exemplo. Quando ele começou a tocar os standards dos anos 30 e 40, eu não participei disso, porque morava com a minha mãe. E, sem saber dele, comecei a cantar jazz, lá nos Estados Unidos. Foi um repertório que me formou – explica Livia. – Enfim, é um programa que fala sobre a gente, as relações com a música e os nossos afetos.