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Caricaturas de Haroldo Ceravolo para o livro

| Livro mapeia a música clássica no Brasil desde os tempos coloniais

03/07/2017 - Por Barbosa Chaves

Assinado pelo jornalista Irineu Franco Perpétuo, 'Uma história concisa da música clássica brasileira', ancorado em vasto trabalho de pesquisa, conta com campanha de crowdfunding na internet

Quando desembarcou no sul da Bahia em 1500, a frota de Cabral , com 13 navios e 200 homens, trazia a bordo trombetas, instrumentos de percussão, flautas e gaitas de fole.  Logo que fincaram pé em terra firme, utilizaram esses instrumentos para cativar os nativos, naturalmente desconfiados. Acertaram em cheio. Pero Vaz de Caminha, na célebre carta que passou à história como nossa certidão de batismo, descreve o encantamento dos índios quando o gaiteiro  emite as primeiras notas no instrumento. “Logo meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam”, conta o cronista.

Apesar de presente desde os primórdios da colonização, sobraram poucos registros da  música que se fazia durante os primeiros dois séculos da presença portuguesa no Brasil. Existem gravações  de grandes obras sacras no México e em missões dos jesuítas no Peru, mas não sobrou nenhuma partitura para contar a história da atividade musical na América portuguesa antes do século XVIII.

A falta de memória, portanto, acompanha a música clássica desde a fundação do Brasil. “Nossos  compositores que não se chamam Villa-Lobos vivem eternamente tendo que ser “resgatados” por musicólogos e intérpretes abnegados, que teimam em não deixar apagar a memória de uma produção contínua e de qualidade, que começou na época colonial, chegando até os nossos tempos”, observa Irineu Franco Perpétuo já no primeiro capítulo do livro Uma história concisa da música clássica brasileira, em fase final de edição e ao qual o Tutti Clássicos teve acesso em primeira mão.

Para viabilizar a produção, o livro conta, desde abril, com campanha de crowdfunding na internet. A meta é chegar a R$ 35 mil e até o momento, as doações chegaram próximo da marca de R$ 10 mil. Quem quiser colaborar – a campanha vai até agosto – pode acessar o seguinte endereço:https://www.vakinha.com.br/vaquinha/historia-concisa-da-musica-classica-brasileira-028fd557-e211-47ac-826f-fc40cb7096a1

Além de renomado tradutor, Irineu é um dos mais refinados estudiosos de ópera e música clássica do país. Clássica em detrimento de erudita, “que soa algo distanciadora e pedante”, como explica na introdução do livro cujo embrião foi um curso ministrado no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, em 2005. Seus livros, artigos, críticas e matérias jornalísticas conquistaram o respeito de maestros, músicos e produtores culturais.

Uma história concisa da música clássica no Brasil é lastreado em vasta pesquisa e utiliza texto elegante e fluido para estabelecer os marcos da atividade musical na colônia, desde as primeiras partituras compostas no Brasil, até as vozes do terceiro milênio, abafadas, em parte, pela forte presença de uma sofisticada música popular que teve sua origem nas polcas e maxixes da virada do século XX.

O autor dedica especial atenção à música que embalou o ciclo do ouro em Minas Gerais. E assinala o papel vital exercido pelo musicólogo alemão naturalizado uruguaio, Franz Kurt Lang, que por meio de incansável pesquisa de campo, revelou a riqueza musical da região mineradora. Além de vasta produção  sacra, os compositores mineiros do século XVIII – essencialmente pardos –  também se dedicavam à música profana. A Casa da Ópera de Ouro Preto, construída em 1769 e ainda em funcionamento, é testemunha da intensa função teatral e lírica tradicionais na Vila Rica setecentista.

No Rio de Janeiro, a provinciana vida musical da cidade sofreria uma guinada com a chegada da família real portuguesa, em 1808. O também pardo Padre José Maurício caiu nas graças de D. João VI e reinou absoluto por alguns anos como mestre da Capela Real, período em que compôs cerca de 70 obras, a mais emblemática delas a Missa de Nossa Senhora da Conceição para o 8 de Dezembro. A primazia do padre mulato acabou com a chegada do português Marcos Portugal, que assumiu o papel principal nas atividades musicais da corte, inclusive no recém-inaugurado Teatro Real São João, destruído por um incêndio anos mais tarde.

A presença dos Bragança no Rio estabeleceu as bases para uma atividade musical contínua e cada vez mais atenta ao que acontecia em palcos europeus. É nesse contexto que, décadas mais tarde, surge o primeiro músico brasileiro de renome internacional. Antônio Carlos Gomes alcançou o sucesso na Itália com Il Guarany e tornou-se ídolo nacional “naquele Brasil em processo de construção de identidade nacional, e em busca de ídolos que encarnassem seus ideais de excelência”, como observa Irineu Perpétuo.

Com o advento da República, Carlos Gomes, monarquista convicto, sai de cena para dar lugar a um movimento com contornos mais nacionalistas, sempre em busca de uma música que soasse genuinamente brasileira. Nessa empreitada, os músicos das primeiras décadas do século XX tiveram a valiosa contribuição de Darius Milhaud, um francês que  pôs em prática o que se esperava dos compositores brasileiros de seu tempo: expressar o elemento nacional de maneira mais viva e original.

Essa maneira brasileira de se expressar em música foi alcançada, inicialmente, por Villa-Lobos, único compositor a merecer todo um capítulo de Uma história concisa da música clássica no Brasil, o que se deve a sua inquestionável condição de primus inter pares, segundo o autor. Contudo, o livro menciona que o compositor dos Choros e das Bachianas  jamais manifestou nenhum incômodo por servir ao regime de Vargas, de matizes claramente fascistas. Ainda em meados do século XX, o brasilianismo ganha força  com compositores como Lorenzo Fernandez, Francisco Mignone e Camargo Guarnieri, agrupados sob o título ‘Os nacionalistas’.

Depois de um detalhado panorama da produção clássica nas ultimas décadas do século XX, com destaque para a atividade dos compositores Marlos Nobre e Edino Krieger, Irineu termina seu mais recente livro em uma nota pouco otimista. Citando estudiosos contemporâneos, sugere que a classe dominante desconhece a produção clássica atual. Ou, na melhor das hipóteses, espera que venha de fora o endosso do que é produzido aqui. Mas ressalta que, mesmo díspares, os discursos sonoros do terceiro milênio estão aí para quem quiser escutá-los com ouvidos abertos.