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Livia e Arthur Nestrovski na Sala Cecilia Meireles / Foto: Vitor Jorge

| “Lívia e Arthur Nestrovski: defesa das delícias da melancolia”

23/01/2017 - Por Arthur Dapieve

O crítico esteve, sexta (20), na plateia da Sala Cecilia Meireles. "Lívia e Arthur mostram que valsas brasileiras, lieder alemães e standards de jazz americano fazem parte de uma mesma tradição de alta poesia"

 

Lívia Nestrovski é uma cantora fora de moda: tem voz bonita, afinação e extremo bom gosto para o repertório. É a filha mais velha de Arthur Nestrovski, violonista que não precisa ostentar sua bem sentida técnica, parceiro de José Miguel Wisnik nas concorridas “aulas-show” e, last but not least, diretor artístico da Osesp.

Esse duo familiar se apresentou na sexta (20) na Série Petrobras Sala Jazz, que ocupa a Cecília Meireles nos difíceis dois primeiros meses do ano, com shows de Yamandu Costa e do Grupo Corda, entre outros. Também faria sentido estar incluída numa linha de concertos dedicados à música popular brasileira ou à música de câmara. Bom assim.

    Foto: Vitor Jorge

Porque Lívia e Arthur – que lançaram o CD Pós você e eu, pelo selo Circus, no ano passado – são capazes de mostrar que valsas brasileiras, lieder alemães e standards de jazz americano fazem parte de uma mesma tradição de alta poesia e grande música. Não são tantos os cancioneiros no mundo que fazem essa tabelinha, destacou o violonista no palco. Meio como lembrete, funciona como âncora de todo o espetáculo (não do CD) Carinhoso, de Pixinguinha, com e sem a letra posterior de João de Barro, o Braguinha.

Moradora feliz do Rio, a paulistana nascida nos EUA havia se apresentado na Sala em janeiro de 2015, com Arrigo Barnabé e Luiz Tatit, lançando outro CD, De nada mais a algo além. Havia-me deixado ótima impressão, embora o trabalho a três e a dimensão da banda não lhe tivessem deixado muito espaço para brilhar. No duo, Lívia é a estrela da companhia.

Caracterizada como as melindrosas de tempos mais gentis, Lívia é, aos 29 anos recém-completados, cantora apta a soar tanto como diva da dor-de-cotovelo da década de 50 quanto como diva da bossa nova da década de 60. Em comum, naturalmente, a tristeza. Sua voz se mantém estável nos arroubos dos agudos e segura o intimismo dos graves.

Foto: Vitor Jorge

De discreto terno cinza e gravata, Arthur é, aos 58 anos completados no final de dezembro, um violonista popular que usa o profundo conhecimento da música clássica para deixar os compositores falarem, como aconteceu em CDs instrumentais dedicados a Tom e a Chico. Seus arranjos e composições são elegantes, precisos, sutis.

Há, na metade final do show calcado quase inteiramente no CD, um quarteto de canções matador, no qual os talentos de filha e pai mais aproximam músicas de origens diversas. Primeiro, vem Serenata, arranjo e versão de Arthur para um lied de Schubert sobre poema de Ludwig Rellstab que faz parte do “ciclo” póstumo Schwanengesang.

O resultado é arrebatador. “Na madrugada, desarvorada/ Faço versos pra ti/ Minha toada não vale nada/ Se não vale pra ti”, canta Lívia, com uma naturalidade que pode fazer supor que Schubert fosse nativo de Blumenau. A canção foi incluída na trilha da recente novela Velho Chico, o que ensejou um comentário feliz e espantado de Arthur: “Dezenas de milhões de brasileiros ouvindo Schubert todas as noites!”

Em seguida, vêm duas belíssimas valsas brasileiras. Londrina, de Arrigo Barnabé, despida das dissonâncias do arranjo e da intérprete original, Tetê Espíndola, e Canção de não dormir, inédita do próprio Arthur em parceria com o poeta carioca Eucanaã Ferraz. Fechando o quarteto, aparece I’m through with love, de Fud Livingston, Matty Maineck e Gus Kahn, que a certa altura se transmuta na versão de Arthur, Adeus, amor.

No encarte do CD Pós você e eu, depois de se declarar completamente desapetrechada de talento musical, a mana caçula de Lívia, Sofia, faz algumas observações argutas, coisa de quem é parte de uma família de músicos talentosos. A minha favorita: “A música ensina a transformar o tempo vazio em tempo interior.” O CD e o show de sua irmã e de seu pai são essa doce defesa das delícias da melancolia.