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Lionel Bringuier / Foto: Alberto Venzago

| Lionel Bringuier rege a tradicional Tonhalle de Zurique com Nelson Freire

03/10/2016 - Por Debora Ghivelder

A precisão suíça unida ao bom charme francês em concerto no Theatro Municipal, dia 15 de outubro. No programa, Schumann e Mahler.

Dono de lugar cativo na preferência do público pelo seu elevado lirismo, o Concerto para piano em lá menor, Op. 54, de Robert Schumann, obra-prima do compositor alemão e que guarda tão bem o espírito de seu criador, é peça escolhida para reunir no palco o pianista Nelson Freire ao regente Lionel Bringuier e a Orquestra Tonhalle de Zurique.

A apresentação, no dia 15 de outubro, no Theatro Municipal, dentro da série O Globo/ Dell’Arte Concertos Internacionais, marca a primeira passagem do maestro francês pelo país. O conjunto suíço regressa após longos 28 anos de intervalo. Freire e Bringuier já se encontraram no palco algumas vezes. Juntos, gravaram o Concerto nº 2, de Chopin com a Gurzenich Orchester Koln, disco lançado em janeiro de 2015. A mesma obra foi interpretada também com a BBC Symphony Orchestra no Proms, em 2013, e a apresentação resultou em um DVD. O programa da noite inclui ainda a Sinfonia nº 1 em ré maior, Titã, de Gustav Mahler.

Bringuier, de 30 anos recém-completados em 24 de setembro, assumiu a o posto de diretor musical da tradicional Tonhalle, uma das mais importantes e a mais antigas orquestras suíças, fundada em 1868 e com mais de 100 músicos, na temporada 2014/2015. Ele fica no cargo até o final de 2018, quando seu contrato termina – o que reforça a importância da ocasião pela oportunidade de vê-lo à frente do conjunto.

Entretanto, a juventude, aqui, não representa pouca experiência. Caçula de quatro filhos, ele nasceu em uma família de músicos. Ingressou no Conservatório de Paris aos 13 para estudar violoncelo. Um ano depois, iniciou as aulas de regência. Em 2005, Bringuier conduziu a Orquestra Nacional de Toulouse e venceu o concurso Besançon de jovens regentes em decisão unânime do júri. Mais do que carisma, ele tem o respeito dos músicos por onde passa. E já liderou grandes orquestras. No pódio, comanda com facilidade músicos de longe mais velhos e mais experientes que ele. O francês acredita que a máxima “é preciso ter certa idade para ser maestro” não se aplica mais aos dias de hoje”.

– Eu penso que as coisas mudaram. As orquestras gostam de jovens maestros, assim como gostam de regentes mais velhos. Nunca passei por nenhuma situação difícil por conta da minha idade, nem aqui e nem em nenhum lugar. É verdade que comecei cedo, aos 14 anos. Então, eu já tenho uns bons anos nisso. – conta Bringuier, por telefone, da Suíça.

nlRespeito profundo por Nelson Freire

Estrela em ascensão – que ganhou especial brilho quando virou o mais novo regente assistente, e depois, residente, posição criada para ele,
na Filarmônica de Los Angeles liderada primeiramente por Esa-Pekka Salonen e depois por Gustavo Dudamel -, Bringuier acha que o segredo para atrair plateias mais novas aos concertos está na comunicação:

– É a ferramenta mais importante, a comunicação. Estamos em um mundo interconectado. As pessoas mais jovens precisam, antes de tudo, saber o que acontece. E é preciso que eles tenham a experiência de ouvir uma orquestra ao vivo. Isso se dá através de educação, com programas para crianças e iniciantes, mas também ao aproximarmos o universo da música clássica do destes jovens. Aqui, por exemplo, oferecemos um programa: após o concerto, a casa se transforma em uma espécie de night club, com música dançante. Isto é algo que nos torna mais próximos deste público.

A presença de Nelson Freire no palco inspira no maestro respeito e uma chuva de elogios.

– Em primeiro lugar, ele é um bom amigo – começa Bringuier, para continuar: – Já tocamos juntos muitas vezes. E, a cada vez, eu realmente aprendo com ele. Nutro um profundo respeito por Nelson Freire.

O programa da noite, como lembrou Bringuier, é o mesmo apresentado em janeiro no concerto de aniversário de Zubin Mehta com Daniel Barenboim e a Staatskapelle Berlin regida pelo indiano. Para o diretor musical da Tonhalle de Zurique, as duas peças combinam muito bem. O concerto de Schumann, diz, não é das obras mais longas, é leve e vivo. E Mahler tem sido alvo de seus estudos desde os tempos passados na LA Phil.

– Eu adoro as duas obras desde a infância. Minha mãe é pianista e sempre a via trabalhar. Tenho uma grande afinidade com Schumann. E Mahler? Eu vi muito de Mahler no meu tempo na Filarmônica de Los Angeles com Gustavo Dudamel. E estudei profundamente as sinfonias. Toquei Mahler há pouco, em junho e, realmente, é uma obra que mostra tudo o que uma orquestra tem para dar, todas as suas qualidades – diz o maestro.

A primeira vinda ao Brasil e ao Rio – ele também se apresenta em São Paulo nos dias 16 e 18 de outubro em série da Cultura Artística – gera uma declarada animação. O mais perto que esteve do país foi quando foi à Venezuela para se apresentar com a Orquestra Sinfônica Simon Bolívar.

– Não vejo a hora de estar no Brasil. E também no Rio, tão em foco agora por sediar os Jogos Olímpicos – conta Bringuier, que também gosta de esportes e que costuma alternar a batuta com a raquete. – Eu jogo tênis.