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| Karabtchevsky 8.2: duas orquestras, série de CDs de Villa Lobos, energia e grande música

22/11/2016 - Por Barbosa Chaves

Figura mais popular da regência e da música clássica em geral no Brasil, o maestro faz aniversário dia 27 de dezembro e segue um lema simples: "trabalhar, trabalhar, trabalhar".

 

O maestro Isaac Karabtchevsky, que completa 82 anos neste 27 de dezembro, é praticamente sinônimo de música clássica no Brasil. Sua trajetória singular se confunde com a de algumas das maiores orquestras no país. À frente do Projeto Aquarius, levou a música de concerto a plateias de centenas de milhares de pessoas. De origem russa, interessou-se pela música ainda criança, influenciado pela mãe, que era cantora lírica. Regeu grandes orquestras em alguns dos mais importantes teatros do mundo, sempre muito elogiado pela crítica especializada. Com vitalidade invejável, hoje é diretor artístico e regente da Petrobras Sinfônica e da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, um projeto social que ensina o repertório sinfônico a jovens de uma das mais notórias favelas de São Paulo. Em 2017, a Osesp e o maestro lançam  a  integral das sinfonias de Villa-Lobos.

Karabtchevsky recebeu a reportagem de Tutti Clássicos em sua casa no alto da Gávea, cercada pela exuberante vegetação da Mata Atlântica. Para conceder essa entrevista, fez uma única exigência: ser tratado por você.

Tutti – Você nasceu em 1934, em São Paulo, filho de judeus russos. Essa origem teve influência na escolha da música?

Meus pais saíram de Kiev em 1919, como muitos outros judeus daquela geração. Minha mãe era cantora lírica e meus dois irmãos já falecidos eram músicos, um tocava clarineta e outro, fagote. Desde cedo convivi com o canto, que é a forma mais pura, mais criativa da linha melódica. O fato de ter presenciado os exercícios de respiração da minha mãe desde criança, tê-la visto respirando profundamente à janela, isso me marcou muito e foi determinante na escolha da carreira de maestro. Não há regente que não saiba respirar no tempo certo, até mesmo para dar o ataque. Não se pode dar um ataque e respirar a contratempo.  É preciso induzir os músicos a respirarem com você. A respiração é vital na música. Além disso, minha mãe era fanática, estudava muito e  isso moldou minha vocação e me fez intuir que é preciso dedicação. Acho que herdei isso dela. Tanto assim que hoje, aos 81 anos, eu não paro de trabalhar.

Isaac Karabtchevsky com Petrobras Sinfônica 2004
Foto: Eder Accorsi Junior

Tutti – Você se formou em regência ainda muito jovem, não?

Eu me formei na Alemanha em 1962, aos 28 anos. Depois voltei ao Brasil e trabalhei com o Madrigal Renascentista. Foi então que  Eleazar de Carvalho me convidou para ser assistente dele na Sinfônica Brasileira, onde passei 26 anos. Em 1988, fui convidado para a Tonkünstler, de Viena, onde fui diretor artístico e regente por sete anos. Em seguida fui contratado pelo La Fenice, a segunda mais importante casa de ópera da Itália, e lá fiquei até 2001. Da Itália fui para a Orchestre National des Pays de la Loire, na França, que até 2010 acumulei com a Petrobras e a Sinfônica de Porto Alegre. As outras orquestras eu regi como maestro convidado. Tem sido uma trajetória cansativa por causa das constantes viagens, mas muito gratificante.

Tutti – Ou seja, como maestro titular ou convidado, você já regeu algumas das grandes orquestras do mundo em  teatros emblemáticos como o Staatsoper de Viena, o Concertgebow de Amsterdã, a Salle Pleyel de Paris  e a Washington Opera House. Hoje é diretor artístico da Petrobras Sinfônica num momento difícil para música clássica no Brasil. Como você vê a orquestra neste momento?

Estamos muito animados porque temos o primeiro presidente da Petrobras que tem sensibilidade para música. A palavra orquestra é familiar ao vocabulário de Pedro Parente, que já foi do conselho curador da Osesp e conhece música profundamente, além de entender as limitações orçamentárias de uma orquestra. Dentro dessas limitações, acho que o trabalho da Petrobras Sinfônica é exemplar, ao ponto de colocá-la entre as mais importantes do Brasil. Trata-se de uma orquestra autogerida, na qual os músicos escolhem o maestro e a direção artística de forma bastante democrática. Há doze anos, quando vim para a orquestra, os músicos não estavam acostumados a essa prática.

Tutti – Há doze anos você ainda estava na Orchestre National des  Pays de la Loire. Como foi essa experiência com uma orquestra que não é das maiores da Europa, mas é muito respeitada?

Foi uma experiência fascinante por que a orquestra mantém uma programação incrível. São duas formações, uma em Nantes e outra em Angers, que se reúnem para a apresentação de grandes obras. Durante seis anos, acumulei a Orchestre National  des Pays de la Loire com Petrobras Sinfônica aproveitando que as temporadas não coincidem.

Tutti – E Heliópolis, maestro, uma experiência bem diferente, não?

É um fantástico projeto de inserção social que permite àqueles jovens se exporem a um universo ao qual eles não estavam acostumados. É a mão de Deus, não há outra forma de explicar como aquela garotada habituada à linguagem musical do funk pode, por exemplo, captar o espírito das obras de Mahler e tocá-las à perfeição. São mil e quinhentas crianças e jovens distribuídos em cinco orquestras e 17 corais, que ocupam dois prédios de cinco andares no meio da favela de Heliópolis, em São Paulo, com salas hermeticamente isoladas para os ensaios de cada naipe. O projeto é do Instituto Baccarelli e eu sou diretor artístico e maestro titular lá dede 2011. A Sinfônica de Heliópolis, regida por mim, se apresenta frequentemente na Sala São Paulo.

Com a Sinfônica de Heliópolis na Sala São Paulo / Foto: Georgia Leopoldi

Tutti – Durante toda sua longa carreira, você sempre fez questão de valorizar compositores brasileiros e inclusive revelou alguns. Isso se  deve à qualidade musical das obras ou somente ao fato de serem brasileiros?

Havia uma curiosidade natural em relação à música brasileira nas instituições por que passei pelo fato de eu ser brasileiro. Eu dei muita ênfase a Villa-Lobos, que considero pedra angular da nossa música, mas sempre que posso faço também outros compositores como Marlos Nobre, Edino Krieger , André Mehmari, Heckel Tavares, Francisco Mignone, Ronaldo Miranda, Radamés Gnattali e tantos outros.

Tutti – Já foi dito que você rege com uma emoção controlada pela razão. Você concorda?

Não se pode reger sem a razão, ficar totalmente refém da emoção. É preciso elaborar um preceito analítico para a partitura musical e depois trabalhar os apetrechos para enriquecer a obra com a sua fantasia. Mas ao fim, vale o ditado: 90% de transpiração e 10% de inspiração. Tem que trabalhar, trabalhar e trabalhar.

Tutti – Você chegou a reger para 200 mil pessoas na Quinta de Boa Vista pelo Projeto Aquarius. O que mudou no Brasil desde então?

Mudou muita coisa, não só o Projeto Aquarius. Acho que faz parte dessa tradição brasileira de abandonar o que deu certo. Outro exemplo disso é a retirada do canto orfeônico do currículo escolar pelos militares. Mesmo com as mudanças, acho que consegui contribuir para a popularização da música clássica graças ao Projeto Aquarius e a Roberto Marinho, que colocou toda a estrutura das Organizações Globo para divulgar o projeto.

Tutti – Além da temporada 2017 da Petrobras Sinfônica você tem outros planos para 2017?

Termino agora em 2017 a gravação das onze sinfonias de Villa-Lobos com a Osesp, pelo selo Naxos. Seriam 12, mas a quinta se perdeu sem deixar vestígio. Eu quase acredito na teoria de que a obra teria sido citada por Villa, mas jamais composta. Apesar de carioca, Villa-Lobos é muito falado, mas pouco conhecido aqui. É uma pena, mas reforça a importância dessa gravação com todas as sinfonias compostas por ele, incluindo a Ameríndia, que vai ser executada pela primeira vez no Rio pela Petrobras Sinfônica na temporada 2017.

  • Em 1965, na TV Globo - Espetáculos Tonelux (foto Memória Globo)

  • Regendo no Projeto Aquarius em 1976 / Foto Memória Globo

  • Com Nelson Freire e a Petrobras Sinfônica em 2008

  • Com a Petrobras Sinfônica em 2006 / Foto Stéferson Faria

  • Com a Petrobras Sinfônica e Antonio Meneses em 2010

  • Enredo na Escola de Samba Unidos de Vila Isabel em 2015