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A imagem clássica do compositor e a gravura de Debret retratando a Aclamação de D JoãoVI

| José Maurício Nunes Garcia, 250 anos de nascimento

14/04/2017 - Por Luciana Medeiros

O maior compositor sacro das Américas recebe série em sua homenagem a partir de domingo (16), na Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé - pacote de celebrações é modesto frente à importância do legado musical

 

O rapaz tinha um “defeito de cor”, como se dizia então: era filho de mulatos, neto de escravas. O pai, Apolinário Nunes Garcia, alfaiate respeitado; a mãe, Vitória, lavadeira. Eram ambos pardos forros, ou seja, libertos da escravidão; moravam na Rua da Vala, atual Uruguaiana, Centro do Rio e tiveram um único filho em 1767.  Apolinário morreria seis anos depois. Desde antes da perda, a família já vivia modestamente. Mas, mesmo viúva, a mineira Vitória achou forças para providenciar aulas de música e alimentar o talento extraordinário de José Maurício. O garoto era tão dotado que, aos 12 anos, já tinha seus próprios alunos. E se tornaria, poucas décadas depois, o maior e mais prolífico compositor sacro das Américas, o Mestre Capela de D. João já a partir de 1808. E morreria, de novo em condições modestas, em 1830.

Os 250 anos de nascimento de José Maurício Nunes Garcia, ou Padre José Maurício, começam a ser lembrados na sua casa musical, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Rua Primeiro de Março, neste domingo de Páscoa. Ali acontece uma série de seis concertos, até dezembro, além de conferência do musicólogo Vasco Mariz e uma mesa redonda. Apesar da efeméride, não são muitas as obras programadas neste ano de apertos nas programações. Além da série da Antiga Sé, o Musica Brasilis faz nove concertos. A OSESP e a Filarmônica de Minas programaram obras de José Maurício para junho e novembro. É pouco para a importância do compositor.

Não poderia existir melhor cenário do que a  Igreja  Nossa Senhora do Carmo para abrigar tributo a José Mauricio. Conhecida como a Antiga Sé, foi requisitada por Dom João VI em 1808, transformada em Capela Real e catedral do Rio até 1970. Portanto,  o palco das coroações de Pedro I e Pedro II, dos casamentos reais e de centenas estreias das peças do compositor, para uma Corte Portuguesa deslumbrada pela sua música.

– Na verdade, antes da chegada de D. João, ele já era Mestre Capela da Antiga Sé – conta a cravista Rosana Lanzelotte, à frente do projeto Musica Brasilis, que completa em 2017 nove anos registrando e dando acesso à música brasileira. – A gente nota a qualidade de sua música desde a primeira composição, escrita aos 16 anos, Tota Pulchra as Maria. Aliás, o Rio de Janeiro não era pobre de música, muito pelo contrário.  Havia um imenso intercâmbio com a Europa, de partituras e instrumentos, em especial pelas mãos dos jesuítas, mesmo antes da Família Real aportar.

João, ainda Príncipe Regente, vinha sedento de boa música, que ele consumia à larga em Lisboa, servido pelos melhores compositores da época em Portugal e na Itália. Contratou aquele jovem padre em dois tempos. O seminário havia sido uma alternativa de formação aprofundada , pouco acessível a quase todos na época – principalmente a quem tinha o tal “defeito”, o sangue negro.

– Acredito que essa escolha tenha sido circunstancial – continua Rosana. – Ele vivia maritalmente, teve seis filhos, reconheceu um deles em vida.

Apesar de algumas criações profanas – inclusive uma ópera perdida, Le Due Gemelle – a obra de José Mauricio Nunes Garcia é eminentemente sacra, de extrema sofisticação, virtuosismo vocal e riqueza harmônica.  Entre suas peças mais conhecidas estão a Missa de Réquiem, a Missa dos Defuntos, a Missa de Oito de Dezembro, a Abertura em Ré e a Abertura Zemira.  Sua última composição, “seu testamento”, diz a cravista, foi a Missa de Santa Cecília, pouco tocada “por causa da enorme exigência de virtuosidade vocal”.  Garcia também regeu as estreias do Requiem de Mozart (1819) e de A Criação de Haydn (1821) no Brasil. Aliás, o austríaco Sigismund Neukomm, que esteve no Brasil de 1816 a 1821, havia sido aluno de Haydn e deixou registrada sua admiração pelo compositor.

A maior autoridade na obra de José Maurício Nunes Garcia foi a professora e musicóloga Cleofe Person de Mattos (1913-2002), criadora da Associação de Canto Coral do Rio, que lançou, em 1970, Catálogo Temático das Obras de José Mauricio Nunes Garcia (Conselho Nacional de Cultura, 1970) e José Maurício Nunes Garcia: biografia (Fundação Biblioteca Nacional, DNL, 1997), além de supervisionar as edições das partituras pela Funarte. O compositor Ricardo Tacuchian, seu aluno de regência – e que está à frente da organização dos encontros e concertos na Antiga Sé – conta que, nos anos 1970, era necessária uma acrobacia para entrar na casa da professora.

– Sua sala, coberta de pilhas de partituras que ela estudava e classificava, era um verdadeiro labirinto onde se escondia um grande tesouro musical que a pesquisadora tentava resgatar e preservar.

Cleofe listava 237 obras em seu catálogo, mas esse número já cresceu.

– Houve descobertas – aponta Rosana. – Mas muita coisa foi perdida, em especial numa “queima de papeis velhos” da Igreja no inicio do século XX. Um catálogo de 1922 lista a metade das obras de José Mauricio relacionadas em 1902.

O padre era também um professor dedicado. Enquanto pôde, manteve em sua casa, na Rua das Marrecas, uma escola gratuita de música para meninos pobres. E escreveu um método de pianoforte.

Um Salieri para o nosso Mozart?

Em 1811, chegava ao Rio o compositor da corte em Lisboa, Marcos Portugal, convocado por D. João. Portugal era uma estrela na Europa e relutou muito em cumprir as ordens de seu soberano.

– O ‘repórter’ da época foi o bibliotecário do rei, que escreveu muitas cartas e contava numa delas: “ele [Marcos Portugal] chegou com os fumos mui subidos”, ou seja, de nariz em pé – se diverte Rosana. – Mas não acredito numa rivalidade, muito pelo contrário. Acho que José Mauricio ficou aliviado em dividir o ofício de compositor. Tanto que, no final da vida, ele ajudava Portugal, que por alguma razão, não retornou à Europa com D. João.

Rosana credita a Mário de Andrade essa percepção de que haveria uma disputa entre os dois, pela “necessidade de um contraponto brasileiro ao artista europeu”.

– Na época, o preconceito pesava, claro, com o tal “defeito”, mas o contexto histórico não corrobora essa disputa. Mario de Andrade trabalhava para afirmar uma brasilidade pela negação de artistas alinhados com uma estética europeia, inclusive Carlos Gomes. E José Mauricio surgia ali como um símbolo dessa polaridade, em contraponto com Portugal.

Abaixo, trecho da Missa Pastoril – o Glória – pela Cia Bachiana Brasileira:

Para ouvir, ao vivo a obra, de José Maurício Nunes Garcia: 

ANO JOSÉ MAURÍCIO NA ANTIGA SÉ – 250 ANOS DE NASCIMENTO

Todos os eventos se realizarão na Antiga Sé, A Casa de José Maurício

16/4 (Domingo de Páscoa), 17h

JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA – Abertura em Ré maior CPM 232
A MOZART – Sinfonia nº 27 em Sol maior, K. 199/161b
MANOEL DIAS DE OLIVEIRA – Vésperas do Sábado Santo
JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA  –  Matinas da Ressurreição CPM 200

Michele Ramos, soprano / Lara Cavalcanti, mezzo-soprano / Jacques Rocha, tenor / Ciro D’Araújo, barítono
Coro e Orquestra da Associação de Canto Coral – Jésus Figueiredo, regente

20/6 – 14h

(Na Capela do Senhor dos Passos da Antiga Sé)
Conferência: AS RELAÇÕES PROFISSIONAIS DE JOSÉ MAURÍCIO COM A COROA PORTUGUESA E COM O
I REINADO  BRASILEIRO.
Vasco Mariz, conferencista (ABM, IHGB, ABA e ACA)

7/8, 18h

JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA   –  Abertura em Ré maior (CPM 232) / “Creator Alme Siderum” – Moteto – (CPM 59) / Matinas de Santa Cecília (CPM 176) – em estreia contemporânea – versão de S. João del Rei)

Mariana Gomes, soprano / Carla Antunes, mezzo-soprano /Guilherme Moreira, tenor / Marcelo Coelho, barítono
Coral Brasil Ensemble da Escola de Música da UFRJ – Maria José Chevitarese, regente
Orquestra e Coro da Escola de Música da UFRJ -Maestro de Capela Ernani Aguiar, regente

6/9, 14h

(Na Capela do Senhor dos Passos da Antiga Sé)
Mesa Redonda: REVISITANDO JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA

  1. A obra sacra de José Maurício: Jésus Figueiredo (ACC)
  2. A obra profana de José Maurício: André Cardoso (ABM e UFRJ)
  3. O significado de José Maurício na Música Brasileira de hoje: Maria Alice Volpe (ABM e UFRJ)

Moderador: Ricardo Tacuchian (SAMAS, ABM e ABA)

21/9, 18h – véspera da data de nascimento de José Maurício

JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA  –   Te Deum, CPM 93 (1811) –
Associação de Canto Coral / Jésus Figueiredo, regente

21/12 – 18h

JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA  –    Matinas de Natal
Associação de Canto Coral / Jésus Figueiredo, regente

Entidades participantes 
SAMAS: Pe Silmar Alves (Presidente); Daisy Gil Ketzner (Secretária Executiva); Ricardo Tacuchian (Diretor Musical);  ASSOCIAÇÃO DE CANTO CORAL: Pedro Olivero (Presidente); Jésus Figueiredo (Diretor Musical); ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ: Maria José Chevitarese (Diretora); Ernani Aguiar (Regente da ORSEM); ACADEMIA BRASILEIRA DE MÚSICA: André Cardoso (presidente); Manoel Corrêa do Lago (Secretário); INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO: Arno Wehling (Presidente); Maria de Lourdes Viana Lyra (Secretária); ACADEMIA BRASILEIRA DE ARTE: Heloisa Aleixo Lustosa (Presidente); Victorino Chermont de Miranda (Secretário Geral); ACADEMIA CARIOCA DE LETRAS: Ricardo Cravo Albin (Presidente);Martinho da Vila (conselheiro)

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Circuito Musica Brasilis

Companhia Bachiana na Antiga Sé, no Circuito Musica Brasilis, 2009

Os Concertos do Circuito Musica Brasilis darão destaque à obra profana de José Maurício.

José Staneck (harmônica), Ricardo Santoro (cello) e Marina Spoladore (piano) apresentam as modinhas  e peças do Método para Pianoforte nas unidades do SESI (RJ):

Do Musica Brasilis

9/8 às 19h30 – Teatro do SESI Centro – Rio de Janeiro/RJ
18/8 – Teatro do SESI Jacarepaguá – Rio de Janeiro/RJ
22/8 – Unidade SESI Caxias – Duque de Caxias/RJ
15/9 – Unidade SESI Macaé – Macaé/RJ
29/9 – Unidade SESI Campos – Campos dos Goytacazes/RJ
30/9 – Teatro SESI Itaperuna – Itaperuna/RJ

Em outros estados, a soprano Marília Vargas vai ser a solista dos Elogios Dramáticos (Ulisseia e Triunfo da América), as únicas obras dramáticas sobrevivente de José Maurício (a ópera Le Due Gemelle pegou fogo com o teatro). Os concertos acontecem em:

31/8 – Recife – Teatro de Santa Isabel – Orquestra Sinfônica da UFPE – Regência: Sergio Dias
27/9 – Aracaju – Theatro Atheneu  – com ORSSE (Orquestra Sinfônica de Sergipe)  – Regência: Guilherme Mannis
Data ainda em aberto  – Salvador – Teatro Castro Alves – OSBA (Orquestra Sinfônica da Bahia) – Regência Carlos Prazeres

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OSESP

18 de junho 2017, 16H
CORO DA OSESP
CARLOS ALBERTO FIGUEIREDO REGENTE
ALESSANDRO SANTORO ÓRGÃO 
MARIALBI TRISOLIO VIOLONCELO

Johann Ludwig BACH – Unsere Trübsal
José Mauricio Nunes GARCIA – Missa de Réquiem
António MARQUES LÉSBIO – Pois sois mãe da flor do campo
João RODRIGUES ESTEVES – Missa a Oito Vozes

23, 24 e 25 de novembro

 

Luigi CHERUBINI – Démophoon: Abertura
Niccolò PICCINNI – Didon: Ária
Antonio SACCHINI – Renaud: Excertos
Antonio SALIERI – Les Danaïdes: Excertos
Luigi CHERUBINI  – Sinfonia em Ré maior
José Mauricio Nunes GARCIA – Abertura Zemira

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Filarmônica de Minas

Série Fora de Série

17/ 6 – sábado – MINAS GERAIS NOS SÉCULOS XVIII E XIX

Marcos Arakaki, regente /  Lina Mendes, soprano / Edineia de Oliveira, alto / Flávio Leite, tenor / Carlos Eduardo Marcos, baixo /  Coral Concentus Musicum de Belo Horizonte / Iara Fricke Matte, regente do coral

PORTUGAL Abertura Il Duca di Foix
DIAS DE OLIVEIRA Magnificat
LOBO DE MESQUITA Te Deum
NUNES GARCIA Requiem

16 e 17/11 – NEUKOMM, O AUSTRÍACO DO BRASIL IMPÉRIO

Bruno Procopio, regente convidado / Marcus Julius Lander, clarinete

JM NUNES GARCIA Abertura Zemira
WEBER Concertino para clarinete em Mi bemol maior, op. 26
WEBER Sinfonia nº 1 em Dó maior, op. 19
NEUKOMM Grande Sinfonia Heroica, op. 19