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Eliane Coelho e Gabriella Pace / Foto: Leo Aversa

| Jenůfa – ópera inédita no Rio finalmente estreia no Municipal dia 2/4

31/03/2017 - Por Barbosa Chaves e Equipe Tutti

Obra do tcheco Leoš Janáček, suspensa em outubro do ano passado na paralisação dos artistas do Theatro, estreia nesse domingo, como primeira realização do Municipal em 2017

 

– A ópera proibida finalmente será encenada no Rio, e com mais garra ainda.

É dessa maneira que André Heller-Lopes, atual diretor artístico do Theatro Municipal do Rio, celebra a temporada da ópera anunciada para outubro de 2016. Suspensa na ocasião pela paralisação dos corpos artísticos da casa [leia  aqui], estreia nesse domingo (2/4), para quatro récitas. A produção, parceria da Companhia Ópera Livre de Heller-Lopes com o Municipal, permanece a mesma, com exceção do regente e diretor artístico: o chileno Rodolfo Fischer foi substituído por Marcelo de Jesus.

Banalizado pelos sangrentos conflitos do nosso tempo, notadamente o da Síria, o infanticídio ainda provoca horror e indignação. No entanto, há indícios de sacrifícios de crianças em civilizações e épocas distintas, como a Mesopotâmia e o Império Inca. Na mitologia grega, Medeia mata os filhos para se vingar do marido infiel. Já em Jenůfa, do tcheco Leoš Janáček (1854-1928), o infanticídio é cometido para eliminar o fruto de um amor inconveniente e proteger a honra da protagonista.

Heller-Lopes / Divulgação

Sombria e densa no tema, mas com passagens muito melodiosas, a ópera em três atos é finalmente apresentada pela primeira vez no Theatro Municipal do Rio, na versão original, em coprodução com a Companhia Ópera Livre. A concepção e a direção do espetáculo são de Heller-Lopes, que recentemente dirigiu Manon Lescaut, em Buenos Aires, e Nabuco, em Lisboa. Em março, com a mudança de comando da Secretaria [veja aqui] e do Municipal [aqui], ele assumiu a direção artística da casa.  

– Adoro dirigir o que é pouco conhecido, porque me dá muita liberdade de criação sobre o libreto – explica Heller-Lopes, para quem as óperas mais populares já carregam muitas referências, o que dificulta um novo olhar.

A montagem de Jenůfa tem outro diferencial, além do ineditismo artístico. Está sendo bancada pela parceria entre a Companhia Ópera Livre e o Municipal, sem sequer patrocínio ou lei de incentivo.  Heller investiu do bolso e a bilheteria será destinada aos parceiros, na proporção 70%-30% (respectivamente para a Companhia e para o Theatro, que entra com a logística, o palco em si e os corpos artísticos e técnicos).

A iniciativa não é novidade para Heller, que montou Anjo Negro (2012) e Sonho de uma Noite de Verão (2013) no Parque Lage, no Rio. Esta montagem passou pelo Teatro Avenida de Buenos Aires e da produção argentina vieram o tenor Eric Herrero (no papel de Laca), os projetos do cenário original, de Daniela Taiana, e os figurinos de Sofia di Nunzio – a maioria, adaptada aqui. Toda a companhia está apostando.

– Estamos fazendo Jenůfa num momento em que a participação dos corpos artísticos é um trunfo, um diálogo saudável – diz Heller-Lopes, que assumiu a direção artística do Municipal com a mudança da estrutura da Secretaria de Cultura. – O secretário [André Lazaroni] é hoje o presidente da Fundação e foi muito ativo na época em que se discutiu a possibilidade do Theatro se tornar uma OS, organização Social.

O diretor vê o formato de parcerias como um prenuncio de novos formatos de produção.

– Estamos montando uma temporada realista, privilegiando os cantores nacionais e artistas da casa. Jenůfa foi um projeto piloto sem que a gente soubesse disso. Ano que vem, por exemplo, é o centenário de Leonard Bernstein e pensamos: por que não trazer um interlocutor do mundo do musical para fazer West Side Story com a qualidade que o Municipal pode oferecer, com [Fábio] Mechetti na regência, por exemplo?

Sobre sua nova função como diretor artístico, Heller-Lopes complementa:

– Sem nenhuma crítica às gestões passadas, gosto de estar afinado com o Secretário. Vamos fortalecer os artistas do Theatro e chamar o público para prestuguar o grande equipamento cultural do Estado.

Duas divas no palco

Eliane Coelho / Foto: Leo Aversa

Eliane Coelho, considerada uma das melhores cantoras líricas brasileiras em atividade, é Kostelnička, a madrasta que engendra a morte do filho ilegítimo de Jenůfa. No papel-título, a soprano brasileira radicada em Copenhague, Gabriella Pace,  concorda que o ineditismo da obra no Rio se soma ao impacto da montagem.

– Gosto muito da ideia de que será uma grande surpresa para o público. E posso garantir que vão gostar. A música é linda e a história, muito real e próxima de todos nós.

Janáček levou 10 anos para concluir a partitura e o libreto, baseado na peça Sua Enteada, de Gabriela Preissová.  Durante boa parte desse tempo, o compositor conviveu com a doença da filha, que acabou morrendo pouco depois de concluída a obra, em 1903.

A estreia foi na cidade Brno, onde ele adquiriu boa parte de sua formação musical. Essa é a versão que ocupa o Municipal. Só mais de uma década depois, com modificações do próprio autor, Jenůfa seria encenada no Teatro Nacional de Praga.

A história, apesar de macabra, é relativamente simples e se passa em um remoto vilarejo da Morávia (na atual República Tcheca) no século XIX. Indiferente ao amor de Laco, interpretado pelo tenor Eric Herrero (que também cantou o papel em Buenos Aires), a bela filha de um velho moleiro se apaixona por Števa, interpretado por Ivan Jorgensen, e, em segredo, espera um filho dele. Num rasgo de ciúmes, Laco corta o rosto da camponesa com uma lâmina para que, desfigurada, fosse desprezada pelo rival.

Quando nasce o filho bastardo de Jenůfa, sua madrasta o afoga nas águas congeladas de um riacho, com o intuito de livrá-la do estigma de mãe solteira para que tivesse nova chance de reconstruir sua vida. A trama, no entanto, não confirma a desgraça anunciada. Jenůfa entende as razões que levaram a madrasta a cometer tamanha atrocidade e aceita, finalmente, o amor de Laco.

– É uma ópera profundamente humana, sobre pessoas comuns que caem numa armadilha do destino, um momento de loucura que muda a existência delas – observa Heller-Lopes. – Nesse diapasão, faço uma abordagem realista, sem os recursos da grandiosidade operística, que considero fiel ao espírito da obra.

Gabriella Pace / Foto: Leo Aversa

No último ato, as duas sopranos encaram um dueto de intensa dramaticidade, que requer qualidades vocais capazes

de comunicar dor e revolta, arrependimento e compaixão. E tudo isso em tcheco, idioma de origem eslava que poucos cantores ocidentais dominam.

– É um dos meus grandes desafios – reconhece Pace.  – O papel é extenso e exige muita dedicação ao idioma. Estou estudando tcheco há mais de dois meses.

Isso se soma aos enormes desafios vocais da ópera, segundo a cantora.

– Há momentos de explosão, pela densidade do texto e da música. Faz mais de um ano que estou trabalhando vocalmente para cantar o papel – revela Pace, muito elogiada como Nanetta na recente montagem de Falstaff, de Verdi, da Ópera Real da Dinamarca.

Ou seja, são muitos desafios – mas o que seria da arte sem isso?

– Vai dar certo, ou já deu, na medida em que traz um título relevante e novo modelo de realização, complementar ao tradicional – conclui o diretor.

 

 

Elenco:

Jenůfa – Gabriella Pace / Kostelnička Buryjovka – Eliane Coelho / Laca Klemeň – Eric Herrero / Števa Buryja – Ivan Jorgensen / Starek, o velho moleiro  Leonardo Neiva / Starenka Buryjovka, a matriarca  Carolina Faria / Prefeito – Vinicius Atique
Cenários – Daniela Taiana / Figurinos – Sofia di Nunzio / Desenho de Luz  Fábio Retti

Theatro Municipal do Rio

2 e 9 de abril, 17h
4 e 7 de abril, 20h

Ingressos (na bilheteria do Theatro ou pelo Ingresso Rápido)

Frisas e camarotes – R$ 600
Plateia e balcão nobre – R$ 100
Balcão superior – R$ 72
Galeria – R$ 36