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Eliane Coelho e Gabriella Pace / Foto: Leo Aversa

| Jenůfa – temporada da ópera inédita no Rio é suspensa no Municipal do Rio

13/11/2016 - Por Barbosa Chaves

Obra do tcheco Leoš Janáček teve suas quatro récitas adiadas. Comunicado do Municipal desta segunda confirma a suspensão

 

ATUALIZAÇÃO (21/11) – leia sobre as paralisação dos funcionários aqui

Banalizado pelos sangrentos conflitos do nosso tempo, notadamente o da Síria, o infanticídio ainda provoca horror e indignação. No entanto, há indícios de sacrifícios de crianças em civilizações e épocas distintas, como a Mesopotâmia e o Império Inca. Na mitologia grega, Medeia mata os filhos para se vingar do marido infiel. Já em Jenůfa, do tcheco Leoš Janáček (1854-1928), o infanticídio é cometido para eliminar o fruto de um amor inconveniente e proteger a honra da protagonista.

Sombria e densa no tema, mas com passagens muito melodiosas, a ópera em três atos é apresentada pela primeira vez no Theatro Municipal do Rio, na versão original, em coprodução com a Companhia Ópera Livre. A direção e concepção do espetáculo é de André Heller-Lopes, que recentemente dirigiu Manon Lescaut, em Buenos Aires, e Nabuco, em Lisboa. A direção musical e a regência são do chileno Rodolfo Fischer.

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         Heller-Lopes / Divulgação

– Adoro dirigir o que é pouco conhecido, porque me dá muita liberdade de criação sobre o libreto – explica Heller-Lopes, para quem as óperas mais populares já carregam muitas referências, o que dificulta um novo olhar.

A montagem de Jenůfa tem outro diferencial, além do ineditismo artístico. Está sendo bancada pela parceria entre a Companhia Ópera Livre e o Municipal, sem sequer patrocínio ou lei de incentivo.  Heller está investindo por conta própria e a bilheteria será destinada aos parceiros – na proporção 70%-30% (respectivamente para a Companhia e para o Theatro, que entra com a logística, o palco em si e os corpos artísticos e técnicos).

Jenůfa é uma das grandes óperas do século passado – diz João Guilherme Ripper, presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio. – André Heller trouxe a proposta de uma coprodução a partir da montagem que ele fez em Buenos Aires com muito sucesso. É uma oportunidade dupla: trazer essa obra ao Rio pela primeira vez e apoiar a iniciativa de uma companhia independente de ópera com ótimos cantores. Já fizemos algo parecido com O Menino Maluquinho e isso é uma saudável busca de novos formatos e parcerias.

A iniciativa não é novidade para Heller, que montou Anjo Negro (2012) e  Sonho de uma Noite de Verão (2013) no Parque Lage, no Rio. Esta montagem passou pelo Teatro Avenida de Buenos Aires e da produção argentina vieram o tenor Eric Herrero (no papel de Laca), os projetos do cenário original, de Daniela Taiana, e os figurinos de Sofia di Nunzio – a maioria, adaptada aqui. Toda a companhia está no risco. Apostando junta.

Duas divas no palco

Eliane Coelho / Foto: Leo Aversa

Eliane Coelho / Foto: Leo Aversa

Eliane Coelho, considerada uma das melhores cantoras líricas brasileiras em atividade, é Kostelnička, a madrasta que engendra a morte do filho ilegítimo de Jenůfa. No papel-título, a soprano brasileira radicada em Copenhague, Gabriella Pace,  concorda que o ineditismo da obra no Rio se soma ao impacto da montagem.

– Gosto muito da ideia de que será uma grande surpresa para o público. E posso garantir que vão gostar. A música é linda e a história, muito real e próxima de todos nós.

Janáček levou 10 anos para concluir a partitura e o libreto, baseado na peça Sua Enteada, de Gabriela Preissová.  Durante boa parte desse tempo, o compositor conviveu com a doença da filha, que acabou morrendo pouco depois de concluída a obra, em 1903.

A estreia foi na cidade Brno, onde ele adquiriu boa parte de sua formação musical. Essa é a versão que ocupa o Municipal. Só mais de uma década depois, com modificações do próprio autor, Jenůfa seria encenada no Teatro Nacional de Praga.

A história, apesar de macabra, é relativamente simples e se passa em um remoto vilarejo da Morávia (na atual República Tcheca) no século XIX. Indiferente ao amor de Laco, interpretado pelo tenor Eric Herrero (que também cantou o papel em Buenos Aires), a bela filha de um velho moleiro se apaixona por Števa, interpretado por Ivan Jorgensen, e, em segredo, espera um filho dele. Num rasgo de ciúmes, Laco corta o rosto da camponesa com uma lâmina para que, desfigurada, fosse desprezada pelo rival.

Quando nasce o filho bastardo de Jenůfa, sua madrasta o afoga nas águas congeladas de um riacho, com o intuito de livrá-la do estigma de mãe solteira para que tivesse nova chance de reconstruir sua vida. A trama, no entanto, não confirma a desgraça anunciada. Jenůfa entende as razões que levaram a madrasta a cometer tamanha atrocidade e aceita, finalmente, o amor de Laco.

– É uma ópera profundamente humana, sobre pessoas comuns que caem numa armadilha do destino, um momento de loucura que muda a existência delas – observa Heller-Lopes. – Nesse diapasão, faço uma abordagem realista, sem os recursos da grandiosidade operística, que considero fiel ao espírito da obra.

No último ato, as duas sopranos encaram um dueto de intensa dramaticidade, que requer qualidades vocais capazes de comunicar dor e revolta, arrependimento e compaixão. E tudo isso em tcheco, idioma de origem eslava que poucos cantores ocidentais dominam.

Gabriella Pace / Foto: Leo Aversa

        Gabriella Pace / Foto: Leo Aversa

– É um dos meus grandes desafios – reconhece Pace.  – O papel é extenso e exige muita dedicação ao idioma. Estou estudando tcheco há mais de dois meses.

Isso se soma aos enormes desafios vocais da ópera, segundo a cantora.

– Há momentos de explosão, pela densidade do texto e da música. Faz mais de um ano que estou trabalhando vocalmente para cantar o papel – revela Pace, muito elogiada como Nanetta na recente montagem de Falstaff, de Verdi, da Ópera Real da Dinamarca.

Ou seja, são muitos desafios – mas o que seria da arte sem isso?

– Vai dar certo, ou já deu, na medida em que traz um título relevante e novo modelo de realização, complementar ao tradicional – conclui o diretor.

 

Elenco:

Jenůfa – Gabriella Pace / Kostelnička Buryjovka – Eliane Coelho / Laca Klemeň – Eric Herrero / Števa Buryja – Ivan Jorgensen / Starek, o velho moleiro  Leonardo Neiva / Starenka Buryjovka, a matriarca  Carolina Faria / Prefeito – Vinicius Atique

Cenários – Daniela Taiana / Figurinos – Sofia di Nunzio / Desenho de Luz  Fábio Retti

Serviço aqui – dias 18, 20,  24 e 26/11.