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Sede da Scar / Foto: WeArt

| Jaraguá do Sul, cidade que respira música, dança, pintura com sua Sociedade Cultura Artística

15/02/2017 - Por Luciana Medeiros

Uma tradição de apoio e prestígio à educação artística, com origens 60 anos atrás, faz da cidade catarinense um caso especial no Brasil. Entre as realizações, a sede de 10 mil m2 com dois teatros

 

Jaraguá do Sul, cidade de 160 mil habitantes, fica pertinho de Joinville, no norte de Santa Catarina, e tem um belo IDHM – o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal – de 0,803 numa escala de 0 a 1. Entre o que há de melhor na cidade, salta aos olhos um projeto que completou 60 anos de existência e é uma raridade no panorama da educação para as artes no Brasil – a Scar, Sociedade Cultura Artística.

Fundada em 1956 por um grupo de moradores da região, a ideia inicial era dar sede a uma orquestra de amigos. Mas a semente frutificou. Nessas seis décadas, a Scar cresceu como instituição musical e expandiu sua atuação para outras modalidades artísticas. Mais do que isso: se estabeleceu como um modelo de atuação que independe do poder público e promove o fazer artístico, bem estar, identidade, crescimento à cidade.

– A Sociedade surgiu de maneira visionária – explica Edilma Lemanhê, gerente executiva da Scar. – O grupo original, liderado pela pianista Adélia Fischer e seu marido Francisco, tinha essa visão pioneira da cultura e pensava de maneira plural. Já no inicio incluíram dança, teatro, artes plásticas na sociedade. Na época, havia aqui 30 mil habitantes, no máximo.

O que se vê hoje é um movimento sólido, original e invejável de cultivo da arte  como ferramenta de educação e profissionalização, que atende a mil alunos – 50%, bolsistas integrais. Jaraguá do Sul, numa região de imigração europeia, é uma cidade com forte vertente industrial e manteve o espírito da colaboração inaugurado naquele momento.

– Acredito que temos o conceito da excelência que veio como legado, uma consciência que veio passando de geração a geração – acredita Edilma. – É a missão de encarar a cultura como formação cidadã, e para formar artistas também, claro. Os empresários da região entendem a necessidade de criar uma harmonia, trabalhar juntos, oferecer o conhecimento e a beleza. Isso é um privilégio.

A Scar tem vários pilares de trabalho. O primeiro é o programa Música para Todos oferece aulas de 20 instrumentos a crianças, jovens e adultos, com formação teórica e prática de conjunto acopladas; os alunos podem participar das orquestras – a jovem  e a Filarmônica, que dá acesso a alguns alunos para a performance ao lado de músicos profissionais. Também existem bandas, corais e grupos de câmara – e todos fazem apresentações e turnês pela região.

– Temos também os cursos de dança. Todas as atividades têm alunos particulares e bolsistas integrais – ressalta a gerente. – E promovemos anualmente, desde 2006, o Festival de Música de Santa Catarina, o Femusc, trazendo mestres do mundo inteiro para apresentações, masterclasses. Esse ano tivemos, sob a direção artística do oboísta e regente Alex Klein, a harpista Rita Constanzi, o violinista Leon Spierer, que foi spalla da Filarmônica de Berlim, o pianista Alexandre Dossin, entre outros.

Capizote String Quartet no FEMUSC – 12º Festival de Música de Santa Catarina

Um dos grandes orgulhos da cidade é o edifício sede, de 10 mil metros quadrados, com um teatro de mil lugares, outro de 250 lugares, dezenas de salas multiuso e específicas para música, dança ou artes plásticas. Inaugurado há 13 anos, levou 12 anos para ser construído.

– Em 2016, abrigamos 340 eventos com um público total de 120 mil pessoas. Estatisticamente, a prova de que a cidade inteira está comprometida com a arte.

Edilma acredita, sim, que os 60 anos de prática educacional e artística contaminaram, por assim dizer, o ambiente da cidade. Ela enxerga um “diferencial humano” em Jaraguá do Sul.

– A gente sabe como a população brasileira é desassistida, de modo geral. Aqui nós percebemos mais consciência social, mais respeito, um desejo real pela cultura. Abrimos 200 vagas e recebemos mil candidatos!

Estruturada como uma entidade sem fins lucrativos, a Scar trabalha com incentivo fiscal da Lei Rouanet e também recebe aportes diretos das empresas parceiras, além dos recursos da locação dos espaços. As inscrições para o período 2017 estão abertas até esta quinta, 16/2, para a seleção na semana seguinte. O momento de aperto financeiro do país não deixou de afetar o projeto, mas a decisão foi a de reduzir quatro dias do Festival e manter a essência do projeto.

– A palavra chave é ‘prioridade’ – define Edilma. – Muitas vezes a questão não é de recursos financeiros, mas de tempo e de foco, ajustar o que fazer e como fazer. Adoraríamos receber secretários de cultura de todo o país para trocar experiências e oferecer nossa contribuição para a política cultural. Porque aqui vimos que, mesmo nos momentos de crise, mantemos o cerne e combatemos a desesperança. Não vamos nos render.