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Helder Parente

| “Helder Parente era um Renaissance Man” – Nicolas de Souza Barros homenageia o mestre

07/03/2017

Falecido nesse dia 6 de março, Parente foi uma grande figura da música - "um dos mais dotados músicos que o Brasil já teve", escreve o instrumentista, recordando sua convivência

 

Quantos de nós poderíamos escrever algo sobre Helder?

Como tantos, eu tenho muitas histórias a compartilhar. Tive uma grande sorte – e um grande azar.

Minha grande sorte: usufruir da sua companhia, dos seus conhecimentos e de seu fino senso de humor, e por dividir tantas vezes o palco com um dos mais dotados músicos que o Brasil já teve.

Meu grande azar: Helder nunca foi meu professor direto (mas sempre o foi indiretamente). Eu vejo isso a partir das centenas de comentários postadas nas últimas horas por alunos e alunas, que enchem os meus olhos de lágrimas.

Meu contato mais próximo com Helder foi iniciado por intermédio de um dos seus maiores amigos: o compositor norte-americano Colin Sterne, também um estudioso de música antiga, e que foi um mentor próximo no ano em que estudei na Universidade de Pittsburgh. Quando voltei de lá e comecei a estudar na UNIRIO, no início da década de 1980, Colin me recomendou para Helder, integrante do Quadro Cervantes e uma das figuras mais conhecidas da música antiga brasileira de então, sendo eu simplesmente alguém que estudava alaúde por cinco anos. Com isso, comecei a tocar com Helder em 1982, no  Duo Arlequim, e fazíamos de tudo um pouco, desde o Renascimento até Villa-Lobos.

Helder era mestre da maioria das famílias instrumentais da Música Antiga: flauta doce, com uma das sonoridades mais belas; viola da gamba, canto, percussão, ainda tocando instrumentos incomuns. Tinha uma compleição física invejável e sua voz “caliente”, com timbre inolvidável, era igualmente belo no canto quanto na fala. E ainda era mestre de Orff e da dança renascentista. Era – literalmente – o “Renaissance Man” brasileiro. E falava – bem – cinco línguas. Lembro de um recital em duo para reitores de universidades latino-americanas, no qual o seu sotaque em espanhol foi elogiado por um dos “magníficos”.

Outra memória é de um conjunto que estabelecemos na UNIRIO na década de 1980, com Brigitta Grendig e Luis Carlos Peçanha, entre outros. Depois de um longo ensaio de última hora, estávamos no meio do recital, e no final de uma obra, percebi junto com Helder que não tínhamos decidido como terminar a peça – ele na percussão e eu no alaúde. Bastou um olhar (dele) para que chegássemos a um final lindamente executado, melhor do que se tivesse sido ensaiado.

A formação original do Quadro Cervantes contou por um período curto com Homero Magalhães Filho, tendo como membros estáveis nas décadas de 1970-1980 Myrna Herzog, Rosana Lanzelotte e Helder e a soprano Clarice Szajnbrum, que ingressou no conjunto ainda em meados dos 1970.

Ingressei no Quadro Cervantes em 1990, quase na mesma época que Mario Orlando, e participei de centenas de recitais no conjunto na formação com Helder, Clarice, Mario. Posteriormente, Veruschka Mainhard integraria o conjunto por alguns anos. E nos últimos anos, o Quadro, com Helder, Mario e eu próprio, trabalhou com as sopranos Sonia Leal Wegenast, Marcia Taborda e Marília Vargas.

Quadro Cervantes com Nicolas, Helder, Marcia Taborda e Mario Orlando

A partir da década de 1990, o Quadro Cervantes realizou duas gravações (existem outras anteriores): o LP brinde Quadro Cervantes 20 anos, da Brascan, 1994. Formação: Helder, Clarice, Veruschka e eu; trazia cancioneiros Cantigas de Santa Maria, Llibre Vermeil, Palácio, Medinacelli, canções sefaraditas e Marcos Portugal e Padre José Maurício, entre outros. O CD  Quadro Cervantes: Brasil 500 anos (de 2000, formação: Helder, Clarice, Mario Orlando e eu próprio) tinha produção independente, com obras do Cancioneiro Martin Codax, de Portugal, século XIII; Cancioneiro de Hortensia e autores ibéricos do século XVI, obras sacras portuguesas e brasileiras do século XVII e modinhas e lundus brasileiros dos séculos XVIII-XX.

O curioso: inicialmente, Helder não quis gravar o CD de 2000. Foi um parto! Mas uma vez iniciados os trabalhos, enquanto eu me esfalfava para tocar as minhas partes de cordas dedilhadas, Helder entrava e geralmente conseguia acertar as partes de flauta doce de primeira, e com aquela sonoridade. Que inveja!

Nos últimos anos, Helder começou a se isolar, estando muito ligado à Gilda, uma poodle francesa. Na medida em que ela ia envelhecendo, ele passou a ficar cada vez mais atento, inclusive recusando muitos convites para ficar cuidando dela. Gilda faleceu um pouco antes do Carnaval de 2017.

O que dizer de Helder? Sinto-me muito incapaz. Fiz duo com ele, Quadro Cervantes com ele, briguei com ele, tentei ajudar e terei sempre uma dívida eterna com ele.