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| Francisco Mignone, 120 anos – Trio Mignone celebra o compositor

11/04/2017 - Por Miriam Grosman

Integrante do Trio , junto com Afonso Oliveira e Ricardo Santoro, a pianista escreve sobre o compositor e sua obra, em ano de efeméride. O Trio toca na Sala Cecília Meireles em 18 de abril, em recital tributo ao músico

 

Francisco Mignone nasceu em São Paulo, filho de imigrantes italianos. Começou a estudar música com o pai, o flautista Alferio Mignone, músico da Orquestra Municipal de São Paulo e regente. Aos dez anos, fez sua iniciação ao piano e passou a integrar, como pianista, orquestras de baile a fim de custear seus estudos. Diplomou-se no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo em flauta, piano e composição e desde jovem já compunha peças sob o pseudônimo de Chico Bororó.

Sua produção abrange praticamente todos os gêneros e sendo um compositor essencialmente sinfônico, dedicou grande parte de suas obras à orquestra, como óperas, bailados, missas, poemas sinfônicos, oratórios e concertos com solistas. Embora em menor escala, a música de câmara instrumental foi igualmente significativa, com as mais variadas formações, com destaque especial para a numerosa obra vocal.

Como instrumento solo, o piano ocupa um lugar privilegiado dentro da sua magnífica produção. Mignone era um excelente pianista e, talvez por essa razão, pode-se dizer que foi um dos compositores brasileiros que melhor escreveu idiomaticamente para o instrumento. Ao todo, foram 232 obras para piano solo nos mais diversos gêneros. Não podemos deixar de mencionar o interesse que Mignone tinha pelas crianças e jovens, o que pode ser verificado através da significativa quantidade de peças infantis que lhes dedicou; sem dúvida, um tesouro para a formação inicial do músico.

Muito apropriadamente, o pianista José Eduardo Martins classificou as peças para piano solo sob duas vertentes: a cosmopolita e a nacionalista. De modo coerente, essa classificação pode ser estendida a grande parte de suas composições, considerando-se que dificilmente Mignone assumiria procedimentos ou critérios diferentes para cada instrumento isolado ou mesmo em conjunto.

A vertente cosmopolita ou universalista representa a tradição europeia, levando-se em conta não somente a ascendência italiana do compositor, mas também o fato de que Mignone residiu pelo menos uma década naquele continente, concluindo por lá seus estudos, onde manteve contato direto com compositores de diversas nacionalidades. São obras que refletem principalmente a música italiana e a francesa, além da influência de compositores como Chopin, Liszt, Debussy e Ravel, por exemplo.

A vertente nacionalista está presente em obras que transmitem elementos de raízes nacionais, tanto nas composições de caráter urbano, como as valsas e modinhas, por exemplo, como nas que estão associadas ao folclore, como as lendas e os ritmos africanos. Sobre as valsas, seria relevante sublinhar que Mignone foi denominado por Manuel Bandeira de “O Rei da Valsa”, tão prolífica foi a sua produção musical neste gênero. Compôs mais de 100 valsas para diversos instrumentos, que retratam, dentro do espírito da música popular urbana, o caráter seresteiro fortemente identificado nas rodas de choro em instrumentos como a flauta, o violão e o cavaquinho.

Em muitas obras, observamos a fusão dos elementos universais e nacionais, como por exemplo, os dois trios para flauta, violoncelo e piano, compostos em 1981. No Trio nº 1, o primeiro movimento apresenta seções de caráter contrastante, mas nitidamente cosmopolita. O segundo movimento é uma modinha, com o conhecido sabor da música popular brasileira sentimental. Já o terceiro movimento, Festança sem Boi,é uma reedição da Suíte Campestre para orquestra, composta em 1918!

No segundo Trio, o primeiro movimento expressa o caráter vocal à imagem do bel canto italiano, uma verdadeira ária operística. O segundo movimento, Outra Modinha, assim por ele denominada, é mais dramática do que a anterior, mas igualmente lírica, evidenciando com nitidez a representação do violão nos três instrumentos da formação do trio. O terceiro movimento inclui um fugato, evocando, dessa forma, a tradição da música europeia no seu caráter formal e contrapontístico.

Após compor os dois trios para flauta, violoncelo e piano, Francisco Mignone escreveu um adendo aos trios, revelando de forma verdadeira e sensível parte significativa do seu legado como homem e como músico:

“A minha arte ou produção artística sempre foi, é e será apoiada e partindo do dilema pirandelliano: “personagens em busca de um autor” ou: “assim é se me parece ou vos parece”. Neste ano de uma trelente tradição cristã, escrevi dois Trios para flauta, violoncelo e piano. Por que dois nem eu sei mais. Parti de uma pressuposta paródia verdiana: “voltemos ao passado, talvez seja um progresso”. Uma volta ao que já fui depois de ter vencido barreiras dentro e fora do pentagrama. Tudo experimentei: fui tradicionalista, romântico, impressionista, pressionista, DODECAFONISTA- SERIALISTA e até mesmo vanguardista aleatório (Sinfonia Transamazônica). Nunca mexi com música eletrônica por falta de aparelhagem, creio. Mas de vez em quando, tal como fazem os adeptos da culinária e da gastronomia, gosto de voltar à feijoada, à bacalhoada e à gorda macarronada, regando tudo com coquetéis nacionalistas villalobianos-nazarethianos-chicobororenses ao som do parati mignoniano. E juro que não me desculpo, não me perdoo e nem me arrependo. Ouvindo os presentes trios, revivo o italianozinho do Braz-Bexiga e Rua do Paredão cantando alguma coisa que ainda vive dentro de mim e que meus pais me deixaram como herança gostosa até que saudoso, suspiro “SIGNORI, LA COMMEDIA È FINITA” – Manhã tem mais”.  Francisco Mignone, 1981