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A Filarmônica no palco da Sala Minas Gerais / Foto: Rafael Mota

| Filarmônica de Minas rejuvenesce a música clássica

28/10/2016 - Por Barbosa Chaves

Com repertório eclético e excelência musical, a orquestra mineira, que tem à frente Fabio Mechetti desde que era somente um projeto, conquista o público jovem e anuncia ambiciosa programação para 2017

 

É uma noite qualquer no tradicional bairro do Barro Preto, em Belo Horizonte. Um movimento incomum altera a rotina da região. Hipsters, jovens casais, garotos tatuados, estudantes ainda uniformizados, senhoras e senhores de meia idade confluem para a rua Tenente Brito Melo, novo endereço da Filarmônica de Minas  – a Sala Minas Gerais, inaugurada em 2015 e já referência de arrojo arquitetônico e bom gosto na paisagem urbana da capital mineira (veja imagem no fim do texto).

Em menos de dez anos de existência – o primeiro concerto foi em 2008 -, a orquestra mineira firmou-se como uma das melhores do país. E uma das mais jovens, não só pela média de idade dos músicos e do público, como pela alegria juvenil com que se apresenta no impactante auditório e em cidades do interior do estado.

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            Fabio Mechetti / Foto: Rafael Mota

– Desde o início, em 2007, o que tínhamos em mente não era a criação de mais uma orquestra, mas de uma orquestra de excelência que tivesse a ambição de chegar a um nível internacional – relembra o maestro Fabio Mechetti, diretor artístico e regente titular da Filarmônica. Ou para simplificar, o pai da orquestra.

Mechetti foi responsável pelo projeto apoiado pelo Governo de Minas e é o motor por trás da rápida evolução da Filarmônica. Além do apoio oficial, a orquestra tem patrocinadores para as todas as séries da temporada. O orçamento total de 2016 chegou aos R$ 29 milhões.

Casa nova

A mudança para a nova sede no ano passado foi um passo importante nessa trajetória. O projeto é do arquiteto José Augusto Nepomuceno, o mesmo da Sala São Paulo. Segundo o pianista brasileiro Nelson Freire, a sala tem uma das melhores acústicas da América Latina.

Ao longo de sua curta história, a orquestra mineira vem conseguindo a proeza de atrair um público cada vez mais jovem em um momento em que as grandes do mundo lutam para renovar suas plateias. Cerca de 40% das assinaturas em 2016 foram feitas por jovens de até 30 anos. O mais jovem assinante tem apenas oito. Segundo Mechetti, três fatores foram fundamentais para a formação desse novo público.

– O primeiro é a qualidade da programação, dos solistas e da execução das obras; segundo, a diversificação do repertório, incluindo obras especialmente encomendadas pela Filarmônica; e terceiro, ingressos a preços razoáveis.

É isso. Sem gastar muito, jovens de todas as camadas sociais se misturam na plateia para apreciar música que dificilmente escutariam não fosse a criativa programação da Filarmônica. Entre várias novidades e peças pouco executadas, recentemente a orquestra apresentou a suíte sinfônica La noche de los Mayas, do mexicano Silvestre Revueltas (1899-    1940).

O vigor primitivo da música foi uma oportunidade perfeita para que a orquestra exibisse sua própria vitalidade, especialmente nas eletrizantes sequências para percussão. Um prato cheio para o percussionista Werner Silveira, responsável por um dos mais bem-sucedidos projetos de formação de plateias da Filarmônica – os Concertos Comentados – uma palestra informal de meia hora que antecede o espetáculo. Só neste ano, serão 48.

– O que a gente quer é deixar todo mundo com a sensibilidade à flor da pele, para potencializar a experiência do que a plateia vai ouvir – explica o percussionista, que participou da criação de alguns instrumentos curiosos, como o garrafafone, usado em Parade, de Satie, e o martelo de Thor, feito especialmente para a Sexta de Mahler.

Fora da zona de conforto

O repertório variado inclui obras contemporâneas e outras nem tanto, mas que, mesmo assim, costumam despertar desconfiança em certas faixas de público que preferem o que já foi consagrado. Na temporada de 2017 – a Filarmônica foi das primeiras a lançar o programa do ano que vem – tem Vivaldi, Tchaikovsky e Mahler. E tem também Lobo de Mesquita, o pouco conhecido setecentista mineiro, Ferde Grofé, com sua suíte sinfônica Grand Canyon, e Hans Gál, cujo Concerto para Violoncelo será executado por Antonio Meneses, em comemoração aos seus 60 anos. (veja aqui a programação completa para 2017).

Desde 2008, já foram apresentadas 835 obras de 242 compositores, do barroco ao contemporâneo. E gravados sete álbuns, entre eles a Dança Sinfônica, trilha do Grupo Corpo criada pelo compositor mineiro Marco Antônio Guimarães, e três CDs com os Guitar Manucripts, de Villa-Lobos, pelo selo Naxos. As mais de 800 mil pessoas que já ouviram a Filarmônica parecem aprovar o ecletismo do repertório. E os músicos adoram.

O spalla associado Rommel Fernandes, que trocou a carreira nos Estados Unidos para se juntar à Filarmônica, tem particular predileção por compositores dos anos 20 e 30, como Bartók e Stravinsky (O beijo da fada-Divertimento e a Sinfonia em Dó estão na programação 2017).

– Não é música que você saia assoviando depois do concerto, mas acho que o público de hoje aceita melhor do que na época desses compositores – opina Fernandes.

– Em uma sala com acústica perfeita, tudo se escuta e, apesar de desafiador, é incrivelmente gratificante fazer música aqui – acrescenta Tássio Furtado, trompetista do grupo.

A decisão de diversificar o repertório nasceu junto com a Filarmônica e o objetivo continua o mesmo: tirar o público da zona de conforto.

– Uma orquestra não é um repositório de obras consagradas, mas um organismo vivo que se alimenta dessas peças, mantém sua relevância no presente e as usa como fonte de inspiração do que se espera para o futuro – opina Mechetti.

E o futuro parece promissor para a Filarmônica de Minas. Mesmo com alguns ajustes decorrentes da crise econômica, a orquestra tem um programa ambicioso para 2017. Além da extensa agenda de concertos, a orquestra realiza a oitava edição do Festival Tinta Fresca, com apresentação de obras inéditas, um Laboratório de Regência para 15 jovens músicos e uma nova edição dos Concertos Didáticos para alunos da rede escolar.

Só este ano, 5,8 mil estudantes de 79 escolas da capital mineira assistiram aos Concertos Didáticos. Alguns, provavelmente, estarão entre aqueles jovens uniformizados que, numa noite qualquer, vão se misturar ao diversificado público da Sala Minas Gerais para compartilhar a gratificante experiência de ouvir boa música, executada por uma orquestra feliz em tocá-la.

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Sala Minas Gerais / Foto: Rafael Mota